Sem-tetos acolhem refugiados sírios, palestinos e egípcios em ocupação em São Paulo
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21:19
Portal Operamundi - Lamia Oualalou
Silmara Silva poderia ter ficado
mais duas horas na avenida Paulista para tentar vender as jóias que ela mesma
faz, mas a forte ventania e as ameaças de chuva a fizeram voltar para casa. Ou,
dito melhor, para “o prédio”. É assim que a artesã de cabelos vermelhos define
a ocupação onde ela mora no bairro da Liberdade, na região central de São
Paulo.
O imóvel de onze andares era da
Telesp, a antiga operadora de telefone do Estado de São Paulo. Ela conta que
está abandonado há 15 anos. “Apesar disso, está em boas condições, a luz e a
eletricidade nunca foram cortadas, e a gente fez uma vaquinha para consertar um
dos elevadores”, acrescenta a mulher, vestida de uma longa saia feita por uma
amiga artesã. Na fachada do prédio, é possível ler nas bandeiras vermelhas
penduradas as palavras “Terra Livre”. É o nome de um dos grandes movimentos
populares de moradia da metrópole paulista.
Originaria de Rondônia, Silmara
veio para São Paulo sete anos atrás para fazer um curso de cabeleireira. Ela
viajou com uma mala e a filha de quatorze anos. Colorista, trabalhou em vários
salões até janeiro passado, quando ela desenvolveu uma alergia ao formol usado
nas escovas progressivas. “Fiquei desempregada, gastei todo meu dinheiro guardado
para pagar os médicos, já que não tenho plano de saúde, não dava mais para
pagar aluguel; foi quando uma amiga me apresentou o Terra Livre”, conta. Um mês
de ocupação, em outro prédio, no bairro de Pinheiros (zona oeste de São Paulo),
foi suficiente para convencer a cabeleireira de virar militante do movimento.
“Mas é que, quando cheguei aqui, tudo mudou, porque a galera é muito especial.
Daí virei coordenadora do prédio, cuidando deles, além do meu trabalho”, diz
Silmara, convidando o visitante a subir no elevador.
Ocupando o imóvel há apenas 40
dias, a tal “galera” é constituída por 60 famílias, das quais 20 vieram da
Síria. “Temos dois sírios, três egípcios, mas a grande maioria é composta de
palestinos que já eram refugiados na Síria. Todos tiveram que deixar o país por
conta da guerra”, conta. Alguns chegaram diretamente do aeroporto, outros foram
encaminhados por mesquitas, onde eles dormiam, esperando um teto. “Quando eles
chegam, organizações da sociedade civil como Caritas encontram um lugar para
eles, mas não podem ficar mais do que 90 ou 120 dias, depois, eles têm que se
virar. Não é fácil, já que muitos não têm a documentação em dia, não têm
trabalho, e, sobretudo, não sabem falar português”, diz a rondoniense. Os
refugiados ocupam os três últimos andares do prédio, enquanto os sem-tetos
brasileiros estão nos seis primeiros.
Apesar da distância entre Síria e
São Paulo, o Brasil é hoje a nação que mais concedeu asilo a refugiados sírios
na América Latina. A Agência da ONU para refugiados (Acnur) calcula que já são
2.077 no território nacional. Eles são atraídos pela presença de uma comunidade
sírio-libanesa desde o século passado, mas também pela facilidade de se
conseguir asilo. Em 2013, o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) adotou
uma resolução para desburocratizar a emissão de vistos para cidadãos sírios e
outros estrangeiros afetados pela guerra. As facilidades expirariam no fim do
mês de setembro, mas o governo as prorrogou.
Yahya Moussa é um dos refugiados
que se beneficiou desta burocracia mais flexível. Ele chegou ao Brasil nove
meses atrás. Após um tempo na mesquita de Guarulhos, o homem, de cerca de 45
anos, conseguiu trazer a esposa, Zubeida, e a filha do casal, Alma. “A gente
considera o Brasil como uma nação mãe, sabe”, explica o pai de família, em
árabe. “Conseguimos tirar um visto no Consulado do Brasil em Beirute, onde nos
refugiamos depois de fugir de Damasco. Os outros consulados não queriam saber
nada da gente”, completa. Após três anos de espera no Líbano, a Europa, mais
próxima, já não era mais uma opção. “Uma parte da minha família morreu afogada
no Mediterrâneo. Um pai, uma mãe, e dois filhos. Não podíamos correr este
risco”, relata Zubeida, cujos cabelos são cobertos por um véu discreto.
A vida no Brasil não é fácil. Ao
contrário do que acontece em países europeus, o governo não proporciona nenhuma
ajuda para encontrar um emprego ou um teto. “Não importa. Pelo menos aqui,
nossa filha vai todos os dias para escola, não tem mais medo. Em quatro meses,
já aprendeu o português”, insiste Yahya. Para sobreviver, ele arrumou um bico
num pequeno restaurante que faz sanduíches falafel. “Quando falar português,
vou conseguir algo melhor”, assegura, cheio de esperança.
A questão da moradia, porém, é
crítica. Além da pequena renda, Yahya não tem nenhuma condição de arranjar um
fiador. “O movimento de sem-tetos demonstrou uma linda solidariedade conosco,
não sei quanto tempo a gente vai poder ficar nesta ocupação, por enquanto, não
temos outra opção”, completa o palestino. Como todos seus companheiros, ele
ficou impressionado pelo alto custo de vida em São Paulo.
Na sala onde a família está
acampada, há apenas dois colchões, um velho sofá recuperado, e uma mesinha onde
eles convidam o visitante para beber o chá. Para a pequena Alma, que corre e
dança no espaço, parece o paraíso. Ela insiste para mostrar à reportagem de
Opera Mundi, página por página, os cadernos da escola municipal onde passa as
manhãs. “Aqui, desenhamos a família, aqui aprendemos as letras do alfabeto”,
enumera a menina, com cinco anos e meio. Adora posar para fotos e, quando o
faz, já adota as posturas das meninas brasileiras, ondulando o corpo e
inclinando o rosto. Feliz, ela entoa cantigas brasileiras, como “atirei um pau
no gato”, trocando apenas algumas palavras. Em seguida, Zubeida pede para ela
cantar em árabe. “A gente vai ter que ensinar o idioma para ela em casa, senão,
vai perder tudo”, explica a mãe.
Outro elemento da cultura que
Alma não pode perder é a música. Para isso, a família conta com a ajuda de
outros refugiados, tal como Salam Sayed, que mora no oitavo andar, junto com
outros solteiros. “Os palestinos e os sírios moram juntos, sem separação nos
andares deles, enquanto nós brasileiros erguemos paredes de madeira, para ter
mais privacidade”, afirma Silmara, enquanto bate na porta do palestino. “Boa
tarde, Salim, podemos entrar?”. “Meu nome é Salam”, responde um grande homem
magro, abrindo um largo sorriso.
Silmara pede desculpas. Crescida
em Rondônia, ela nunca teria imaginado esta convivência diária com pessoas
falando apenas árabe, com nomes “diferentes”. “Confesso que, quando comecei a
coordenar a ocupação, achei várias vezes que não ia conseguir, a gente mal se
comunicava”, acrescenta a militante. No dia a dia, ela conta com a ajuda de
Hassan, um brasileiro de pais palestinos, que faz a tradução entre as duas
comunidades. Duas vezes por semana, uma voluntária francesa, Cecília, vem dar
aulas de português aos refugiados.
Salam conhece apenas 50 palavras
em português, mas já conseguiu montar uma pequena empresa na ocupação. Ele
comprou um forno profissional e um fogão, ambos usados, e prepara doces típicos
que dois sobrinhos dele, também refugiados, vendem na rua. “Daqui a quatro
dias, vou receber caixinhas de papelão que encomendei, vai ficar muito
bonitinho”, garante. O palestino já encontrou o nome da marca: “as comidas da
paz”. Em árabe, Salam significa “paz”.
Feliz de construir uma nova vida,
Salam não esquece o que deixou para trás. “Em Damasco, eu tinha um restaurante,
uma empresa de fabricação de objetos de decoração, fazia parte da união
nacional dos artistas”, conta, exibindo um pequeno cartão. “Eu faço escultura,
desenho, toco música”, continua, pegando um alaúde, o único objeto que
conseguiu levar de Damasco para Beirute, e, depois, para São Paulo. Silmara não
esconde a admiração. “Ele toca maravilhosamente, a gente fez um sarau no sábado
passado, ele se apresentou e improvisou uma melodia brasileira com este
instrumento”, conta.
Como a maioria dos sem-tetos
brasileiros, Silmara estudou poucos anos na escola e nunca teve acesso a uma
educação artística. Ela fica muito impressionada pelo nível de cultura dos
novos chegados, e pelo fato que perderam tudo, de um dia para outro: casa,
emprego e até parentes. “Tem o caso de uma família que nós trouxemos para aqui,
um pai com dois filhos e quatro meninas; não deixaram a mãe embarcar, você
imagina o sofrimento dela? Ver os seis filhos partirem em direção de um país
totalmente desconhecido, e ficar atrás? Eu abracei a causa dos refugiados
depois que conheci este pai”, conta a brasileira, emocionada. No começo de
setembro, a mãe finalmente chegou a São Paulo, após três meses de separação.
Para Silmara, a experiência ajuda
muito os sem-tetos a relativizarem as dificuldades. “Nos reclamamos das
dificuldades do dia a dia, por morar em ocupação, por ter que dividir um espaço
pequeno, mas isso é nada perto da luta deles para chegar até o Brasil”, diz.
Ela pede para Salam improvisar mais uma vez uma música brasileira. Mas esta
noite, o refugiado prefere lembrar uma melopéia [canto ritmado que acompanha
uma declamação] da sua região de origem. Um tanto melancólico, ele começa a
tocar, em nome de todos os que não conseguiram ainda, como ele, uma terra
segura para viver.
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