A aristocracia potiguar está nua
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20:15
Por Modesto Neto
A descoberta de um quadro
funcional com mais de 3 mil funcionários que consome mais de R$ 1 bilhão por
legislatura na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte (AL-RN) e a
inconteste existência de “funcionários fantasmas” no parlamento estadual deixa
completamente nua a aristocracia potiguar. O malogro em ocultar essa situação
desnuda a atuação das ratazanas e sanguessugas que se espraiam pelas máquinas estatais
e tornam letárgico o serviço público no Rio Grande do Norte.
A aristocracia ateniense na
Grécia antiga se queixava dos direitos civis dos cidadãos livres. Para as
classes apropriadoras o exercício da práxis
política tornava os homens livres em vagabundos. O “mito da ralé ociosa
ateniense” [1] foi criado para justificar a repulsa que a aristocracia tinha em
dividir a ágora [2] com os que trabalhavam no campo e na cidade-estado (ou
pólis). É evidente que seria um pastiche
comparar a aristocracia de Atenas a potiguar, é notória a supremacia e a grandiloquência
intelectual dos atenienses sob a atrasada aristocracia potiguar. Contudo, ambas
tem uma semelhança: ambas são caudatárias da ideia que o povo deve estar
apartado das “coisas públicas”. Ambas se interessam em tocar as “coisas do
Estado” e se consideram capazes de cumprir tal tarefa.
Os fantasmas que rondam a
Assembleia Legislativa são a parentela da elite local potiguar que vive
espalhada entre a capital e as cidades interioranas do Estado. Os parentes de
deputados, prefeitos, vereadores e lideranças políticas ocupam cargos onde o
certificado de comprovada habilidade não é exigido. A elite política que
reproduz a sandice meritocracia não exige dos seus o mérito comprovado. Essa aristocracia
potiguar, desnudada por esse escândalo de corrupção, mostra sua real face: atrasada,
hipócrita e corrupta. O que se espera dos filhos da aristocracia é que ocupem
cargos de proeminência em corporações estrangeiras, acionem grandes empresas privadas
ou sejam vultosos profissionais liberais. Não tem sido o que se vê pelo RN.
O presidente da Assembleia
Legislativa, Ezequiel Ferreira de Sousa, agiu rápido para sanar o estrago
político que o escândalo pode causar e anunciou a demissão de mais de seiscentos
cargos comissionados. O presidente Ezequiel Ferreira tenta sustentar uma
probidade que não tem: ele foi denunciado pelo Ministério Público do Rio Grande
do Norte por supostamente ter intermediado esquema que contemplava a aprovação
de projeto de lei que regulava a inspeção veicular e beneficiava empresários e
políticos. O suborno recebido pelo deputado teria sido R$ 300 mil [3]. O simulacro
do deputado-presidente para atestar certa moralidade deve ser entendido como o
que realmente é: jogo de cena para a imprensa estadual.
Os fantasmas da AL-RN entraram
para a história como o maior escândalo de corrupção dos últimos anos. A população
indignada, justamente, vê neste episódio uma verdadeira aberração. No Rio
Grande do Norte onde os salários estão atrasados, as greves de várias categorias
ocorrem e a crise da segurança amedronta a todos a AL-RN mantém um rosário de
funcionários fantasmas que recebem enormes salários, mas não cumprem
expediente. O que para qualquer um é uma absurdo é categorizado como “excesso”
pelo deputado Ezequiel Ferreira [4].
Alguns sindicatos já convocaram
atos em repúdio a corrupção que se pratica na AL-RN. As escadarias da
Assembleia foram lavadas com bastante água e sabão e o ato tem um significado
importante: existe a afirmação da população de sua disposição em “limpar” o
parlamento. O combate a corrupção não deve ocorrer somente de forma
institucional, com pequenas reformas e auditorias, mas a pressão popular deve
fazer parte do cotidiano político potiguar. Os deputados devém perder o sono
com a atuação do povo organizado e nenhum ato de corrupção deve ser esquecido e
perecer sem julgamento.
Que o povo potiguar tome como
exemplo a revolta do povo ucraniano que jogou na lata do lixo deputados [5] em
setembro de 2014, exigindo a remoção de políticos do regime derrotado. As
viagens a Nova York e a Europa, os bons vinhos e os restaurantes chiques da
parentela de deputados, prefeitos e vereadores foram pagos anos a fio com
recursos públicos. Enquanto isso, as filas em corredores de hospitais só cresce
a os professores sequer recebem o reajuste anual do piso do magistério. A aristocracia
potiguar está nua: ela é corrupta, hipócrita, ignorante e feia. Não deixemos que essa mesma aristocracia se
olhe no espelho sem ter horror a si mesma.
(*) Modesto Neto é historiador e cientista social.
Notas
[1] – Ellen Wood. Democracia
contra capitalismo: a renovação do materialismo histórico. Editora Boitempo.
São Paulo: 2011, p. 166-175.
[2] – Ágora de Atenas era onde
ocorriam as assembleias públicas. O local fundamental do exercício da
cidadania.
[3] – Tribuna do Norte. Sinal
fechado: presidente da Assembleia é denunciado pelo MP. Disponível em:
http://migre.me/tb1
[4] – G1. 'Sabia de excessos',
diz presidente da AL/RN sobre cargos comissionados. Disponível em:
http://migre.me/tb1Tq
[5] – EXAME. Revista Exame.
Multidão furiosa joga político no lixo na Ucrânia Disponível em:
http://migre.me/tb37o
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