Conservadorismo, patriarcado e capitalismo: sobre a trindade “bela, recatada e do lar”
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Unknown
às
07:19
Por Juliana Magalhães
Vamos lá.
O problema da matéria da Veja não
é simplesmente ser uma matéria da Veja (que por si só é bem problemático).
Também não é simplesmente o ser bela, recatada e do lar. A questão é outra e se
resume a três palavras chave: conservadorismo, patriarcado e capitalismo.
Desde cedo a gente aprende que
existe mulher pra casar e mulher pra transar. Existe também a que é só pra
amizade mesmo por não possuir atributos físicos o suficiente para ser 'pegável'
(-ah, ela é legal, mas não rola não). Nesse bolo todo, existem ainda as
feministas, as que enchem o saco do mundo problematizando tudo quanto for
atitude e relação.
A gente aprende também que não é
só o espelho que tem que gostar do que a gente é. O mundo tem que gostar. É bom
ser admirada, notada. É bom ser elogiada (elogiada, amiguinhos, não assediada,
ok?). O problema é que pra agradar o mundo, a gente aprende que tem que abrir
mão daquilo que somos e do que gostamos de fazer, muitas vezes.
Sempre tive mais amigos do que
amigas. Sempre gostei de brincar com meus amigos, sem maldade nenhuma. Mas
aprendi que não podia ser assim, que tinha que 'me comportar'.
Em nome de Deus e da família, o
conservadorismo cresce. Na política, algumas mulheres são aceitas (as que votam
sim em nome do marido, por exemplo) e outras não. O padrão de mulher que o
conservadorismo quer na política é a bela, recatada e do lar. Não a que
questiona, a que se impõe. Muito menos a que luta pela discriminação do aborto.
Quando não é assim, ou a mulher simplesmente é sexualizada - peito, bunda, não
política! ou então é atacada ferozmente por ~~ser feia~~ (vale lembrar os
ataques que a própria Dilma sofreu).
Enquanto a Veja faz uma matéria
dessa, vem Bolsonaro e saúda um dos maiores torturadores do Golpe Militar.
Saúda um cara que torturou e matou inúmeras mulheres, que assistia as torturas
e que morreu impune.
Não, não é contra as mulheres
belas, recatadas e do lar. É contra um sistema capitalista patriarcal que
machuca. É contra um conservadorismo hipócrita que caga regra em nome de Deus e
da família.
Queria pedir pros amiguinhos que
estão se divertindo postando fotos vestidos de mulheres pra se preservarem um
pouco. Não é só zueira de internet. É também resistência a violência diária
(ainda que limitada a uma hashtag). Dói. Machuca. É preciso ir pra além das
sátiras, é preciso acabar com os padrões impostos, legitimados pela Igreja,
pelo Estado e pela Família. Em vez de se vestir de mulher numa campanha contra
o machismo, a gente poderia problematizar as nossas próprias relações com as
mulheres que convivemos (mãe, companheira, esqueminha, irmãs, brodinhas..), que
tal?
(*) Juliana Magalhães é socióloga
pela UFC e mestranda em Ciências Sociais pelo PPGCS-UFRN.
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Política
