Argentina tem 1,4 milhão de novos pobres desde que governa Macri
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21:21
Mauricio Macri se tornou
presidente da Argentina com a “pobreza zero” entre suas prioridades, mas o início
da sua gestão avança na direção oposta. Nos primeiros três meses do ano, há
mais 1,4 milhão de novos pobres na Argentina, 5,5 pontos, de acordo com
estimativas do Observatório da Dívida Social da Universidade Católica Argentina
(UCA). Na ausência de números oficiais, este organismo, muito respeitado neste
assunto até pelos macristas, assegura que em meados de março cerca de 13
milhões de pessoas não tinham renda suficiente para satisfazer suas
necessidades básicas, 34,5% do total argentinos.
A causa principal é o forte
aumento dos preços, especialmente de alimentos, que dispararam cerca de 10% nos
primeiros três meses do ano. É o índice de pobreza “mais alto dos últimos sete
anos”, disse o diretor do observatório, Agustín Salvia, em entrevista coletiva.
Salvia manifestou preocupação com a “difícil” situação econômica que atravessa
a Argentina, devido ao rápido aumento do custo de vida e as consequências sobre
os mais vulneráveis.
O organismo prevê que a pobreza
vai diminuir ligeiramente este mês, para 32,6%, graças à expansão da
assistência social aprovada pelo Governo para as famílias com rendimentos mais
baixos. Estas famílias se beneficiam de um aumento nas aposentadorias e ajudas
por filho, e também terão tarifas reduzidas nos transportes públicos, nas
contas de água, luz e energia elétrica. Mesmo assim, Salvia acredita que os
planos sociais não são suficientes para cobrir o forte aumento no custo de vida
registrado este ano.
“Essas projeções não levam em
conta as perdas de emprego ocorridas no contexto de uma economia inflacionária
e afetada por ajustes macroeconômicos, nem os recentes anúncios de aumento de
transportes e serviços residenciais”, alertou o especialista, que acredita que
os dados finais serão ainda piores.
O plano oficial de aumentos
começou em fevereiro, pouco mais de um mês do Governo Macri, com a eletricidade
tendo aumentos médios de 250% e, em casos específicos, de até 700%. Ontem a
passagem de ônibus e ferrovias duplicou. E hoje foi a vez do gás e da água, os
dois serviços públicos que faltavam, com aumentos ao redor de 300%. O impacto
dos aumentos será sentido nos primeiros dias de maio, quando vão chegar as
primeiras contas.
Os combustíveis, por sua vez,
sofreram aumentos menos espetaculares 15%, em média, mas ao contrário da água,
luz e gás, já estavam altos. O de hoje foi o terceiro aumento desde que Macri
chegou ao poder em dezembro e desde janeiro os postos de gasolina ajustaram
seus valores em 12%. As petroleiras, com a estatal YPF à frente, justificaram
os aumentos pela desvalorização de 40% do peso, anunciada por Macri assim que
assumiu o cargo para liberar as restrições do câmbio.
O Governo insiste que é preciso
um “sinceramento das tarifas” depois de mais de uma década de serviços com
tarifas muito subvencionadas, mas cada vez há mais vozes que pedem a redução do
ritmo de ajustes, já que outros bens básicos como alimentos ou roupas já estão
com os preços muito elevados, prejudicando o orçamento familiar.
A pobreza já era uma pedra no
sapato para a presidenta anterior, Cristina Kirchner (2007-2015), especialmente
a partir de 2014, quando uma forte desvalorização reverteu os progressos feitos
em anos anteriores.
Em 2013, o organismo oficial de
estatísticas deixou de publicar os questionados dados oficiais – para os quais
apenas 5% da população estava em situação de pobreza – e o apagão continua nos
primeiros meses do novo Governo, que decidiu refazer os índices do zero.
A pobreza foi uma das questões
que Macri mais usou para atacar o Governo quando estava na oposição. O
Executivo de Cristina Kirchner negava os dados da Universidade Católica, que
eram defendidos por Macri. O então chefe de gabinete, Aníbal Fernández, chegou
a dizer que a Argentina estava melhor que a Alemanha, que tem 8% dos cidadãos
em situação de pobreza. A tensão foi enorme e o macrismo conseguiu usar isso,
mas agora esses dados se voltam contra ele. O Governo insiste que precisa de
mais tempo, que agora está trabalhando para voltar ao normal, mas por enquanto
os primeiros meses estão sendo mais duros do que o esperado.
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