“Mãe, onde dormem as pessoas marrons?”
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23:43
El País – Eliane Brum
Uma amiga me conta, na volta de
uma viagem a Paris com a família. “Só quando estava lá é que percebi que minha
filha estava, literalmente, andando na rua pela primeira vez”. A menina tem quatro
anos. Classe média. Mora em São Paulo, num condomínio fechado. Do condomínio,
vai de carro para a escola privada. Da escola privada volta para casa. No fim
de semana, fica dentro do seu condomínio ou vai para outros condomínios, de
casas ou prédios, cercados por muros ou grades, com guaritas e porteiros. Ou
vai a shoppings, onde chega pelo estacionamento, de onde sai pelo
estacionamento. Desloca-se apenas de carro, bem presa na cadeirinha, protegida
atrás de janelas fechadas, vidros escurecidos com insulfilm. De muro em muro, a
criança passou os primeiros quatro anos de vida sem pisar na rua, a não ser por
breves e arriscados instantes. E apenas quando a rua não pôde ser evitada. E
apenas como percurso rápido, temeroso, entre um muro e outro.
A cidade é uma paisagem do outro
lado do vidro, uma paisagem que ela espia mas não toca. O fora, o lado
exterior, é uma ameaça. O outro é aquele com quem ela não pode conviver, tanto
que não deve nem enxergá-la. Até mesmo contatos visuais devem ser evitados,
encontros de olhares também são perigosos. Qualquer permeabilidade entre o
dentro e o fora, entre a rua e o muro, seja na casa, na escola, no shopping ou
no carro, ela já aprendeu a decodificar como intrusão. O outro é o intruso,
aquele que, se entrar, vai tirar dela alguma coisa. Se a tocar, vai
contaminá-la. Se a enxergar, vai ameaçá-la.
A rua, o espaço público, é onde
ela não pode estar. E por quê? Porque lá está o outro, o diferente. E ela só
pode estar segura entre seus iguais, no lado de dentro dos muros.
Minha amiga chocou-se, de repente
desconhecida de si mesma. Tinha passado os primeiros quatro anos da vida da
filha preocupada em descobrir qual era a casa mais protegida que poderiam
comprar juntando as economias dela e do marido, a casa dentro de muros, mas com
espaço de convivência, com um “playground” em que as crianças de dentro, as
crianças “certas”, se encontram. Em seguida, preocupada em escolher uma escola
que garantiria mais habilidades competitivas quando a menina chegasse à vida
adulta e que também fosse uma escola protegida, na qual a filha ficasse segura
no lado de dentro. Não tinha sequer percebido que estava criando uma criança
com horror a todos aqueles que estavam do lado de fora dos muros e com pavor de
pisar na rua.
Outra mãe, esta de um menino,
ficou sem respostas diante de duas perguntas sequencias do filho pequeno: “Por
que ela é marrom?”, o menino perguntou, referindo-se à empregada. E, logo em
seguida: “Onde dormem as pessoas marrons?”, já que as “pessoas marrons”
deixavam os muros ao final do dia, tanto na casa dela quanto na casa dos
amiguinhos, mas ele não sabia para onde iam. Outro condomínio?
Podem parecer acontecimentos
banais para alguns, afinal, os tempos são assim. Podem parecer histórias de
terror, para outros, afinal, os tempos são assim. Para mim as crianças
denunciam a brutalidade do país que criamos para elas, fazendo as perguntas que
os adultos preferem não fazer a si mesmos. Não sabemos que pessoas serão estas
que crescem entre muros e que aprendem a escanear o outro, o diferente, como
ameaça.
Mais preocupados devemos ficar
quando a resposta da Câmara dos Deputados à violência se encaminha para a
redução da maioridade penal, de 18 para 16 anos, nos crimes considerados mais
graves. O que estão tentando fazer, estes que manipulam o medo? Querem garantir
que esses outros, adolescentes que não tiveram educação nem saneamento nem
saúde nem lazer nem acesso a nenhum de seus direitos garantidos pela
Constituição, esses outros que tiveram as leis que os protegem violadas desde o
nascimento, crianças dessas “pessoas marrons” que o menino não sabe para onde
vão à noite nem quem cuida dos filhos delas, sejam encarcerados mais cedo
porque já decretaram que, para elas, não há solução.
UMA SOCIEDADE DE MUROS SEMPRE VAI PRECISAR FORJAR MONSTROS DO LADO DE
FORA PARA SEGUIR JUSTIFICANDO SEUS PRIVILÉGIOS E MANTENDO-OS INTACTOS
Para estes outros é apagada a
responsabilidade do Estado de ajudá-los a construir um caminho alternativo e
dar-lhes acesso a direitos que sempre lhe foram negados. Sem as perguntas que
as crianças poderiam fazer a adultos que preferem anular os pontos de
interrogação, os adolescentes que praticam crimes são esvaziados de história
para que a sociedade seja absolvida e, portanto, desresponsabilizada. Os
deputados manipulam o medo de seus eleitores para torná-los uma ameaça
incontornável. Varre-se então das ruas aqueles que sujam a paisagem, para que
nem mesmo seja preciso enxergá-los do outro lado dos vidros, e os colocam em
instituições muradas onde o lado de dentro se assemelha a campos de concentração.
Se alguém acha que excluir e punir mais e mais cedo é o caminho para um país
sem muros, precisa voltar a raciocinar. Não é preciso ser vidente para saber o
que a vingança provoca num indivíduo e num país quando passa a ocupar o lugar
da justiça. E os que estão atrás de seus tantos muros se vingam do quê, valeria
a pena perguntar?
A História já nos mostrou o que
acontece quando o Estado determina que um tipo de outro encarna a ameaça e
deve, portanto, ser separado e confinado. E depois, qual é o próximo passo ou
qual é a solução final? Pena de morte, extermínio? Cuidado. Em algum momento
aqueles que se iludem que estão seguros por trás dos muros que ergueram podem
se tornar o outro a ser eliminado. Uma sociedade fundada em muros cada vez mais
altos sempre vai precisar de uma ameaça no lado de fora para culpar pelo seu
mal-estar, para que as engrenagens continuem funcionando, garantindo a
desigualdade e enriquecendo os mesmos de sempre. Em vez de se horrorizar com a
violência do sistema de educação pública, que sequestra o presente e o futuro
destas crianças que têm cor, classe social e endereço, preocupam-se em
desumanizá-las, apagando singularidades e trajetórias, esvaziando-as de
sentidos para torná-las monstruosas. Quando conseguirem encarcerar todos os
filhos de pobres que não puderam converter em mão de obra barata, talvez
prendendo logo no nascimento, já que o aborto é condenado pelos mesmos que
defendem a redução da maioridade penal, há de se encontrar uma nova ameaça para
manter o sistema de privilégios intacto.
Uma sociedade de muros sempre vai
precisar forjar monstros para seguir justificando a desumanização e o sistema
não oficial de castas. Aqueles que tentam se sentir seguros e criar seus filhos
em segurança não estão inseguros porque há um outro ameaçador do lado de fora.
Essa é só a aparência que mantém tudo como está. O que precisamos não é erguer
muros cada vez mais altos, mas derrubá-los e nos misturarmos nas ruas da
cidade.
NO CONDOMÍNIO BRASIL, O SÍNDICO REGULA O SOFRIMENTO DA VIDA PARA
TRANSFORMÁ-LO EM FORMAS DE INSATISFAÇÃO QUE ELE POSSA ADMINISTRAR
O Brasil atual é uma realidade
esgarçada. Entre as mais recentes tentativas de compreendê-lo destaco uma bem
interessante, proposta pelo psicanalista Christian Dunker. Está num livro que
ele lançou há pouco, chamado Mal-estar, sofrimento e sintoma – uma
psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo). Mas poderia chamar-se
“Condomínio Brasil”. Dunker pensa o país a partir da lógica do condomínio, que
tem em Alphaville, construído nos anos 70 nos arredores de São Paulo, sua
expressão mais marcante. Vale a pena, como aponta o autor, lembrar o filme de
Jean-Luc Godard de mesmo nome. Alphaville, o do cineasta francês, se passa em
outro planeta, onde tudo é controlado por um computador central, o Alpha 60. Um
agente secreto é enviado a Alphaville para destruir o computador e eliminar seu
criador. Em Alphaville não há singularidades. Amor, poesia ou emoção estão
proibidos. São vetadas as interrogações. É banido o “por quê?”. Só é permitido
o modo explicativo: “porquê”.
Numa das cenas antológicas, como
lembra o filósofo Vladimir Safatle na apresentação do livro, o agente é
interrogado pelo computador e responde a suas perguntas com citações de Jorge
Luis Borges, Blaise Pascal e Friedrich Nietzsche. A máquina, confusa, o libera.
“Esta foi a maneira encontrada por Godard para mostrar o que Alphaville havia
deixado de fora de suas fronteiras: a indeterminação que vem junto à palavra
poética, esse pavor pascaliano diante do silêncio dos espaços infinitos”,
escreve Safatle. “Ou seja, fora de Alphaville estava toda a experiência
possível.”
E este Condomínio Brasil? A
hipótese formulada por Christian Dunker é de que “a vida em forma de
condomínio” insere o nosso mal-estar no que chama de capitalismo à brasileira.
A lógica do condomínio transforma os problemas em problemas de gestão, no qual
o síndico adota o papel de regulador do sofrimento – e também do gozo. Ou, nas
palavras de Dunker, “aquele que deve gerir o sofrimento da vida (...) para
transformá-lo em formas palpáveis de insatisfação, que ele poderá administrar”.
Ou, mais adiante: “Nosso déficit de felicidade nos leva ao sentimento, mais ou
menos invejoso, de que o vizinho raptou um fragmento do nosso gozo. O síndico
representa tanto a lei mal formulada quanto o gozo excessivo do vizinho”. A
segregação, como diz Dunker, surge do fracasso em articular a diferença e a
divisão. É um livro ousado e complexo, que pensa sobre o caminho brasileiro de
“despolitização do sofrimento, medicalização do mal-estar e condominialização
do sintoma”. Recomendo a leitura. Aqui, me detenho apenas em algumas reflexões
que o livro me provocou.
Primeiro, é preciso estabelecer
as fronteiras. Os que estão do lado de dentro, com a ilusão de proteção, os que
estão do lado de fora tentando entrar porque há algo lá que eles não têm. Há
ainda aqueles que entram e saem em períodos determinados, pela porta lateral ou
dos fundos, para desempenhar serviços e manter a ilusão da paisagem intacta
(grama aparada, árvores podadas, ruas e casas limpas etc). Estes outros,
tolerados porque necessários, mas uniformizados e indistintos para reforçar a
única (des)identidade que importa: a da função, esta estratégica, de maquiar a
realidade, limpando a sujeira para que tudo pareça imutável. Garantindo assim a
manutenção do paraíso como paraíso que não decai nem se arruína. Ao final,
autolimpando-se ao deixar os muros. Vale a pena repetir a pergunta perturbadora
do menino do início: “Mãe, onde dormem as pessoas marrons?”.
A REPRESSÃO AOS “ROLEZINHOS” É UMA AMOSTRA DO QUE ACONTECE QUANDO OS
QUE ESTÃO FORA DECIDEM ENTRAR NO CONDOMÍNIO QUE É O SHOPPING
Há que se desempenhar essa função
de “limpar e manter”, mas sendo o mais invisível possível. Entrando e saindo
numa cor só, para que invisível também se torne tudo aquilo que escapa ao
controle. O que nos leva à próxima pergunta: afinal, o que de fato se limpa e o
que é preciso manter? É possível arrancar a erva daninha que avança sobre a
grama, anunciando que essa é uma guerra perdida. É possível tirar o mais rápido
possível o lixo da vista, antes que ele nos lembre de que cheiramos mal e
destruímos muito. Mas não é possível barrar o envelhecimento, a doença e a
morte, nem a insatisfação, a ansiedade e a angústia, nem o gosto amargo na boca
que só faz aumentar porque o paraíso não era bem como o prometido e a
felicidade soa cada vez mais nervosa. Tampouco é possível negar a percepção
crescente de que os vizinhos, os iguais, são menos cordiais, interessantes ou
suportáveis do que a publicidade garantiu. O que não se consegue deixar do lado
de fora é também o mal-estar que o levou para dentro. O custo de estar dentro é
alto. Talvez mais alto do que a maioria perceba.
O que acontece quando aquele que
está fora decide entrar? Nesta altura, imagino que boa parte dos leitores possa
pensar em assalto. Não. Lembro aqui os “rolezinhos”, ocorridos entre o final de
2013 e os primeiros meses de 2014. O momento em que jovens da periferia, a
maioria deles negros, decidiram marcar pela internet passeios coletivos nos shoppings
e foram humilhados, reprimidos e criminalizados. Qual foi a lei que quebraram?
Jovens pretos e pobres não podem frequentar shoppings em grande número? É esta
a lei não escrita? O fato é que seu passeio, chamado então de “rolezinho”, foi
decodificado pela clientela habitual dos shoppings e pelas forças de segurança
do Estado como “assalto”. Mas, de fato, o que se “assaltava” ali, na
reivindicação de ocupar o lado de dentro do condomínio que é o shopping, para
se divertir com os amigos?
Em maio deste ano, chegou-se a um
desfecho só possível num país regido pela lógica do condomínio: a condenação de
três jovens que organizaram pelas redes sociais um passeio no shopping. Foi
feita então uma “vaquinha” de solidariedade na internet para ajudá-los a pagar
a multa de R$ 394 cada um. Para eles, que têm empregos informais e recebem
salário mínimo, o valor pode inviabilizar o sustento. Eles não entendiam pelo
que estavam sendo condenados. No sentido literal, mesmo. Não sabiam qual era o
motivo da condenação alegado pelo juiz, mas assinaram porque foi dito que era o
melhor para eles. A justiça aparece aqui como um condomínio em que um dos
vários muros é a linguagem.
O condomínio, essa figura
concreta, que tão bem conhecemos ou por estar dentro ou por estar fora, é
também uma alegoria para compreender todos os outros condomínios dessa vida de
muros. A hipótese sugerida por Christian Dunker nos ajuda a pensar sobre
questões profundas da atual sociedade brasileira, expressada também nos casos
mais recentes de violência, como o já mencionado esforço de um grupo de
deputados para aprovar a redução da maioridade penal e encarcerar adolescentes
mais cedo atrás de outros muros. Ou o apedrejamento da menina de 11 anos
vestida com as roupas da sua religião, o candomblé, por dois homens que
gritavam: “Sai demônio! Vão queimar no inferno, macumbeiros!”. A violência
resultou num ferimento na cabeça, um desmaio e a perda momentânea da memória da
criança, sem contar as sequelas psicológicas.
OS RELIGIOSOS QUE SE INDIGNARAM CONTRA A TRANSEXUAL NO LUGAR DE CRISTO
DEFENDERAM SEUS MUROS, AO PRIVATIZAR SÍMBOLO E SOFRIMENTO, TORNANDO-OS
PROPRIEDADES DO SEU CONDOMÍNIO
Entre os casos recentes de
violência, podemos pensar ainda na indignação de religiosos contra a artista
transexual que encenou a crucificação de Cristo na parada LGBT (Lésbicas, Gays,
Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) para denunciar a
crucificação cotidiana vivida por todos eles. Ao se indignarem com uma
transexual no lugar de Cristo, os religiosos defenderam seus muros, na crença
de que o símbolo e o sofrimento são privatizáveis e privatizados e, assim
convertidos, pertencem ao seu condomínio. Sem contar a mulher que, enquanto era
confundida com a “mãe” da criança, pôde permanecer no Clube Pinheiros, em São Paulo,
sem ser perturbada. Ao ser descoberta como “babá” da criança passou a ter
problemas para entrar e exigiram-lhe que usasse uniforme branco, para que não
fosse confundida nem frequentasse espaços reservados apenas para sócios. Os
lugares e as fronteiras não podem ser borrados para que os privilégios atrás
dos muros se mantenham cimentados.
São condomínios murados que
proliferam no Brasil, com cercas cada vez mais violentamente defendidas, porque
já não basta deixar o outro do lado de fora, é preciso agora eliminá-lo. É
também de condomínios e de muros que se trata quando, nas redes sociais da
internet, torna-se impossível escutar o argumento do outro, porque o lado de
cá, seja ele qual for, tem o privilégio das certezas ou do bem e da justiça e
da crítica. E também ali o outro tem de ficar do lado de fora, porque já
rotulado como ameaça ou desqualificado como direita ou esquerda, dependendo de
que lado se está, não teria nada a dizer que possa ser escutado. Então já não
se escuta e nem se reconhece a sua voz. Neste sentido, se nem todos moram em
Alphaville, é bom olhar bem para dentro, porque pode ter uma Alphaville morando
onde menos se espera, com muros disfarçados de argumentos.
O MURO MAIS DIFÍCIL DE DERRUBAR É AQUELE QUE PROTEGE O PRIVILÉGIO DE
NÃO PRECISAR PENSAR NOS PRIVILÉGIOS
Também muitos dos que se anunciam
como derrubadores de muros (e defensores da diversidade de gente e de ideias)
parecem, na prática, apenas fortalecer as defesas de suas cercas. Vão até onde
os muros podem ser derrubados sem afetar seus privilégios, que às vezes são
apenas a ilusão tão cara e afagada de estarem sempre certos e do lado certo.
Mas há sempre o último muro, aquele que nos obriga a nos movermos, aquele que
toca no privilégio maior, “o de não precisar pensar nos nossos privilégios”, e
este precisa ser mantido a qualquer custo.
O muro mais bem guardado, afinal,
é o de nossa Alphaville interna. A que nos mantém limpinhos, ao lado das boas
causas, mas sem perder nada que nos é caro. “Peraí, perder também não!” Pronto.
Chama o pedreiro para construir mais dois metros de muro para deixar de fora
quem nos lembra do incômodo de que, para deixar o outro entrar, vai ser preciso
perder alguma coisa.
São muitas as armadilhas muradas
em um país tão barbaramente desigual. Volta e meia os mais atentos percebem seu
pé preso em alguma arapuca, justamente quando acreditavam rumar para a
liberdade e para um mundo mais justo. Agora mesmo os condomínios fechados do
tipo Alphaville são vistos por muitos como algo da ordem do ridículo. Mas
também estes parecem renovar sua busca pelo paraíso perdido. A moda no Brasil,
há algum tempo, é comprar pedaços de terra com mata nativa e fontes de água em
algum lugar, como nas regiões serranas ainda disponíveis do Sul e do Sudeste ou
mesmo em pedaços “paradisíacos” da Amazônia.
Seria este anseio uma atualização
do ideal de uma vida sem mal-estar, cercados por outro tipo de iguais, talvez
ainda mais iguais do que os outros? Vizinhos ecologicamente conscientes,
equilibrados por meditação, yoga e a prática saudável de esportes, que se
locomovem em bicicletas e consomem orgânicos, com espaços e propriedades
privadas bem definidas. É altamente sedutor para quem pode escolher seus muros,
mas não seria esta uma renovação do condomínio, tanto de suas ilusões como de
seu caráter de exclusão? Para quem é deixada a luta pelo espaço público para
todos, em cidades cimentadas onde falta tanto água quanto árvores quanto o
reconhecimento da humanidade do outro?
“Cidades Rebeldes” é o nome de um
seminário promovido pela editora Boitempo e pelo SESC, na segunda semana de
junho, que reuniu alguns pensadores da maior relevância sobre o tema, tanto
brasileiros, como o próprio Christian Dunker, autor do livro citado
anteriormente, quanto estrangeiros como o geógrafo marxista David Harvey. Era
também um encontro das esquerdas nesse momento tão desafiador, em que as ruas
do país foram tomadas por gritos de direita. Mas houve uma rebelião no debate
que debatia a rebelião. O Movimento Independente Mães de Maio divulgou um
manifesto cortante com o seguinte título: “A rebelião não será gourmetizada”.
(Leia aqui. E sugiro ler também os comentários, para compreender o quadro
maior).
O “Mães de Maio” tem na origem um
grupo de mulheres, a maioria negras, pobres e periféricas, que perderam seus
filhos assassinados, suspeita-se que muitos deles executados pela polícia, nas
ruas do estado de São Paulo em maio de 2006. O grupo faz a denúncia cotidiana
da violência praticada pelo Estado contra os mais pobres. Costuma chamar
Geraldo Alckmin de “governador genocida” e denuncia o que chama de “terrorismo
de Estado”. Também empresta o nome à Comissão da Verdade que investiga os
crimes cometidos pelo Estado no período democrático. Neste seminário, o
movimento foi convidado de última hora para substituir um convidado de primeira
hora que precisou cancelar sua participação. Mas recusou o convite. No
manifesto explica o porquê.
Entre as justificativas, o Mães
de Maio denuncia uma ausência considerada por muitos uma obscenidade: a falta
do Movimento Passe Livre (MPL), que provocou as manifestações de 2013 no país,
na grade dos debatedores. Também negou a legitimidade de convidados como Luiz
Inácio Lula da Silva, que cancelou sua participação antes do início do
seminário, e o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. Este último é
considerado um repressor dos protestos de 2013, contra o aumento da tarifa do
transporte público, o que tornaria sua presença num seminário sobre cidades
rebeldes uma ofensa. Não me recordo de nenhum outro manifesto recente de
movimentos sociais tão contundente em sua crítica ao PT, definido como o
“agonizante Partido dos Trabalhadores” e a Lula, chamado a certa altura de
“este sujeito”.
NO BRASIL ATUAL, PARA TER LEGITIMIDADE NÃO BASTA FALAR SOBRE O OUTRO, É
PRECISO FALAR COM O OUTRO
Há muitas interpretações
possíveis para a rebelião contra o seminário sobre a rebelião. Também há muitas
versões. Todas elas fascinantes e muito mais fundamentais para compreender o
atual momento do que pode parecer à primeira vista. Como estamos murados,
porém, muitos dos sentidos possíveis foram apagados por polarizações (sempre
elas). Alguns desqualificaram o debate já antes do manifesto, por ter nele
figuras do PT. Logo, nada ali, nem todos os outros, inclusive críticos do PT,
poderiam ser escutados. Outros desqualificaram o Movimento Independente Mães de
Maio. Outros ainda magoaram-se porque suas melhores intenções não foram
compreendidas e se viram num lugar muito incômodo, já que temos a tendência de
acreditar que somos só bacanas e estamos a salvo.
Com esse gesto, o Mães de Maio
dificultou a recolocação do PT no contexto das ruas e das rebeliões e também na
identificação como “esquerda”, o que é muito forte. Dificultou a recolocação do
PT não só como protagonista, mas também como participante do movimento mais
amplo das cidades rebeldes. Mostrou também que hoje não basta incluir no debate
um ou dois representantes das periferias e dos movimentos sociais, o que até
pouco tempo teria sido suficiente e garantiria um ambiente controlado. O que o
Mães de Maio disse talvez de mais importante é que, no Brasil atual, para ter
legitimidade não é suficiente falar sobre, é preciso falar com. Para isso
também é necessário que todos – todos mesmo – compreendam que “com” significa
“com” – e não “só nós”. Do contrário a lógica dos muros permanece a mesma,
ainda que se mude os personagens de lugar. Hoje, é urgente estar de fato com o
outro e se arriscar ao que isso significa. Arriscar-se, portanto, à rebelião.
