Haiti: Rebelião popular em marcha
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16:39
RAÚL ZIBECHI - Correio da Cidadania
A crise haitiana é muito mais
profunda do que aquilo que revela a fraude eleitoral, e só pode ser explicada a
partir da ocupação militar do país, do aprofundamento da dependência e da
crescente pobreza das maiorias. A atualização do passado colonial agudizou
todos os problemas da nação mais golpeada do continente.
“A rebelião se sustenta em uma
nova consciência e em novas organizações nascidas sob a ocupação”, disse à La
Brecha, Henry Boisrolin, coordenador do Comitê Democrático Haitiano, residente
na Argentina. Desse modo o ativista explica as multitudinárias mobilizações que
forçaram a suspensão indefinida de um questionado segundo turno eleitoral. O
problema é que o governo de Michel Martelly finalizou seu período
constitucional no último dia 7 de fevereiro, domingo, deixando um vazio
presidencial sem precedentes na história do Haiti.
“A crise haitiana não se reduz a
uma crise eleitoral, ela é muito mais profunda. Se relaciona com o fracasso da
ocupação, que não pôde resolver nenhum problema do povo. O sistema de ocupação
colonial recorreu historicamente a ditaduras, golpes de Estado e massacres, mas
agora o sistema não pode se reproduzir porque houve um salto qualitativo da
consciência e da organização nos últimos 30 anos, logo que Duvalier foi derrotado”,
sintetiza Boisrolin.
Em sua opinião, um sistema
alicerçado na corrupção e na violência está sendo travado pela sociedade
haitiana, que compreendeu que “para resolver seus problemas é preciso por fim à
ocupação militar que já leva 11 anos”. Nesse período houve eleições com cerca
de 75% de abstenções, e também a reconstrução do país posterior ao terremoto de
2010, que foi um “grande negócio para as multinacionais e ONGs”. Sustenta que
se chegou a uma situação na que “os de cima não podem continuar vivendo como
antes e os de baixo não querem seguir vivendo assim”.
Um problema chamado Martelly
“A partir da derrubada de
Jean-Claude Duvalier, em 1986, o sistema político haitiano tem gravitado entre
forças que o empurram ativamente na direção de um regime democrático, e outras
que incentivam o arraigo de uma cultura política autocrática e adversa a um
Estado de Direito”, é possível ler estas linhas em um editorial da imprensa
dominicana (Diário Libre, 5-IX-15).
Desde a deposição de Jean
Bertrand Aristide, o primeiro presidente eleito democraticamente, ainda houve
um golpe “promovido pela burguesia, a diáspora e os altos mandos militares
haitianos”. E com forte apoio dos Estados Unidos, a situação haitiana se
caracterizou pela instabilidade. Logo após a intervenção militar estadunidense,
um segundo golpe contra a segunda presidência de Aristide, é que a intervenção
da Missão de Estabilização das Nações Unidas (Minustah), em 2005, chega ao
governo Martelly, sustentado pelas mesmas forças.
O presidente, que assumiu logo
depois de um “infame segundo turno eleitoral”, em 2010, nunca negou seus
vínculos com o regime de François Duvalier, assim como “sua inquestionável
cumplicidade com a extorsão e aprisionamento de figuras da oposição como André
Michel, além de sua amizade com Woodley Théard (aliás, “Sonson La Família”,
líder de notável gangue de sequestradores). Soma-se o desinteresse do seu
governo pela realização de eleições legislativas e municipais, pendentes há
mais de quatro anos” (Diário Libre, 5.IX-15).
Mas o mais escandaloso ainda é o
silêncio da comunidade internacional. Especialmente Estados Unidos e França,
cúmplices do regime de Duvalier, dos golpes de Estado, da repressão e da fraude
permanente, senão sobretudo dos governos progressistas latino-americanos cujas
forças armadas integram as tropas de ocupação.
Foi a massiva irrupção do povo
haitiano que levou à OEA e vários governos a interessarem-se por uma realidade
que acreditavam estar sob controle. Nesta irrupção faz um importante papel a
crise econômica, com forte desvalorização da moeda de cerca de 80%, “com enorme
carência nos dez departamentos”, segundo Boisrolin. Ao que deve somar-se a uma
epidemia de cólera trazida por soldados da Minustah e que teve 9 mil mortos e
900 mil infectados, agravada pela expulsão de haitianos da República
Dominicana, onde ousam buscar acolhida e trabalho. “O governo não dá saída a
nenhum problema, e ainda há um desperdício enorme, que sob Martelly cresceu de
modo exponencial”.
Luta por poder
Como é comum dizer nesses casos,
a crise econômica se transforma em crise política pela emergência dessa “nova
consciência” na sociedade haitiana, da que participam inclusive setores médios
e parte da burguesia que compreende a importância da soberania nacional. “Isto
não é uma plantação somente da esquerda, senão da imensa maioria dos
haitianos”, afirma o coordenador do Comitê Democrático.
Todos os organismos de observação
haitianos reconhecem que nas eleições de 9 de agosto houve fraude, ao que
alguns assimilam a um golpe de Estado a favor do partido do presidente.
“Estados Unidos e Brasil querem que se aceite que houve irregularidades, mas
como são ‘eleições à haitiana’, termo que revela seu racismo, deveriam ser
válidas. Não pensavam que o povo haitiano teria a capacidade de frear o segundo
turno”, dispara Boisrolin.
Este mês está sendo um
momento-chave, já que se impõe um governo de transição cuja correlação de
forças decidirá o futuro imediato do país. A proposta das forças populares que
vieram a se mobilizar consiste em fazer conselhos abertos para que a população
tome a iniciativa e consiga evitar que seu futuro se decida, uma vez mais,
entre quatro paredes. “Se põe o Martelly ou qualquer um de seus amigos em um
governo de transição não vai durar nem um mês”, antecipa Boisrolin.
O novo ingrediente está no fato
de que foram registrados nos últimos anos um crescimento exponencial das forças
anti-imperialistas que reivindicam o fim da ocupação e a não ingerência, o que
levou muitos setores populares, incluindo a Igreja Católica, a rechaçar
reuniões com a OEA. Após 11 anos de ocupação querem resolver os problemas entre
haitianos.
Boisrolin define a nova
conjuntura em um apertada síntese: “surgiram organizadores no campesinato, nos
bairros e sindicatos, já não são apenas os estudantes que saem às ruas, mas o
povo de forma massiva que forçou a suspensão do segundo turno, freando o golpe
eleitoral. Agora resta ver como será composto do governo de transição. Martelly
e os presidentes das câmaras querem estar neste governo. O grupo de oito
partidos de oposição afirma que o presidente da Suprema Corte de Justiça assuma
a presidência, e a terceira posição é um governo de consenso de todas as forças
que se mobilizaram contra a ocupação. A crise entrou na fase de luta pelo
poder”.
(*) Raúl Zibechi é jornalista e
cientista político uruguaio. Traduzido
por Raphael Sanz, do Correio da Cidadania.
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