Janine defende educação sem currículos rígidos
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21:32
Folha S. Paulo – Josias de Sousa
Escolhido por Dilma Rousseff para
comandar o Ministério da Educação, o filósofo Renato Janine Ribeiro tem ideias
avançadas para o setor. Ele discorreu sobre elas num artigo veiculado há quatro
meses na coluna semanal que mantém no jornal ‘Valor Econômico’. Defendeu, por
exemplo, a tese segunda a qual a educação deveria deixar de seguir currículos
rígidos, tornando-se mais prazerosa e criativa.
Para o novo ministro, não se pode
entender o mundo moderno sem levar em conta o seguinte: “a educação não termina
no último dia do ensino profissional ou do curso superior —nem nunca.” Janine
avalia que certos diplomas, como o de médico, poderiam ser “concedidos com
exigência de atualização” em prazos pré-determinados. Ministradas em “cursos
avaliados”, essas atualizações seriam “obrigatórias, previstas em lei”.
Janine defende também a criação
de “um crescente leque de cursos abertos, sem definição profissional, que
aumentarão incrivelmente a qualidade da vida dos alunos.” Ele explicou: “Para
cada curso de atualização em genoma para profissionais de saúde, haverá dezenas
sobre filmes de conflitos entre pais e filhos, de aprendizado com religiões
distantes, de arte em videogames, destinados a cidadãos em geral, de qualquer
profissão —e a lista não acaba.”
O escolhido de Dilma deu exemplos
do que pode suceder num sistema educacional que inclua os cursos abertos: “Quem
cresceu num meio limitado pode descobrir que o sentido de sua vida é a
fotografia (como o jovem favelado que é o narrador do filme ‘Cidade de Deus’):
um artista se revela. Ou um menino sensível, alvo de ‘bullying’ na escola,
descobre que é homossexual e que não está sozinho no mundo: um ser humano se
liberta da ignorância que o prendia. Assim, a cultura aumenta seu próprio
contingente – com a descoberta de novos artistas – mas, acima de tudo, amplia a
liberdade humana.”
Noutros tempos, anotou Janine, a
identificação da vocação das pessoas seguia padrões engessados. “Cada pessoa
vivia num pacote identitário: por exemplo, homem branco abonado, casado,
filhos, advogado ou médico ou engenheiro. Tudo isso vinha junto.” Hoje, avalia
o novo titular da Educação, os horizontes alargaram-se.
“Há milhares de profissões”,
escreveu Janine. “No limite, cada um cria a sua. Profissão, emprego, orientação
sexual, estado civil, crenças políticas e religiosas, tudo isso se combina como
um arco-íris felizmente enlouquecido. Ninguém é mais obrigado a se moldar a um
pacote. Mas isso não é fácil, exige uma interminável descoberta de si e, por
que não dizer, coragem pessoal.”
Janine esgrimiu no artigo um
ponto de vista ousado sobre quais seriam os principais ministérios da
Esplanada. Começou brincando com as palavras: “Qualquer um sabe responder quais
são os principais ministérios do governo federal —aliás, de qualquer governo no
mundo atual. São os da área econômica. Só que não”.
Depois, foi ao ponto: “Os
ministérios que definem o futuro de um país, que deverão ser decisivos nos
próximos anos, e em poucas décadas serão reconhecidos como os principais, são
três: Cultura, Atividade Física (como eu chamaria a atual pasta dos Esportes) e
Meio Ambiente.”
Tomado pelas palavras, Janine
talvez preferisse que Dilma o tivesse convidado para chefiar a pasta da
Cultura. No artigo, ele falou de educação como um complemento da cultura.
Traçou um paralelo: “A cultura tem a ver com a educação. As duas pressupõem que
o ser humano não nasce pronto, mas é continuamente construído pela descoberta
dos segredos do mundo e pela invenção do novo.”
Prosseguiu: “Na educação como na
cultura, não há limite: sempre se pode descobrir ou inventar mais. Nada é tão
crucial quanto elas para uma sociedade em mudança rápida, como a nossa. A
educação e a cultura, nas suas várias formas, fazem crescer a liberdade das
pessoas.”
Janine recordou que, em artigo
anterior, afirmara que “a cultura é a educação fora de ordem, livre e bagunçada.”
Comparou: “Para cursos, há currículos. Para a cultura, não. Um curso sobre a
abolição da escravatura é educação, o filme ‘Lincoln’ é cultura.”
Foi nesse ponto que o novo
ministro revelou o que seria para ele o modelo ideal de educação: “Cada vez mais,
a educação deverá se culturalizar: um, deixando de seguir currículos rígidos;
dois, tornando-se prazerosa; três, criativa.” Na opinião de Janine, deve-se
conservar apenas “um currículo norteador, que leve da infância à idade adulta.”
Sem perder de vista que a educação jamais termina.
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