John Lennon: um legado de simbologia crítica
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22:42
Por Paulo Denisar Fraga, filósofo e professor da Universidade
Federal de Alfenas (UNIFAL-MG).
A passagem de setenta e cinco
anos do nascimento (out. 1940) e de três décadas e meia da morte (dez. 1980) de
John Lennon, o líder intelectual dos Beatles e um dos mais influentes músicos
pop da história do rock, dá lugar, uma vez mais, a rever aspectos relevantes do
seu legado público, reconhecendo a sua extensa influência artística e
recuperando o sentido crítico de seu pensamento e de sua obra.
Música e crítica social
Afora a língua afiada ao paladar
da crítica salobra, o viés mobilizador do ícone John Lennon foi a música de
cunho político-social, ainda que sua produção não se resuma a isso. Em Working
class hero, ao bom estilo Bob Dylan, discorreu sobre a difícil situação dos
trabalhadores. Em favor das minorias sociais, The woman is the nigger of the
world é uma canção com a sensibilidade de reunir numa única frase,
sincronicamente, o repúdio à condição subalterna das mulheres e dos negros.
Com Give peace a chance
desencadeou uma campanha mundial pela paz contra a Guerra do Vietnã. Em Happy
Christmas (war is over), após a guerra, como o nome diz, desejou Feliz Natal
para brancos e negros, amarelos e vermelhos, reconhecendo a pluralidade étnica
e a multiculturalidade, temas que destacados intelectuais resgatam ao centro do
debate social. Em Power to the people, música inspirada em uma entrevista
homônima concedida a Robin Blackburn e Tariq Ali, do periódico de esquerda The
Red Mole (publicada no Brasil no livro de Ali, O poder das barricadas: uma
autobiografia dos anos 60), criticou novamente as condições do trabalho e
preconizou a derrubada dos seus exploradores em favor do poder para o povo.
Imagine, a sua principal criação
e uma das mais belas músicas já feitas, ao questionar a religião, a
propriedade, as nações, a ganância, a fome e, de certa forma, o valor de troca
(“imagine todo mundo vivendo para o dia de hoje”), defendendo uma vida comum e
fraterna entre os homens, representou, para a formação de muitos adolescentes,
que ainda não tinham ouvido falar de Marx, uma espécie de prelúdio do Manifesto
do partido comunista.
Cobrado sobre os grandes
concertos beneficentes, vistos como uma espécie de função social da música,
Lennon revelou-se crítico da caridade assistencialista. Porém, para lembrar um
poema de Brecht, não incorreu propriamente no caso de “Quem não sabe de ajuda”,
pois de muitas campanhas participou até se convencer de que isso só geraria
maior dependência, que jamais ofereceria uma solução positiva à pobreza,
favorável à autonomia e afirmação dos povos. E quando se declarou socialista
não foi hipócrita: assumiu a sua condição-contradição de rico. Por essas e
outras compreende-se por que há quinze anos Fidel Castro considerou meritório
inaugurar, em Havana, um monumento oficial em homenagem a Lennon.
Legado Pop e MPB
Assim como fora com os Beatles, a
influência de Lennon espalhou-se desde as maiores estrelas do rock
internacional, como Roger Waters, ex-Pink Floyd, Elton John, que lhe dedicou a
belíssima canção Empty garden, e Bono Vox, o engajado vocalista do U2. E isso
não foi diferente no Brasil.
A propósito, Renato Russo, talvez
o maior compositor da nova geração do rock nacional, emergida nos anos 1980,
contestou a suposta incompatibilidade entre o rock e a MPB alegando que pensar
isso seria desconhecer o rock’n’roll, que não é uma música só de jovens para jovens,
assim como a MPB não é só de velhos para velhos. É uma ideia que apreende a
dinâmica da música acima dos preconceitos culturais de uma certa xenofobia dos
idiomas e ritmos. No que se refere especificamente ao pop rock, tanto mais isso
é verdadeiro.
Embora os Beatles tenham
influenciado sobremaneira o rock brasileiro desde a Jovem Guarda (um exemplo
foi a clássica Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones,
versão de Os Incríveis para a música italiana de Gianni Morandi e Franco Migliacci),
foi na MPB que Lennon se tornou mais referido, provavelmente superando qualquer
outro nome estrangeiro. A mais enigmática dessas músicas talvez seja aquela que
melhor confirme a tese de Russo. Para Lennon e McCartney, de Fernando Brandt,
Lô e Marcio Borges, diz: “Eu sou da América do Sul/ Eu sei vocês não vão saber/
Mas agora sou cowboy/ Sou do ouro, eu sou vocês/ Sou do mundo, sou Minas
Gerais”. Afinal, uma boa pista sobre a sua letra está na indagação do sociólogo
José Roberto Zan: “Será que eles não estariam anunciando um novo regionalismo
articulado a linguagens universais?”.
As referências seguem, em letras
mais explícitas. A morte de Lennon foi lamentada na bela Canção do novo mundo,
de Beto Guedes e Ronaldo Bastos: “... como pode acontecer/ Um simples canalha
mata um rei/ Em menos de um segundo/ Oh! Minha estrela amiga/ Por que você não
fez a bala parar?”. Em Loucos de cara, Kleiton e Vitor Ramil fazem,
possivelmente, referência ao irônico fato de Lennon e Yoko terem feito doações
à polícia novaiorquina para compra de coletes à prova de balas e ele ter
morrido assassinado: “Não importa que Lennon arme no inferno a polícia civil”.
O inferno era o lugar para onde ele cogitara correr o risco de ir, tal como
julgara ter ocorrido com Elvis.
Em Lennon, Dalto queixou-se do
impacto da sua ausência criadora: “Lennon mande alguma coisa nova pra nós/ Há
muito tempo não se ouve uma voz/ Que deixa o coração ser mais feliz/ [...]/
Você faz tanta falta por aqui...” E também dos efeitos de uma sociedade dominada
pelo pragmatismo individualista, que não conhece mais a fraternidade da
filosofia hippie: “Lennon o amor já não é mais o mesmo aqui/ E a gente sente um
certo medo de pedir/ Pra todo mundo ser um pouco mais feliz”.
Belchior e José Luis Penna, em
Comentário a respeito de John, lembraram da campanha contra a guerra: “Sonho
escrevo em letras grandes (de novo!)/ Pelos muros do país/ Sob a luz do teu
cigarro, na cama”. Contam ao amigo que as coisas não são mais as mesmas: “John,
o tempo andou mexendo com a gente sim!”. E arrematam com uma pinçada de
finíssima sensibilidade: “A felicidade é uma arma quente”. Este era o nome de
uma música do “The white album”, dos Beatles, em 1968, posteriormente regravada
pelo U2. Um título que Lennon tirou de uma revista de armas, mas que, na
verdade, é uma frase sobre a dialética errática da vida, dominada pela lógica
do empuxo da luta pela felicidade. Era uma frase que viria a se refletir sobre
ele mesmo, para quem o uso figurado colidiu tão tragicamente com a sua outra
face, a cara-metade que lhe confere sentido, isto é, o antípoda realístico. Ele
perde a vida porque seu assassino queria se tornar “conhecido”.
Numa expressão sintética desse
dúplice legado, grandes nomes da MPB e do rock nacional gravaram, na série
“Letra & Música”, um CD em tributo a John Lennon que inclui belas
interpretações e versões, como Jealous guy na voz de Zé Ramalho e Você ainda
pode sonhar, uma inteligente versão do Ira que leva o ritmo de Lucy in the sky
with diamonds a dialogar com a histórica frase pós-Beatles de Lennon: “o sonho
acabou”.
O que essas canções confirmam,
reconhecendo na MPB um ícone do rock e do pop rock, é o sentimento de que, na
música ou em suas declarações políticas, John Lennon ultrapassou fronteiras
rítmicas como figura sintética de uma geração que aprendeu a contestar e a
dizer não.
Estilos em aberto e simbologia
crítica
Quando dos 20 anos de sua morte,
apresentando a reedição da entrevista de 1970 à Rolling Stone (publicada no
Brasil sob o título Lembranças de Lennon), Yoko Ono disse que John sempre fora
um artista inovador, que gostava de experimentar novos recursos. Que fora punk
antes de Sid Vicious e rapper antes do rap. E que nos anos 2000, talvez,
adorasse Internet e tivesse se juntado aos rappers. Bem, são cogitações impalpáveis
sobre o que seria feito hoje de seu estilo irreverente, numa sociedade
tecnológica de muita informação, individualismo e pouca reflexão. O que é
possível avaliar é o sentido crítico de seu legado, a partir do que ele
realmente representou durante a emergência social juvenil e a grande
reviravolta dos costumes na segunda metade do século XX.
Não por acaso, além da reedição
completa de sua obra musical pós-Beatles em 2010, Lennon continua gerando
extensa bibliografia, como atestam, dentre outros, os livros de: Philip Norman,
John Lennon: a vida; Gary Tillery, John Lennon: o ídolo que transformou
gerações; John Blaney, A vida de John Lennon; James A. Mitchell, John Lennon em
Nova York: os anos de revolução; Davies Hunter, As cartas de John Lennon; Yoko
Ono, Memórias de John Lennon; Cynthia Lennon, John. Isto para citar apenas
alguns traduzidos no Brasil, sendo que, para as datas de 2015, ainda pode ser
referido o recém lançado em inglês, John Lennon: a celebration of his life and
legacy, de Ben Nussbaum, bem como a edição especial da revista internacional
Newsweek, que também destaca o duradouro legado de Lennon.
Já entre os filmes, do ponto de
vista da militância política do ex-Beatle, é indispensável mencionar o
documentário Os EUA X John Lennon, dirigido por David Leaf e John Scheinfeld,
que enfoca a relação de Lennon com grupos militantes como os Panteras Negras
nos EUA e a perseguição contra ele promovida pelo governo Nixon e o FBI, que
redundou no processo para deportá-lo do país nos anos 1970. Para o stablishment
estadunidense Lennon passara a representar uma ameaça nacional por seus
envolvimentos políticos com bandeiras progressistas da esquerda e,
especialmente, por seu grande empenho na luta contra a guerra que os Estados
Unidos promoviam no Vietnã.
Agregado a isso, as renovadas
homenagens e referências nos aniversários de seu nascimento (9.out.1940) e
morte (8.dez.1980), ocorridos no final de duas décadas, mas relembrados
geralmente de 5 em 5 anos, reiteram, no espaço do público, que a sua voz crítica
e criadora marcou um lugar efetivo na cultura contemporânea, com uma força
simbólica que não tem páreo na história de nenhum outro músico. Corroboram-no,
em 2015, seja um grande evento como o “Imagine: John Lennon 75th Birthday
Concert”, no Madison Square Garden, em Nova York, com astros da música
internacional que rememoram suas canções e sua mensagem, seja um ato espontâneo
como o do pianista alemão que tocou Imagine na rua, em frente à casa de shows
Bataclan, para homenagear as vítimas dos atentados terroristas em Paris. E, no
Brasil, num protesto artístico contra a homofobia, a cantora Daniela Mercury
ilustra seu CD do ano – “Vinil virtual” – posando nua com sua esposa numa foto
que imita a icônica capa com John e Yoko na revista Rolling Stone de janeiro de
1981.
Por fim, como muito já se
discutiu e afirmou, a arte não precisa – nem deve, o que lhe seria empobrecedor
– estar cingida a temas imediatamente políticos para que se compreenda o seu
potencial crítico e emancipador. A arte como tal tende a ser enfática e
esquiva. Ela não é cômoda. Ela geralmente desafia o seu intérprete a ser
sujeito. Expressando verdades e contradições, sujeita também à crítica, ela
porta liames de negatividade. E a obra de artistas socialmente engajados, como
Lennon foi, merece destaque e aplausos nesse dialético terreno.
[*] Postado originalmente em
http://www.pagina13.org.br/cultura/john-lennon-um-legado-de-simbologia-critica/
