Flexibilização da CLT entra na pauta do governo Temer
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23:54
O Globo
BRASÍLIA - Enquanto todas as atenções se voltam para as mudanças
que o governo pretende fazer na Previdência, discretamente a equipe do
presidente interino Michel Temer já desenha outra medida polêmica: a reforma
trabalhista. O objetivo é flexibilizar a Consolidação das Leis do Trabalho
(CLT), a partir principalmente dos acordos coletivos, para aumentar a
produtividade da economia e reduzir os custos dos empresários ao investir. Mas
com o cuidado de manter os direitos assegurados aos trabalhadores pela
Constituição. A proposta deve restringir as negociações coletivas à redução de
jornada e de salários, ficando fora dos acordos normas relativas à segurança e
saúde dos trabalhadores.
Dessa forma, FGTS, férias,
previdência social, 13º salário e licença-maternidade, entre outros,
continuarão existindo obrigatoriamente, mas serão flexibilizados. Ou seja, as
partes (empregadores e sindicatos da categoria) poderão negociar, por exemplo,
o parcelamento do 13º e a redução do intervalo de almoço de uma para meia hora,
com alguma contrapartida para os empregados. As horas gastas no transporte que
contarem como jornada de trabalho — nos casos em que a empresa oferece a condução
— também poderiam ser objeto de negociação.
Faz parte da proposta, ainda, a
conclusão da votação do projeto que trata da terceirização pelo Congresso
Nacional. O texto aprovado pela Câmara dos Deputados e enviado ao Senado prevê
a contratação de trabalhadores terceirizados nas chamadas atividades-fim das
empresas, o que hoje não é permitido.
— Essas são as linhas gerais da
reforma, mas ainda não há uma proposta fechada. Também não existe definição de
quando o texto será enviado ao Congresso. Isso vai acontecer depois dos debates
com as centrais. O tema é prioridade para o governo — disse um interlocutor do
Planalto.
Ele explicou que o objetivo da
reforma trabalhista é reduzir riscos e custos para as empresas, que são muito
elevados no país, mesmo para quem cumpre a legislação. Os investidores se
queixam de que são obrigados a abrir verdadeiros escritórios de advocacias só
para lidar com ações judiciais, disse.
Para vencer resistências, o
governo vai insistir na tese da valorização da negociação coletiva e fugir do
discurso simplista de que a reforma levará à prevalência do acordado sobre o
legislado — em seu governo, Fernando Henrique Cardoso adotou esse discurso e
não conseguiu aprovar as alterações. Na prática, disse uma fonte do governo,
não é isso, porque os direitos básicos assegurados aos trabalhadores não
poderão ser suprimidos com a mudança na lei.
O ministro do Trabalho, Ronaldo
Nogueira (PTB-RS), já começou a discutir o assunto com o presidente do Tribunal
Superior do Trabalho (TST), ministro Ives Gandra Filho — defensor da
flexibilização da lei trabalhista. A ideia é ampliar a todos os setores da
economia acordos realizados pela Corte para algumas categorias e que
preservaram direitos básicos, fazendo uma alteração na CLT.
— Capital e trabalho precisam
sentar-se à mesa, porque são eles que melhor conhecem a realidade de cada um,
de cada setor da economia, e, por isso, podem construir a melhor solução,
principalmente nos momentos de crise, para evitar o desemprego. Precisamos
modernizar a CLT para estabelecer um ambiente de diálogo e uma norma que
configure a fidelidade. Isso é importante para os investidores que querem
segurança nos contratos e para os trabalhadores, principalmente neste momento
em que o Brasil passa por um momento delicado — disse Nogueira.
O presidente do TST reforçou:
— Penso que a melhor forma de se
conseguir encontrar o ponto de equilíbrio em cada setor produtivo seria
prestigiar e valorizar a negociação coletiva, permitindo que empresas e
sindicatos, que mais conhecem cada segmento, estabeleçam as condições ideais ou
possíveis de trabalho.
Entre os acordos de
flexibilização com respaldo da Constituição, de acordo o TST, estão redução das
horas de transporte, dos intervalos intrajornada, do cômputo do adicional
noturno; redução do intervalo de uma hora do almoço para meia hora, nos casos
em que o trabalhador permaneça no local de trabalho e, como contrapartida,
possa terminar o expediente mais cedo. Atualmente, isso não é permitido e
resulta em ação indenizatória na Justiça.
Gandra destacou que o Programa de
Proteção ao Emprego (PPE), do governo do PT —que permite redução de jornada e
de salário em tempos de crise —, é o maior exemplo de flexibilização da
legislação trabalhista. Para o ministro, o PPE, considerado burocrático pelos
empregadores e com custo para a União, que complementa parte do salário,
poderia ser ampliado.
CNI QUER ÊNFASE NA PRODUTIVIDADE
O diretor da Confederação
Nacional da Indústria (CNI), Alexandre Furlan, lembrou que a reforma
trabalhista e a regulamentação da terceirização fazem parte da agenda do setor
produtivo, entregue a Temer. Ele disse acreditar que as propostas avancem
diante da mudança de discurso com Temer no governo. O debate em torno desses
temas não pode ser ideológico, disse, e sim levar em conta o aumento da
produtividade:
— Simplesmente proteger o trabalhador,
esquecendo a sustentabilidade das empresas, a competitividade e a produtividade
no ambiente de trabalho, você não conseguirá avançar para uma relação de
trabalho mais moderna.
Segundo Furlan, a legislação
atual não favorece os acordos coletivos. Ao contrário, estimula conflitos,
disse, lembrando haver milhões de ações na Justiça.
A reforma trabalhista já é alvo
de iniciativas de parlamentares. A mais recente partiu do deputado Júlio Lopes
(PP-RJ), que apresentou no mês passado um projeto de lei (4.962) que altera o
artigo 618 da CLT — que trata das convenções —, nos mesmos moldes da intenção
do governo de Temer. A proposta está sendo avaliada pela Comissão do Trabalho,
em caráter terminativo. Caso não haja recurso para que o projeto seja apreciado
pelo plenário da Câmara, o texto, se aprovado, seguirá direto para o Senado. As
audiências na Comissão já estão marcadas para o próximo dia 14. Lopes
apresentou o projeto depois de conversar pessoalmente com o próprio Temer antes
de este assumir o governo. O projeto tem o apoio do presidente do TST.
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