Dilma critica a corrupção do PMDB sem mencionar que aconteceu sob seu nariz
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20:56
“Não compactuei nem compactuo com
a corrupção”, disse Dilma Rousseff, na sexta-feira, ao discursar para
militantes petistas na cidade de Recife. A oradora enganou-se. Entusiasmada com
a delação de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, Dilma criticou os
“usurpadores” do PMDB com tanto entusiasmo que esqueceu de mencionar um
detalhe: a pilhagem ocorreu sob o seu nariz.
Além das confissões de Sérgio
Machado, um apadrinhado de Renan Calheiros, há na praça outro corrupto confesso
ligado ao PMDB: Fábio Cleto, um afilhado de Eduardo Cunha que serviu aos
interesses partidários como vice-presidente de Fundos do Governo e Loterias da
Caixa Econômica Federal. Embora já tenha sido avalizada pelo ministro Teori
Zavaschi, relator da Lava Jato no STF, a delação de Fábio Cleto permanece sob
sigilo.
Na Presidência, Dilma foi
condescente com Machado e Cleto. Governar o Brasil não é de todo ruim. O
horário é bom, o dinheiro dá para o gasto, viaja-se muito e há sempre a
possibilidade de poder demitir os protegidos de Renan e Cunha, que deve
proporcionar uma sensação boa. Mas Dilma manteve a dupla de delatores nos
respectivos cargos até o limite da irresponsabilidade.
Machado não chegou a ser demitido
por Dilma. Caiu de podre, em novembro de 2014. Quanto a Cleto, só foi enviado
ao olho da rua em dezembro de 2015, depois que seu padrinho político deflagrou
na Câmara o processo de impeachment de Dilma. Foi afastado por retaliação, não
por corrupção. Ouvido à época, Cunha tripudiou: “Para o currículo dele, é
melhor não estar nesse governo.''
A vida ofereceu a Dilma várias
oportunidades para se livrar Sérgio Machado. E ela desperdicou todas. Em
setembro de 2014, época de eleição presidencial, a Procuradoria da República
denunciou Machado por improbidade. Fraudara licitação para a compra de oito
dezenas de barcaças destinadas ao transporte de etanol. Dilma fingiu-se de
morta.
Dias depois, em 10 de outubro, às
vésperas da sucessão, veio à luz depoimento do delator Paulo Roberto Costa,
ex-diretor de Abastecimento da Petrobras. Ele contou que recebera R$ 500 mil em
verbas sujas das mãos de Machado. Dinheiro de propina. Dilma tachou de
“estarrecedora” a divulgação do depoimento no período eleitoral. Sobre o
conteúdo das denúncias, declarou o seguinte na ocasião:
“Em toda campanha eleitoral há
denúncias que não se comprovam. E assim que acaba a eleição ninguém se
responsabiliza por ela. Não se pode cometer injustiças.” E seguiu em frente,
como se nada tivesse sido descoberto sobre o homem de Renan. Deu-se, então, o
inusitado: a empresa PricewaterhouseCoopers, que audita as contas da Petrobras,
disse que não assinaria o balanço anual da companhia enquanto Machado fosse
presidente da Transpetro.
Dilma não se deu por achada. Foi
preciso que Machado tomasse a iniciativa. Pediu licença do cargo. Em nota,
escreveu que a acusação de Paulo Roberto era “francamente leviana e absurda,
mas mesmo assim serviu para que a auditoria externa PwC apresentasse quedtionamento
perante o Comitê de Auditoria do Conselho de Administração da Petrobras.”
Acrescentou: “Decido de forma
espontânea requerer licença sem vencimentos pelos próximos 31 dias. Tomo a
iniciativa de afastar-me temporariamente para que sejam feitos, de forma
indiscutível, todos os esclarecimentos necessários.” Machado ainda renovou a
licença um par de vezes antes de bater em retirada.
Hoje, Dilma se escora na
corrupção confessada do PMDB para reforçar a tese do “golpe” e defender a sua
volta triunfal ao Planalto. Mal comparando, madame age como o homem da anedota,
que matou pai e mãe e, no seu julgamento, pediu misericórdia para um pobre
órfão.
É como se Dilma quisesse a
compreensão de todos para o sacrifício da sanidade nacional em nome da eliminação
do mal que ela mesma criou com sua conivência com a roubalheira. No fundo, deve
lhe doer a ideia de que fez o papel de uma rainha desastrada, numa peça
confusa, em que o protagonista foi o Renan e cujo epílogo é o Cunha.
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