A questão indígena no Brasil
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17:40
Por Canudos, Organização Política
Quando José Carlos Mariátegui
formulou sua tese sobre a questão indígena no Peru, ele disse que “o problema
do índio era o problema da terra”. Também falava em “socialismo indo
americano”. Tinha dois motivos para tal formulação. O primeiro dizia respeito à
formação das classes trabalhadoras peruanas. Afinal, a população peruana era,
em 1928, quando ele publicou seus “7 ensaios de interpretação da realidade
peruana”, [composta de] indígenas e camponeses [em torno de] 80%. Mas ele tinha
outra razão muito relevante: os “elementos de socialismo prático” presentes na
sociabilidade das comunidades indígenas andinas, os ayllus. Para além dos mal
entendidos da época (os estudos sobre a história pré-colombiana eram muito
incipientes e atribuía-se aos incas tal sociabilidade – hoje sabemos que é bem
mais antiga, remanescente da comunidade primeva), há nas comunidades indígenas
da América elementos de uma cultura que permaneceu, mesmo que em forma
residual, de um modo de produção e reprodução da vida que não só não é capitalista,
mas que conserva traços da sociedade não cindida.
É verdade que esses elementos
sobreviveram se tornando funcionais às formações econômicas hegemônicas: no
caso do mundo andino, primeiro foram funcionais aos sucessivos Estados formados
nas grandes sociedades agrícolas da região, incluído o Tanwantinsuyo, e,
depois, à integração do território americano ao sistema capitalista mundial nos
sucessivos modelos de acumulação. Mas Mariátegui tinha uma prospectiva de
socialismo que se apoiava nessas práticas, num contexto de luta anticapitalista
que encontrasse nessa sociabilidade as bases de inspiração e de criação prática
que se desenvolvessem num sentido universal, saindo da condição residual para
se tornar hegemônica, sem passar pelo desenvolvimento capitalista como uma
etapa “necessária”.
O procedimento teórico não tinha
uma originalidade tão radical. Marx tinha estudado o mir (a comuna eslava) para
responder a uma pergunta da inquieta revolucionária russa Vera Zasulich. E
estimava que o programa agrário para a revolução socialista na Rússia bem podia
se basear na tradição comunal eslava, sem passar necessariamente pelo estímulo
à pequena propriedade agrária. A originalidade de Mariátegui foi a de
generalizar esse procedimento para a 'Indo América'.
Mas, quando os socialistas do
Brasil falamos em questão indígena, nos encontramos com outra situação. Por um
lado, a atual população indígena no Brasil não passa de um milhão de pessoas.
Por outro, e isto é bem importante, nos encontramos com grupos humanos que
conservaram teimosamente, muito mais do que as comunidades andinas, uma
sociabilidade que se recusa à produção de excedente, à diferenciação social e a
qualquer forma de Estado. As culturas que aqui prosperaram antes da chegada dos
europeus eram culturas da abundância. E que preferiam correr o risco da falta
de recursos para o consumo diferido (em caso de adversidades contingentes) a
criar bases para a concentração do poder. Não havia ingenuidade, hoje sabemos,
nessa escolha. Provavelmente, foi uma disjuntiva em que todas as comunidades
primevas se viram obrigadas a optar. No caso dos indígenas do território que
hoje chamamos Brasil, em [algumas] ocasiões houve tentativas de interromper
qualquer desenvolvimento de cisões sociais. O grande movimento “messiânico” dos
karai, no século XV, entre os guaranis, antes mesmo da chegada dos europeus,
denuncia esse gesto. Eles desafiaram a ordem que tendia à cisão social por meio
da chamada ao jeguatá, a procura da Terra Sem Mal, que incluía a desarticulação
da ordem na troca de mulheres.
Os europeus não encontraram, no
território que hoje chamamos Brasil, formas de exploração do trabalho que
pudessem reaproveitar para a acumulação capitalista, como aconteceu no mundo
andino ou em Meso-América. Os indígenas neste território preferiram, na grande
maioria, fugir para o mato a se submeter ao trabalho forçado, ou mesmo à
redução em reservas ou missões. Há nos indígenas do território brasileiro
elementos radicais de socialismo prático, que em outras regiões do continente já
tinham perdido hegemonia fazia até um par de milênios.
É por esse motivo que os
socialistas no Brasil precisamos olhar para os indígenas da região com gesto
aprendiz. Como era o mundo antes da exploração de uns por outros? Como era o
mundo antes da alienação? E como podemos ser os humanos sem sede de poder sobre
os outros? Como podemos ser os humanos numa economia de abundância? Como
podemos ser sem destruir o mundo? Muita coisa para aprender.
Mas existe uma realidade que
ameaça os indígenas que tinham fugido, durante a colonização para terras que
não interessavam ao capital. Hoje não existe nem um milímetro de território que
não interesse ao capital, seja para a produção, seja para a especulação. O
avanço do capital sobre o território das comunidades, não só indígenas, senão
também as caboclas (aquelas que ficaram a meio caminho entre o mundo indígena e
o branco – as que se reproduzem fora do mercado) ameaça o povo e ameaça a
terra, a água, o mato como habitat. O círculo virtuoso da vida, próprio dos territórios
das comunidades primevas, é interrompido. O avanço da produção de commodities,
sejam agrícolas, pecuárias ou minerais, com tudo arrasa.
Frente a isso, quando parece que
nada detém o avanço do capital, os povos indígenas resistem. E não apenas
resistem: eles têm uma estratégia de recuperação do que foi perdido. Sua
renitente recusa a qualquer forma de poder de um grupo social sobre outro os
bem orienta. As autodemarcações, que aparecem revestidas de uma legitimidade
constitucional, uma vez que realizam, na prática, o que diz a letra do artigo
231 e o 232 da Constituição de 1988, têm um sentido mais profundo. Porque se
opõem radicalmente ao princípio motor, paradigma do capital: a ideologia que
toma como doxa a produtividade econômica, ou seja, o desenvolvimento para a
acumulação capitalista, levando a produção de excedente ao paroxismo.
No caso específico dos guaranis,
aquela etnia mais organizada “internacionalmente”, o lema que esgrimem é
“terra, justiça e liberdade”. Prestemos atenção no significado que eles dão a
“liberdade”. Eles se referem a um mundo sem cercas, onde a circulação humana,
mas também animal e de pólen não tenha impedimentos. É o jeguatá. Aquilo que
nós chamaríamos, muito modernamente, de “corredores ecológicos” e
“permacultura”, sem os quais o jeguatá, a caminhada indígena, que não carrega
mantimentos, se torna impossível. Territórios contínuos de abundância, sem os
quais a sobrevivência humana também se tornará rapidamente impossível.
Este texto opta por não tratar a
questão indígena como uma questão humanitária centrada nos indígenas, e sim por
tratá-la como uma questão centrada no desenvolvimento da humanidade, em termos
universais, que é a perspectiva de nós, socialistas.
O debate sobre o mundo indígena
pode ajudar também a pensar na sociedade não cindida como prospectiva, como
narrativa de futuro: sobre a opressão de classe, sobre a opressão colonial e
racial e sobre a opressão patriarcal (sobre as mulheres e os filhos), matriz de
todas as outras, segundo reflete Abdullah Öcalan. Quando os europeus chegaram à
América, encontraram muitos grupos que resistiam ao patriarcado. O próprio nome
dado à Amazônia é um registro desse efêmero encontro.
Não se trata de um retorno ao
passado pré-industrial. Trata-se de recuperar princípios dos quais a cisão
social nos desviou. Os princípios vivos nos povos indígenas, e não apenas no
campo da sociabilidade, mas também da relação com o ambiente, desafiam-nos a
repensar a produção industrial. O norte desta, sob a égide do capital, é a
acumulação. O sentido dela é anti-humano, anti-ambiental. Como seria uma
economia moderna, e portanto industrial, orientada para a produção e reprodução
da vida? Quais os ramos da indústria que interessam a essa finalidade e quais
as transformações necessárias para zerar seu impacto social e ambiental
negativo? Como princípios de uma “economia de abundância”, sem acumulação de
excedentes, poderiam orientar essas transformações? Será que os princípios da
permacultura, com a conseguinte racionalização dos processos de produção e
redução da energia utilizada para o transporte, poderiam se aplicar à produção
para além das atividades agropecuárias e a manufatura de baixa tecnologia? A
tendência que a finalidade de acumulação firmou, de produção concentrada, com
alto impacto ambiental, não poderia ser revertida pela aplicação de princípios
da permacultura também à indústria? A formação de corredores de floresta que os
ambientalistas reconhecem como imprescindíveis para a recuperação ambiental não
podem ser pensados também como corredores de abundância?
Os povos indígenas são prova de
que o poder exercido para a alienação de energia humana e sua redução à força
de trabalho não é uma tendência própria da natureza humana. Ele surge em
determinadas condições históricas e houve povos que resistiram e resistem ao
exercício desse poder. O trabalho alienado não é um valor universal. Ele
degrada e torna a vida sub-humana. Os povos das terras baixas não compartilham
dessa ideologia segundo a qual o trabalho dignifica.
Por isso, para os socialistas do
Brasil, da América e para os socialistas em geral, a questão indígena é
fundamental. Entre os povos indígenas, o proletariado da cidade e do campo
encontra mais que aliados estratégicos: encontra respostas programáticas contra
o capital e para aquele “sonho de uma coisa” do qual falava Marx.
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