Garibaldi Alves Filho e o golpe institucional
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01:14
Por Modesto Neto
Os ponteiros do relógio corriam
para apontar a meia-noite quando a figura rechonchuda do senador Garibaldi
Alves Filho (PMDB do RN) se movimentava lentamente ao caminho da tribuna do
Senado da República. Cabelos brancos, terno cinza, camisa azul, gravata
listrada e óculos armados no rosto de bolacha, o senador que recebeu mais de 1
milhão de votos em 2010, ostenta naturalmente um arquétipo desajeitado e nada
elegante. O presidente do Senado, Renan Calheiros, ao convoca-lo como o 43º
orador da noite, o sorriu jocosamente como quem encontra um amigo antigo.
Garibaldi Filho que é notadamente
lento e desajeitado não conseguiu concluir a leitura de seu discurso, mas
enquanto pôde fez divagações sobre sua gestão à frente do Ministério da
Previdência Social, justificando sua permanência no ministério em virtude de uma
missão confiada a um notável agente público. Na verdade o velho cacique
potiguar só se tornou Ministro de Estado em decorrência da relação puramente
fisiológica que seu partido manteve durante 13 anos com os Governos do PT. O PMDB sempre trocou apoio parlamentar por
pedaços da maquinaria do Estado, onde pudesse espraiar colegas e aliados. A
relação de bons aliados entre o PT e PMDB já nasceu podre e ao longo dos anos o
odor só cresceu. O certo é que com esta aliança só perdeu o Brasil e o povo
brasileiro.
Vale destacar que Garibaldi Alves
que é advogado de formação e um parlamentar medíocre foi indicado para a
Previdência sem absolutamente nenhuma credencial técnica. O seu antecessor, o
ex-ministro Eduardo Gabas é contador de formação e funcionário de carreira do
INSS desde março de 1985, além de ser especialista e pós-graduado na Gestão de
Sistemas de Seguridade Social pela Universidade de Alcalá da Espanha. Garibaldi
nunca foi um estudioso da seguridade social e como governador do Rio Grande do
Norte deixou o legado da venda e privatização da COSERN, então agência estatal
de fornecimento de energia. Garibaldi sempre manteve o estilo taciturno e boa
praça: conservou relações e sempre buscou está ao lado dos projetos políticos
vitoriosos independentemente da cor partidária. Neste sentido, o senador
potiguar é realmente idêntico ao seu partido (o PMDB).
Garibaldi Alves Filho que já foi prefeito
de Natal, governador do Rio Grande do Norte, Ministro da Previdência Social,
deputado estadual e senador-presidente do Senado da República e tem transito
livre com seus pares. A verdade é que Garibaldi Filho é o autorretrato do
Senado da República: parece institucionalmente inofensivo e bobo, mas não
titubeia no momento de engatar a marcha do retrocesso quando isso significa
beneficiar aliados. Garibaldi Filho disse apoiar o “minucioso parecer”
elaborado pelo relator do caso na Comissão Especial do Impeachment, Antonio
Anastasia (PSDB-MG), e declarou voto pelo prosseguimento do processo por crime
de responsabilidade afastando Dilma e abrindo caminho para o governo ilegítimo de
Michel Temer.
No seu discurso Garibaldi falou
sobre o obvio: é preciso uma reforma política. Nesta frase é possível ter um
acordo com o senador. Nós acreditamos que uma reforma política é importantíssima,
especialmente se ela banir parlamentares inertes como o próprio Garibaldi e
modificar a feição – horrorosa – do parlamento brasileiro. O Senado como uma
casa de ex-governadores financiada por grandes empresários em absolutamente nada
contribui para abrir novas perspectivas para o povo brasileiro. O golpe institucional
que Garibaldi apoio só torna a perspectiva do povo pobre do Brasil ainda mais
obscura. A única perspectiva possível com Temer no poder é escuridão.
(*) Modesto Neto é historiador,
cientista social e dirigente do PSOL-RN.
