Da rede à rua
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Unknown
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21:52
Leonardo Bezerra
Respiramos um ar tristonho. Essa
talvez seja uma frase que ao nosso olho revela o que há em nossa sociedade
brasileira. Há poucos dias, chegou às redes sociais virtuais a notícia de um
estupro coletivo, quando 30 homens, aproximadamente, estupraram uma
adolescente. Esse fato não se isola de outras bandeiras, como é o caso da
bandeira LGBT e seus integrantes hostilizados, alunos e suas escolas fechadas,
babás impedidas de frequentar o banheiro feminino e, claro, do próprio panorama
político nacional -- lembremos de que há menos de um mês a presidenta Dilma,
legitimamente eleita, foi afastada do seu governo por um Golpe (cada vez mais
evidente a cada áudio vazado).
O estupro coletivo, bem como
demais fatos que atingem mulheres, LGBTs, negros, entre outros grupos sociais,
estão profundamente associados, assim como se associam a história do Brasil e
da humanidade em si. Os fatos revelam a mais dura face da história do Brasil:
as caravelas continuam seu trajeto da metrópole à colônia, tal qual a Casa
Grande ainda oprime/reprime a senzala e o Sobrado ao Mocambo. Soa com espanto e
ar de mentira ao ingênuo eremita no deserto, que na civilização brasileira
contemporânea existam Bolsonaros e Malafaias, ambos com reais poderes de mover
populações por suas ideias que, a principio, haviam ido com Hitler para os
livros de história. Mas, infelizmente, é o que temos para hoje.
Hitler não morreu. Esta talvez
seja a pior e mais evidente premissa da atualidade em termos de Brasil. Este
símbolo nazista continua aqui, entre nós, andando livremente, se esbaldando
entre fatos inimagináveis. O que fazemos? Nos conformamos em legalidades
incabíveis. Estamos fadados a uma incoerência de discursos. Uma incoerência que
incorre sobre diversos aspectos de nossa vida. Não se trata aqui de ir contra
os parâmetros institucionais, caindo no abismo daqueles que querem “justiça”
com as próprias mãos ou mesmo a pena de morte. Aqui se trata da legalidade histórica
do conformismo mais básico. Quando falamos em legalidade incabível, falamos do
tratar da nossa própria história como se tratássemos de algo passado no sentido
temporal.
O nazismo não foi algo que apenas
ocorreu na Alemanha do início do século XX, mas, sim, é algo que ocorre em
nossa sociedade desde a Alemanha da década de 1930. É nazismo, o racismo, a
LGBTfobia, a misoginia e o machismo, assim como outros e outros aspectos. É
nazismo o nosso aqui e agora, por sua vez, também fascista. Mais especificamente,
como podemos ingressar de forma mais intensa num debate sobre machismo, se em
muitos lugares ainda se aplica a frase “Dona Fulana é mulher de seu Beltrano”?
Como pode uma mulher ser de alguém? Ou a frase “Proibida a entrada de babás” na
porta de um banheiro? Ou, ainda, como podemos aceitar muros delimitando favelas
de bairros nobres? Estas são marcas que, juntas a outras, integram o mesmo
discurso, reafirmam a vivacidade do nazismo. Não aquele de Auschwitz, pelo
menos não por enquanto, mas sim um nazismo novo, um neo-nazismo.
Os elementos de composição desse
neo-nazismo, e de tantos outros movimentos de segregação e violação da condição
de vida e de humanidade, se interligam e se fundamentam na mesma terra. É uma
árvore de frutos podres, onde insistimos em comer e nos envenenar.
Envenenamos-nos na língua. Por agora, o machismo reina na audiência. Reina por
estar presente na nossa linguagem e se materializando no estupro dessa
adolescente.
O estupro é um dos ápices. E
embora o seja, as portas para violência, como já mostrada, surgem
atemporalmente, até mesmo pela linguagem. Ser de alguém é uma condição
humilhante, coisificante. Sendo um homem de alguém, certamente ele será um
escravo/objeto, assim a legislação cabível anti-escravidão será todo seu suporte.
No entanto, para a mulher, a condição de linguagem é mais perturbadora. Ser uma
mulher de alguém indica um duplo sentido. Ser esposa de um homem ou a condição
de escravidão/coisificante, quando não as duas, valendo-se de dois sentidos,
aumenta em significado, só cresce a possibilidade de uma fuga de uma
justificação, mesmo que linguística. Levantando ainda a condição de
contrariedade, ser um homem de uma mulher, indica não totalmente uma agressão
ao homem. Isso ocorre em uma vertente; a escravidão, em termos atuais a leitura
mais comum é outra, é em dupla condição à mulher, onde ela pode ser uma
prostituta (outro grupo fragilizado pelo machismo e cia) ou uma mantedora de
garoto de programa (ainda passível de critica machista e misógina). Em todos os
casos, a mulher encontra um universo maior de significados e acusações
travestidas de comentários, em número e em gênero. A condição de mulher possui
inúmeros meios e modos de repressão e opressão, até mesmo dificuldade em
escapar da agressão.
Putas, travestis e mulheres,
inúmeros são os grupos atrelados à feminilidade. No caso, maio de 2016, uma
mulher foi estuprada por 30 homens. A linguagem que agrediu partiu da grande
imprensa, foram postagens que classificavam o crime como “suposto” onde era
evidente o caso. “Suspeitos” onde na mesma matéria haviam considerações que não
deixavam duvidas sobre os verdadeiros culpados. Novamente a linguagem traí o
gênero e a história. Esta mulher foi agredida inúmeras vezes, mas no final das
contas, só a partir da materialidade da violação (o estupro) é que conseguimos
refletir sobre a brutalidade do caso. Ela foi, superficialmente, fisicamente
violentada, imageticamente exposta, virtualmente agredida, linguisticamente
traída e desamparada. E o que fazemos em relação a tudo isto? Manifestamo-nos
em redes. Nas redes onde esta mulher foi vitimada, onde foram vitimadas
inúmeras outras mulheres, onde a velocidade se confunde com as quantidades de
crimes e só nos é possível refletir sobre o mais quantitativamente mais obsceno.
Parece que o percurso do Homem
até às redes sociais virtuais foi marcado por uma luta para se virtualizar, mas
agora penamos para materializar a luta virtual. Não sabemos como fazer isso.
Por isso, morrem pessoas e causas, nem reparamos nelas. Tudo cai na vulgaridade
do dia, como a vermelha maçã que colocamos em cima da mesa para comer mais
tarde, quando seguimos a trabalhar ou conversar e acabamos por esquecê-la. Só
nos lembramos da maçã quando sentimos o estômago gritar, quando seu vermelho já
não importa tanto, somente sua materialidade é importante. Assim morrem causas,
como foram outras bandeiras. Essas causas não poderiam ter se perdido, mas se
perderam. São pequenos os grupos que seguem sua luta, estas pessoas sumiram
junto às fotos de perfil do Facebook na época, ou ao modo como lutavam. Diferem
de outros movimentos sociais, como o MST, ou CIMI, entre outros, que seguem
lutando nas redes e nas ruas. Chegamos a um impasse, um paradigma de redes.
Como quebrar esse paradigma que nos impõe uma velocidade sobre humana que ataca
diretamente nossa memória?
Precisamos de mais. Precisamos de
mais militância. Não que o ciberativismo não seja importante, claro que é
importante à luta. Porém, não podemos deixar de lado a solidez do mundo.
Precisamos converter as ações na rede virtual em materialidade. Enquanto
postamos um comentário contra o estupro, alguma mulher pode estar sendo
estuprada, isto é um fato. Enquanto amanhã acordaremos e nos dirigiremos aos
nossos empregos, mais gente segue sendo violentada fisicamente ou moralmente. A
foto do perfil, ou a postagem do momento é apenas o começo da luta, se isso não
sair da rede, nada será mudado, a não ser nossa concepção de períodos de luta.
Quantas pessoas das letras e
pesquisadores da área estão distantes das escolas e de suas comunidades, ou
mesmo em seu cotidiano se distanciam da luta contra essa linguagem agressiva?
Quantos jornalistas se distanciam de um jornalismo ativista, trocando bandeiras
de suas ideias pelas bandeiras do jornal? São incontáveis as pessoas que postam
algo contra o estupro e que não mantém atividades ligadas aos movimentos
sociais que o combatem. Essas ausências servem de incentivo às multiplicações
desse tipo de ação criminosa.
Enfim, se por um lado as redes
virtuais ajudaram com o ciberativismo, por outro, prejudicam a materialidade do
combate. Precisamos de gente na rua, na favela, na escola. Necessitamos de
movimentos sociais com mais aproximação de outros grupos fragilizados.
Necessitamos de correntes de ligação, montando um corpo só. Precisamos de
correntes de ligação entre rede e rua. Precisamos causar mal-estar aos
machistas em todos os ambientes da vida. Precisamos causar mal-estar aos
racistas, LGBTfóbicos, entre outros. Precisamos causar mal-estar às classes
opressoras e repressoras, por sua vez dominantes.
Quem é estudante não pode esperar
o mercado de trabalho para ser ativista, ele não permitirá. Quem é trabalhador
não pode esperar a autorização do patrão para ir à luta, ela não virá. Quem é
gente deve tomar a posição de gente, assim como mulheres devem se unir com e
pelas mulheres onde quer estejam. Idosos com idosos, negros com negros, LGBTS
com LGBTS, grupos historicamente oprimidos e reprimidos devem se unir aos
outros grupos oprimidos e reprimidos, para que nesta lógica de uniões, nossa
máxima um dia seja de gente unida à gente por respeito. Seguindo a linha,
devemos defender o direito de quem não tem direito, devemos brigar para dar voz
a quem não tem. Devemos alcançar uma sociedade onde não precisemos de máximas para
viver. Onde para vivermos precisemos apenas de vida.
(*) Leonardo Bezerra é jornalista
e ativista social.
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