Perigos e origens do refluxo das esquerdas políticas e sociais
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Unknown
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12:27
Por Milton Temer
É indiscutível, para quem viveu o
fim do autoritarismo sob tutela militar (porque outras formas de autoritarismo
foram mantidas como sequelas da transição pelo alto na mudança de regime), que
uma diferença fundamental se registra no cenário do embate político brasileiro
entre as décadas de 80/90 e os dias atuais.
E esta diferença é,
indiscutivelmente, o retrocesso brutal na capacidade de mobilização das
esquerdas - política e social - manifestada naquele período. Foi ali,
principalmente, que o pensamento e a afirmação de "um outro mundo é
possível", ou da explicitação do objetivo estratégico do socialismo,
ocupou corações e mentes de quem participava das lutas.
Nas ruas, nas entidades da
sociedade civil organizada, nas edições locais do Fórum Mundial Social, o que
estava em jogo não era uma proposta “melhorista” do capitalismo. O que estava
em jogo era a perspectiva de desconstrução do regime essencialmente perverso e
predador. O que estava em jogo era a necessidade de contestar uma globalização
financeiro-especulativa profundamente degradante do ambiente existencial, com
sua lógica da competitividade tentando se sobrepor ao sentido de necessária
convivência solidária e fraterna entre povos como garantia de sobrevivência
existencial da sociedade humana.
No Brasil, nem mesmo a vitória de
FHC em 94 foi capaz de frear essa tendência combativa. Pelo contrário. Foi
justamente aí que se radicalizou o processo de mobilizações e ocupações de
Brasília por grandes manifestações onde movimentos sociais - com destaque para
o MST - e partidos da esquerda combativa não temiam se afirmar até como
revolucionários, consequentes com a afirmação de socialistas que guardavam em
seus documentos programáticos.
E tão fortes se mostraram tais
mobilizações que, no final do mandarinato neoliberal, privatista, subalterno
aos desígnios políticos e econômicos do grande capital internacional, o
candidato dos maganos à sucessão presidencial se apresentava sob o bordão do
"continuísmo sem continuidade", sabendo-se lá o que isso queira dizer
para além de dissimular seu verdadeiro fundamento conservador.
É aí que se dá a tragédia.
O início de uma era saída da
imensa esperança de mudança que se transforma num período de imensas decepções
e traições, programáticas e ideológicas. A era nascida da chegada de Lula ao
Planalto. Quando tomamos conhecimento de que o até então líder inconteste e
referencial de um partido onde muito se discutiu no embate reforma x revolução;
onde Leandro Konder, Carlos Nelson Coutinho e este escrevinhador viveram amplos
períodos de desconfiança como "reformistas”, era na verdade uma
"metamorfose ambulante", depois de garantir "nunca ter sido de
esquerda".
E para que tal transformismo?
Para consolidar o que seu próprio
porta-voz de primeiro mandato, o insuspeito acadêmico André Singer, até hoje a
ele ligado, definia como "pacto conservador de alta intensidade"
conformado sob a astúcia de um "reformismo fraco". Ou seja, uma deliberada decisão de governar
sem incomodar os de cima - pelo contrário, criando condições que nunca teriam
tido antes para "lucrar tanto". Sob a garantia de uma política
assistencial de baixo custo, a acobertar práticas antissociais gritantes, como
o ataque à Seguridade Social que os petistas haviam combatido no governo
neoliberal anterior.
Era o lulopragmatismo. Que vinha
para estiolar os movimentos sociais mais populares, sobre os quais mantinha
prestígio histórico, e imensa quantidade de gordura para queimar por conta de
Bolsas-família e cestas-básicas, e os da aristocracia operária, a partir dos
quais fincara seus alicerces de poder - os sindicalistas do ABC.
Mais ainda. Com sua reconhecida
intuição política e o simbolismo do "presidente-operário",
neutralizava boa parte de uma intelectualidade de esquerda que tudo faria, na
sequência, para evitar o "mal maior": o retorno dos tucanos ao poder.
Funcionou enquanto durou a ilusão
das commodities a preços tentadores no comércio externo. Funcionou porque a
parte assistencial - onde se distribuía a 11 milhões de família, anualmente, o
que somente os dois maiores bancos privados lucravam em apenas 9 meses destes
mesmos períodos anuais - garantia realmente a ascensão de segmentos miseráveis
à possibilidade de um consumo despolitizado, que se garantia por generosa
política de créditos. Nunca, também, linha branca e montadoras de automóveis
tiveram tanta isenção tributária.
Mas castelo de areia não tem vida
permanente. O que permitira a pantomima dos dois governos Lula se desmorona no
estelionato eleitoral da reeleição de Dilma. A perplexidade se instala com o
absurdo de ver a representante do governo, dito popular-democrático, assumir na
íntegra o programa antissocial do candidato da direita reacionária que havia
derrotado nas vésperas.
As consequências do estelionato
eleitoral não se fizeram esperar. As pesquisas reduzem a pó o que havia sido a
vitória do veto contra a candidatura da restauração conservadora, na medida em
que o projeto derrotado prevalecia como realidade conjuntural.
E Dilma se atolou de forma comprometedora.
Não ganhou nada, com sua traição,
entre os que escolheu para se submeter, e jogou no lixo o apoio que havia
recebido de forças até então dispersas da esquerda combativa, num segundo turno
vencido por um "beiço de pulga".
Dava aí o ponto final na costura do
processo transformista iniciado 12 anos antes. Commodities em queda por todo o
mundo. Refluxo econômico nas potências capitalistas importadoras de nossa
matéria prima. Descontrole geral sobre o fluxo da dívida.
Clima ideal, portanto, para o
golpe armado pelos que não têm nenhuma divergência programática com seu
governo, mas que com ela disputam o controle da chave do cofre que guarda o
botim.
Onde vamos dar? Difícil prever. Talvez, impossível.
Vivemos aquelas fases históricas
em que vaca não reconhece bezerro nos diversos campos da sociedade e das
instituições republicanas. E onde a direita encontra ânimo para mobilizar seus
trogloditas, nostálgicos de peito aberto e alto tom de voz, da ditadura.
Conclusão? A crise da esquerda
tem sua origem e razão, gerou-se no transformismo imposto ao PT pela
perspectiva do poder pelo poder, em que o "Lulinha paz e amor" se
abraçou na sua opção pessoal. Pela traição ideológica e programática.
A saída? A saída depende de que
tipo de sociedade pretende quem faz a pergunta. Para nós da esquerda combativa,
não há outra. Confluência de esforços, combate ideológico permanente onde
movimentos espontâneos - como essa genial mobilização dos estudantes paulistas
na ocupação de suas escolas - e resistir ao golpe proposto pelos que defendem
um impeachment que não resultará em nada além de mais do mesmo.
É luta que segue! Pois moer no
áspero é nossa sina.
(*) Milton Temer é jornalista e
ex-deputado federal pelo PT (1996-2008).
