Parece que foi ontem | PSOL: um balanço
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Unknown
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18:24
Não me lembro de todos os
presentes, para além de Carlos Nelson Coutinho, Robaina, Sílvia, Babá,
Martiniano, Tostão, Aguinaldo. Mas enchíamos a sala do sétimo andar da ABI, com
uma mesa comandada por Heloisa Helena, e da qual eu fazia parte. Nascia ali a
Esquerda Socialista e Democrática, ponto de partida para o que somos hoje.
Estávamos em outubro ou novembro
de 2003. E, como movimento de resistência à guinada ideológica marcada pelos
primeiros passos do governo Lula, estávamos ali um conjunto de militantes que
se propunha a manter viva a ideia de transformação revolucionária do País. Sem
concessões ao pragmatismo e aos recuos programáticos que Lula já implementava
em seus primeiros passos no Planalto, ainda causando perplexidade e revolta em
boa parte do PT, do qual éramos majoritariamente oriundos.
Perplexidade e revolta que
terminaram se estiolando diante do peso do braço “empregarial” do Poder
Executivo, pelo menos para os que se locupletaram. E com a cobertura de uma
cúpula acovardada diante das pressões do “grande líder” quanto “governabilidade
possível” que impunha, com uma CUT e uma UNE crescentemente cooptadas,
fidelidade incondicional a uma militância ideologicamente desarmada. Ou
aterrorizada, diante do que considerava falta de alternativas com perspectiva
de uma disputa real de poder.
O Partido Socialismo e Liberdade
(PSOL) nasce desse contexto. Num encontro em Brasília que dá a arrancada para a
coleta de quase meio milhão de assinaturas, em nove Estados da Federação, com
as quais concretizaria sua legalidade institucional.
Foi uma campanha extraordinária,
nunca repetida pelos partidécos que surgiram depois. Precedentes,
possivelmente, só na campanha que reorganizou o PCB após derrota do nazifascimo
na II Guerra Mundial,
Foi uma campanha, enfim, que
fervilhava nas ruas e praças das grandes capitais, com oradores fazendo
discursos permanentes para as filas que se formavam diante de banquinhas
improvisadas, por aqueles que queriam ajudar a fundar o “partido da Heloisa”.
Porque, sem nenhum demérito a
Luciana Genro, Babá e João Fontes, que com ela foram expulsos do PT, foi sua
voz a que mais se destacou na denúncia do significado degradante da indicação
de Henrique Meirelles para o Banco Central – o “companheiro” Henrique Meirelles,
como o anunciou Lula em coletiva aos telejornais.
E pelo espaço de tribuna que
ocupava com seu mandato, foi ela quem se levantou em protesto, antes de todos,
contra o apoio de Lula à eleição de José Sarney à presidência do Senado. Como
se previsse, na decisão insólita, a tragédia da política de alianças
clientelista, fisiológica e sem coerência programática que Lula poria em
prática em seus dois mandatos.
Era ela, portanto, a abre-alas de
uma nova agremiação que acaba de completar 10 anos de legalização.
PSOL milton temer[Ato de fundação
da Esquerda Socialista e Democrática em 2004, com Chico de Oliveira, Carlos
Nelson Coutinho, Luciana Genro, Heloísa Helena, Babá, entre outros]
Dez anos, do doce e do amargo
Foram dez anos em que muita coisa
de bom, motivo de orgulho, ocorreu, mas também de duros contratempos. Orgulho,
quando vemos o prestígio crescente da legenda, por conta, muito, do papel
extremamente importante que nossas bancadas parlamentares desempenharam desde
sua entrada no Congresso e nas Assembleias Legislativas e Câmaras de
Vereadores. Mas prestígio crescente também pela presença constante de nossa
militância em todas as mobilizações que a sociedade civil organizada, de
esquerda, promoveu ao longo de todos esses anos.
Anos esses que não foram nada
fáceis por razões múltiplas, e bem distintas das que propiciaram o nascimento e
o crescimento consolidado do PT.
Ao contrário do início da década
de 80, não vivíamos a ascensão de um movimento sindical espontâneo, nascido das
greves do ABC, com uma Igreja hegemonizada pela Teoria da Libertação. Não
tínhamos, no plano internacional, a perspectiva ascendente de uma reforma por
dentro do dito socialismo real, com Glasnost e Perestroika tentando mostrar ao
mundo ser possível conciliar igualdade e liberdade individual. Nada parecido
também com a ebulição intensa da campanha das Diretas, e até da eleição de
Tancredo no Colégio Eleitoral, antecipando um disputado processo Constituinte.
Muito pelo contrário. Nascíamos
de um retrocesso em nosso próprio território; de uma ruptura com o que
representara a expectativa de uma esquerda socialista, combativa, durante duas
décadas, do saudoso PT. E cujo transformismo programático só recentemente
consegue alguma contestação significativa, tanto entre os próprios militantes,
quanto em sua base social-eleitoral. Um transformismo, cujas sequelas são ainda
difíceis de mensurar. Mas que, pela despolitização da política que produziu,
trouxe como resultado mais visível uma imensa sensação de ceticismo e
desesperança de novas gerações em relação à necessidade de participação cidadã
na vida política. Abriu avenidas para o sentimento de que “no poder, são todos
a mesma coisa”. Uma coisa pestilenta, mal cheirosa.
Um transformismo ideológico,
enfim, com forte guinada para direita, dissimulado por manobras que só um
sindicalista com concepção favorável ao de papel do sindicato como amortecedor
de tensões entre o mundo do trabalho e o patronado poderia empreender com
êxito. Foram os tempos do “pacto conservador de alta intensidade” compensado
pelo “reformismo fraco” das políticas “bursáteis”, assistencialistas, como bem
os definiu o insuspeito porta-voz do primeiro mandato Lula, André Singer, em
seu Os sentidos do lulismo.
Na conjuntura resultante desse
processo, tornaram-se portanto imensos os obstáculos impeditivos do crescimento
e consolidação do PSOL
O que, no entanto, não reduz
nossas próprias responsabilidades, consequentes de concepções e métodos que nos
obrigam à reflexão profunda, num momento em que, mesmo com as limitações
materiais, sentimos uma aproximação de simpatizantes por conta de termos
conseguido nos manter fora do pântano desmoralizante das demais legendas da
“base” de alianças do neo-PT. Mas que não nos absolve de rever acidentes sérios
ao longo desta primeira infância existencial.
Nossos problemas
Comecemos pelas questões
orgânicas. Considero que uma das cláusulas pétreas da formação do PSOL – a
legalidade das tendências – merece regulamentação nunca efetivada. Garantidas
pelo Estatuto, as tendências sempre priorizaram sua organização interna à
necessidade de uma unidade permanente da ação partidária.
Não se trata, de forma alguma, de
tentar contrapor algo como “centralismo democrático”. Mas não se pode agir com
tendências podendo operar, externa e internacionalmente, como se fossem
partidos autônomos. Creio ser algo fundamental carente de urgente reflexão de
um próximo Congresso, onde opino que a tendência temática, extrapolando as
tendências orgânicas, a elas se sobreponha.
Também não podemos deixar nos
escaninhos do esquecimento os episódios com forte impacto desestabilizador em
nossas lutas. E nisso destaco a renúncia traumática de Heloisa Helena, até
então nossa referência fundamental para uma campanha presidencial competitiva
em 2010.
Em 2009, por conta da excelente
performance em 2006, Heloisa aparecia com destaque nas pesquisas de todos os
institutos. Variava de 12 a 14% e tinha condições concretas de chegar ao
segundo turno, no ano seguinte, excluindo desse embate a direita tradicional,
que José Serra assumia.
Lamentavelmente, as divergências
internas – principalmente na discussão sobre o aborto – deram a ela a arma para
a operação que já pretendia: abandonar a candidatura à Presidência, priorizando
uma disputa inviável tanto da perspectiva dos resultados eleitorais e quanto de
seu significado político, pelo Senado de Alagoas. Decisão brutalmente
equivocada, contra a qual me coloquei de forma quase solitária no campo das
tendências e de alguns independentes que se alinhava internamente com Heloisa.
Não me interessavam as
perspectivas inicialmente favoráveis em Alagoas. Pois tinha certeza de sua derrota
diante de um inequívoco empenho de Lula, em alta na no nordeste, para
derrotá-la. Apoiaria Renan e qualquer outro poste que o acompanhasse na
dobrada. Mais ainda: Heloisa não aceitava minha argumentação de que, com o
apoio consensual, não só do PSOL, como também do PSTU e do PCB, mesmo que não
chegasse a uma vitória eleitoral, sairia da campanha presidencial com um ainda
maior patrimônio político pessoal. O que permitiria prever êxitos concretos
numa das eleições seguintes.
Heloisa não cedeu. Preferiu o
suicídio político, pelo menos em âmbito nacional, e se retirou de forma trágica
da disputa. Trágica porque estimulou a inexpressiva candidatura de Marina
Silva, então beirando os 3% nas pesquisas. Não a impulsionou apenas pela
ausência na campanha de Plínio no âmbito nacional, mas por nunca desmentir de
forma clara as insinuações de sua simpatia pessoal por Marina.
Suicídio político, repito, porque
liquidou uma candidatura presidencial que já na sua primeira experiência não
hesitara em defender reformas estruturais radicais, apontando o socialismo como
saída para o desenvolvimento sadio do gênero humano. E colocando no seu espaço
político alguém que, dissimulada em imagem de esquerda por conta do passado
petista, já era um braço auxiliar dos tucanos, como veio a ser revelar de forma
explícita na campanha por Aécio no segundo turno de 2014.
Não diminuamos, por conta disso,
as campanhas de Plínio e de Luciana Genro. Campanhas radicais, com excelente
participação nos debates decisivos da reta final na TV, e que muito
contribuíram para o que há de positivo e de espeço com credibilidade que o PSOL
começa a ocupar. Perdemos no eleitoral em relação à expressão de Heloisa, mas
não perdemos na afirmação e crescimento político e ideológico.
Nossas alternativas
Somos, como bem lembrou o saudoso
Leandro Konder, também fundador do PSOL, citando Lukács em seu Em torno de Marx
(Boitempo), “des charbons ardents d’un grand feu éteint” [carvões ardentes de
um grande fogo apagado].
Pretendemo-nos um partido
revolucionário – pelo caminho das reformas estruturais na disputa da hegemonia
através da via institucional – como sempre pretendemos, Leandro Konder, Carlos
Nelson Coutinho e este escriba –, ou pela ruptura através da radicalização das
mobilizações de um movimento social politizado, como pretendem outros. Mas,
espero, ambos os segmentos conscientes de que fazemos o combate navegando num
mar adverso. Um mar, onde excesso de algas e poluições ideológicas, reforçadas
por um pântano paralisante de despolitização, nos apresenta imensas
dificuldades de avançar.
No entanto, e a despeito de tudo
isso, somos obrigados a não parar. E isso temos conseguido de alguma forma,
graças à capacidade de, dentro de nossos limites, ter sabido compatibilizar a
luta institucional com os movimentos sociais.
Mas não é suficiente para um
salto qualitativo. Para esse salto, necessitamos de muito mais massa crítica;
de apoio popular espraiado para além de nossas fronteiras ideológicas. E é
nesse sentido que vejo a necessidade de o PSOL ser o aríete da formação de uma
Frente de Esquerda.
Uma Frente com perspectiva de
ação estratégica, de viés firmemente anticapitalista, nas lutas sociais e nas
batalhas eleitorais. Uma Frente que se instale inicialmente num acordo básico e
transparente com o PSTU e com o PCB., mas com vistas a se ampliar a setores
sociais diversos, no campo da esquerda. Me refiro aos brizolistas autênticos,
que não se conformam com a transformação da legenda do PDT em moeda de troa
clientelista. Me refiro aos que, fragmentados, soltos organicamente, ainda
estão aprisionados na lógica imobilista de conter sua participação ao voto no
“menos pior”.
Me refiro, principalmente, à base
social e eleitoral do neo-PT; àqueles tomados por um desconforto crescente em
função da guinada ideológica que Lula, na sua postura cesarista, impôs a um
saudoso PT classista, a partir de sua Carta aos Brasileiros.
Difícil? Sem dúvida.
Irrealizável? Nem pensar. Dentro do preceito gramsciano que nos obriga ao
equilíbrio entre o pessimismo da razão e o otimismo da vontade, vale lembrar o
que sempre nos alerta o camarada Leo Lince: “Nada é impossível para quem já se
habituou a ralar no áspero”.
Luta que segue!
***
Milton Temer é jornalista político. Ex-deputado federal (PT-RJ), é
atualmente membro da Executiva Estadual (RJ) do Partido Socialismo e Liberdade
(PSOL), sigla que ajudou a fundar. É um dos autores do Dossiê sobre o golpe de
1964 na revista Margem Esquerda #22. A revista Margem Esquerda #25 abre com uma
longa entrevista, realizada por Gilberto Maringoni e Ivana Jinkings, sobre a
trajetória crítica e militante de Milton Temer.
