Fachin e a incapacidade democrática
Postado por
Unknown
às
21:52
Por João Paulino*
Depois de quase nove meses de
espera, ansiedade, tensão e desgaste — principalmente político — no dia
14/04/2015, a presidente Dilma Rousseff indicou para a vaga no Supremo Tribunal
Federal, deixada pelo ex-ministro e ex-presidente do Pretório Excelso Joaquim
Barbosa, o jurista Luís Edson Fachin, professor titular na Universidade Federal
do Paraná (UFPR) na cadeira de Direito Civil, mestre e doutor pela PUC/SP,
realizou seu pós-doutoramento no Canadá, professor visitante do King’s College
na Inglaterra e pesquisador convidado do Institut Max Planck na Alemanha. Autor
de diversos livros na área do Direito, e um fiel defensor da visão
constitucional do Direito Civil, entendendo que este se encontra subordinado
aos ditames da Carta Política, sendo esta seu vetor afirmativo. Um verdadeiro
“Guardião da Constituição”. Em outra oportunidade já havia entrado na lista de
nomes para indicação para o STF, mas no momento acabou sendo preterido em
relação ao eminente ministro Luís Roberto Barroso. Um douto jurista, que teve
sua indicação festejada pela comunidade jurídica e bem recebido pela comunidade
política.
O conhecimento de Luís Edson
Fachin e seu respeito à Constituição Federal, é patente, inquestionável, que
resta acima de suspeitas de qualquer tipo; e a comemoração da indicação do seu
nome para o Supremo Tribunal Federal, confirmou isso. No entanto,
misteriosamente, surgiram críticas “além mar” — ou seja: de pessoas fora do
ramo jurídico — sobre a indicação do seu nome, colocando em xeque a idoneidade
de seu nome para a vaga de ministro do Supremo. Tais críticas pautam-se no
“poderoso” argumento de que Fachin é um “entusiasta do projeto de poder do PT”
e o pior: “PEDIU VOTO PARA A PRESIDENTE DILMA”!!! É um absurdo! Quanto absurdo!
É realmente um absurdo ver uma história acadêmica ser jogada no lixo pelo fato
de se exercer um direito constitucionalmente garantido. Fachin é criticado
também pelo seu posicionamento progressista quanto a pautas que “pisam nos
calos” dos conservadores, como por exemplo, a reforma agrária que é um tema tão
importante e tão pouco discutido. Outro ponto que foi suscitado, sugerindo que
o presidente do Congresso Nacional, Renan Calheiros (PMDB-AL) tomasse cuidado
com Fachin, pois este poderia prejudicá-lo em um processo que corre no Supremo contra
ele. Quanto a este último argumento, é melhor não chegar a discutir o mérito,
por motivos óbvios.
Todas as críticas à Fachin se
pautam em uma insanidade, uma cegueira política e institucional, que dão
essência aos posicionamentos “críticos” de parte da sociedade e da mídia que
querem conservar a todo custo pautas retrógradas, reacionárias e que não
conseguem absorver as novas situações fáticas estabelecidas pela Democracia e
pela evolução da sociedade. Para defenderem com unhas, facas, fuzis e dentes, tal
percepção deflagram “críticas” sem fundamento contra todos, e relativizam seus
discursos. Outro dia lera um texto, de um desses mesmos que criticaram o Fachin
por ter declarado seu voto à presidente Dilma, defendendo discursos de ódio
contra negros, homossexuais; diziam que era liberdade de expressão. Será que
para ser indicado ao STF precisa-se viver em um Estado de Exceção, que direitos
fundamentais básicos, como a expressão, sofrem limitações ou são completamente
retirados? Será que para ser indicado ao Supremo, é necessário não ter
posicionamentos? Será que é preciso não pensar sobre política? Uma coisa é ter
seus posicionamentos, outra completamente diferente é ser juiz e decidir —
inclusive, esses mesmos que são contra a indicação de Fachin, defendem os
posicionamentos do juiz Moro, que exprime seus ideários particulares, em forma
de decisão judicial. Luiz Edson Fachin já demonstrou sua capacidade e
idoneidade ao ser um bravo defensor da Constituição, algo que boa parte do
Judiciário brasileiro não é, quando deveria ser. É preciso lembrar-se que antes
de futuro ministro, ele é um cidadão como todos, que tem direitos e deveres
como todos. Portanto, a sua indicação é legítima, inclusive por ter sido por
uma presidente democraticamente eleita. Será sabatinado no Senado Federal como
exige nossa Constituição, e só não assumirá a vaga de ministro se não atender
aos requisitos necessários para ocupar uma vaga no mais importante Tribunal
deste país.
As críticas à Fachin demonstram a
incapacidade, o analfabetismo político e democrático, daqueles que não
conseguem diferenciar as coisas, e lançam suas verborragias sem medir as
consequências, sem entender as dimensões que elas tomam e colocam em xeque anos
construindo uma carreira e uma história. A incapacidade gnosiológica dessas
pessoas é diariamente um ataque ao Estado Democrático de Direito.
A Democracia é o vetor de todas
as nossas ações e pensamentos, seja daquele cidadão para o qual a mídia não
volta seus olhos, seja para os que compõem a cúpula do poder estatal, como é o
Supremo, Guardião da Constituição e por corolário, dos valores democráticos.
Democracia é o fim e o meio; é o determinante que horizontaliza as relações
sociais, portanto, não queiram espezinhá-la ou utilizá-la como meio capcioso
para deslegitimar aqueles que a defendem.
* JOÃO PAULINO, 20, Bacharelando em
Direito pela UnP e membro do coletivo Alternativa Socialista Nova Práxis.
