Os sete governos derrubados pelos EUA
Postado por
Unknown
às
21:12
A era de golpes apoiados pela CIA despontou de maneira
dramática: um general norte-americano viaja até o Irã e encontra “velhos
amigos”; dias depois, o Xá ordena que o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh
deixe seu cargo. Quando os militares iranianos hesitam, milhões de dólares são
injetados em Teerã para corromper os apoiadores de Mossadegh e financiar
protestos de rua. Os militares, reconhecendo que a balança do poder começou a
pesar mais do outro lado, derrubam o primeiro-ministro, que vive o resto de sua
vida sob prisão domiciliar. Este foi, como um documento da CIA atesta, “uma
operação norte-americana do começo ao fim”, e um dos muitos golpes apoiados
pelos EUA que aconteceram pelo mundo durante a segunda metade do século XX.
Alguns líderes, tanto ditadores quanto eleitos
democraticamente, foram pegos em meio ao conflito entre EUA e URSS da Guerra
Fria - uma posição que custaria seus postos (e, para alguns, suas vidas)
conforme a CIA tentava instalar “seus homens” no comando dos estados. O governo
dos EUA reconheceu publicamente algumas dessas ações secretas; na verdade, o
papel da CIA no golpe de 1953 tornou-se público esta semana. Em outros casos, o
envolvimento da CIA ainda está somente sob suspeita.
O legado do envolvimento secreto dos EUA em sete golpes
militares bem sucedidos (para não mencionarmos o número de intervenções
militares norte-americanas contra regimes hostis, insurgências apoiadas pelos
EUA, e tentativas fracassadas de assassinatos, incluindo o caso do plano para
matar Fidel Castro com um charuto explosivo), transformaram a mão secreta dos
EUA em um bicho-papão nas tensões políticas de hoje. Mesmo hoje, não obstante a
minguante influência dos EUA no Cairo, teorias da conspiração sugerem que tanto
a Irmandade Muçulmana quanto o governo militar possuem uma sociedade com os
Estados Unidos.
Abaixo, uma breve história dos casos confirmados de golpes
apoiados pela CIA espalhados pelo mundo.
Irã, 1953 - Muito se especula sobre o papel da CIA no golpe
que instalou, em 1949, um governo militar na Síria. Apesar disso, a derrubada
do primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadegh é o primeiro golpe durante a
Guerra Fria que o governo dos EUA reconheceu. Em 1953, depois de quase dois
anos de governo Mossadegh - durante o qual ele desafiou a autoridade do Xá e
nacionalizou a indústria do petróleo iraniana antes operada por companhias
britânicas - Mossagedh foi tirado de seu gabinete e preso, passando o resto da
vida sob prisão domiciliar. De acordo com documentos da CIA, “foi a
possibilidade de deixar o Irã aberto para uma agressão dos soviéticos - quando
a Guerra Fria estava em seu auge e os EUA estavam envolvidos em uma guerra não
declarada na Coreia contra forças da União Soviética e da China – que nos fez
planejar e executar o TPAJAX [nome da operação do golpe]”.
Guatemala, 1954 - Apesar dos EUA no início apoiarem o
presidente guatemalteco Jacobo Árbenz - o Departamento de Estado sentia que sua
ascensão apoiada num exército armado e treinado pelos EUA seria um trunfo - o
relacionamento amargou assim que Árbenz tentou realizar uma série de
reformas-agrárias que ameaçavam as posses da empresa norte-americana United
Fruit Company. Um golpe em 1954 tirou Árbenz do poder, colocando uma sucessão
de juntas militares em seu lugar. Detalhes secretos do envolvimento da CIA na
derrubada do líder guatemalteco, que incluíam a equipagem de rebeldes e tropas
paramilitares enquanto a marinha dos EUA bloqueavam a costa guatemalteca,
vieram à luz em 1999.
Congo, 1960 - Patrice Lumumba, o primeiro primeiro-ministro do
Congo (mais tarde, República Democrática do Congo), foi tirado de seu gabinete
pelo presidente congolês Joseph Kasavubu em meio a uma intervenção militar do
exército belga (apoiado pelos EUA) no país. Era um esforço violentíssimo para
manter os negócios belgas depois da descolonização do país. Mas Lumumba manteve
uma oposição armada contra os militares belgas e, após se aproximar da União
Soviética para conseguir suprimentos, foi alvo da CIA assim que a agência
determinou que ele era uma ameaça ao novo governo instalado de Joseph Mobutu. O
Church Committee, uma comissão do Senado formada em 1975 para fiscalizar as
ações clandestinas da inteligência norte-americana, descobriu que a CIA ''ainda
mantinha um contato bastante próximo com os congoleses que expressaram o desejo
de matar Lumumba,'' e que ''oficiais da CIA encorajaram e ofereceram ajuda aos
congoleses em seus esforços contra Lumumba.'' Depois de uma tentativa
interrompida de assassinato de Lumumba, envolvendo um lenço envenenado, a CIA
alertou as tropas congolesas da localização do primeiro-ministro deposto, além
de indicar as estradas que deveriam ser bloqueadas e as possíveis rotas de
fuga. Lumumba foi capturado no final de 1960 e morto em janeiro do ano
seguinte.
República Dominicana, 1961 - A ditadura brutal de Rafael
Trujillo - que incluiu a limpeza étnica de milhares de haitianos na República
Dominicana e a tentativa de assassinato do presidente da Venezuela - terminou
quando ele foi emboscado e morto por dissidentes políticos. Apesar do atirador
que matou Trujillo sustentar
http://www.bbc.co.uk/news/world-latin-america-13560512 que ''ninguém me mandou
matar Trujillo'', ele teve apoio da CIA. O Church Committee descobriu que
''apoio material, sendo três pistolas e três carabinas, foi distribuído para
vários dissidentes… os oficiais norte-americanos sabiam que os dissidentes
pretendiam derrubar Trujillo, provavelmente através de seu assassinato...''
Vietnã do Sul, 1963 - Os EUA já estavam muito envolvidos no
Vietnã do Sul em 1963, e seu relacionamento com o líder do país, Ngo Dinh Diem,
crescia cada vez mais, com tensões que envolviam a repressão de Diem sobre
dissidentes budistas. De acordo com os Pentagon
Papershttp://media.nara.gov/research/pentagon-papers/Pentagon-Papers-Part-IV-B-5.pdf,
em 23 de agosto de 1963, os generais do Vietnã do Sul que planejavam um golpe
contataram oficiais norte-americanos falando sobre seus planos. Depois de
algumas dificuldades e um período de indecisão dos EUA, os generais capturaram
e mataram Diem com apoio norte-americano em 1º de novembro de 1963. Avalia-se
que parte do apoio consistiu em 40.000 dólares de recursos da CIA.
''Para o golpe militar contra Ngo Dihn Diem, os EUA devem
aceitar sua parcela de responsabilidade,'' atestam os Pentagon Papers. ''No
início de agosto de 1963 nós autorizamos, sancionamos e encorajamos os esforços
para o golpe dos generais vietnamitas e oferecemos apoio total para um governo
sucessor… nós mantivemos contatos clandestinos com eles durante o planejamento
e execução do golpe e solicitamos a revisão de seus planos operacionais, além
de sugerir um novo governo.''
Brasil, 1964 - Temendo que o governo do presidente João
Goulart transformaria, nas palavras do embaixador norte-americano Lincoln
Gordon, ''o Brasil na China de 1960'', os EUA apoiaram o golpe liderado por
Humberto Castello Branco, à época chefe do Estado-Maior. Nos dias anteriores ao
golpe, a CIA encorajou manifestações contra o governo, assim como proveram
combustível e ''armas de origem não-norte-americanas'' àqueles que apoiavam os
militares. ''Eu acho que devemos tomar todas as medidas necessárias, e estarmos
preparados para qualquer coisa que precisemos fazer,'' disse o presidente
Lyndon Johnson a seus conselheiros que planejavam o golpe, de acordo com
documentos obtidos pelo National Security Archive. Os militares brasileiros se
mantiveram no poder até 1985.
Chile, 1973 - Os Estados Unidos nunca desejaram que Salvador
Allende, o candidato socialista eleito presidente em 1970, assumisse seu posto.
O presidente Richard Nixon mandou que a CIA fizesse que a economia do Chile
''gritasse'', e a agência trabalhou com três grupos chilenos, cada um
planejando um golpe contra Allende em 1970. A agência foi tão longe a ponto de
fornecer armamento, mas os planos foram por terra depois que a CIA perdeu a
confiança em seus contatos. As tentativas norte-americanas de destruir a
economia chilena continuaram até que o general Augusto Pinochet liderou um
golpe militar contra Allende em 1973. O relatório oficial da CIA sobre a tomada
do poder em setembro de 1973 aponta que a agência ''estava consciente dos
planos de golpe dos militares, possuía relacionamentos para coleta de dados de
inteligência com os conspiradores, e - pelo fato da CIA não desencorajar a
tomada e até procurar instigar um golpe em 1970 - parecia tolerá-lo.'' A CIA
também conduziu a campanha de propaganda de apoio ao novo regime de Pinochet
depois que ele tomou posse em 1973, apesar do conhecimento de severos abusos
contra os direitos humanos, incluindo o assassinato de dissidentes políticos.
Fonte: Tradução de Roberto Brilhante na Carta Maior
Categorias:
Internacional
