Paulo Freire
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23:52
Por Marcelo Freixo
Nada mais ideológico do que negar
a ideologia. Por isso as propostas do movimento Escola Sem Partido (ESP) são
uma arapuca armada para pegar o senso comum. A começar pelo nome de batismo.
É evidente que escola não tem que
ter partido. Essa obviedade não é anunciada à toa. É uma armadilha. Com ela, os
ideólogos da proposta tentam esconder os seus reais propósitos: despolitizar a
educação descolando-a do contexto social e cultural em que está inserida. O
alvo não é o proselitismo partidário, mas o pensamento crítico e a experiência
da pluralidade.
Quando menciono a crítica, não
evoco o sentido negativo da palavra –ser contra algo–, como ela é comumente
utilizada. Refiro-me à capacidade de analisar e formar opinião de maneira
autônoma. Como escreveu Paulo Freire, os estudantes precisam aprender a ler o
mundo. Só assim teremos uma educação verdadeiramente emancipatória e humana.
Trago o exemplo de Paulo Freire
porque ele foi transformado no símbolo maior de doutrinação pelos defensores do
ESP, que odeiam sua obra mesmo sem conhecê-la.
Num seminário realizado em março
de 1996, na Universidade de Northern Iowa, nos Estados Unidos, ele alertou
sobre a importância do “testemunho da diferença e o direito de discutir a
diferença” na educação.
“Quão bonito é para os estudantes
acabar de ouvir um professor falar sobre utopia, criticando um discurso
neoliberal, e ouvir, depois, outro defendendo o discurso neoliberal”, disse. E
há quem prefira Alexandre Frota a Paulo Freire no Ministério da Educação.
O direito de vivenciar e discutir
as diferenças está na mira do ESP, que inspirou projetos que tramitam na Câmara
dos Deputados, em nove Assembleias Legislativas e pelo menos 17 Câmaras
Municipais.
O debate sobre questões de gênero
é um exemplo das reais intenções e dos graves prejuízos que a proposta
provocará caso seja aplicada. Defensores do programa querem proibir as escolas
de discutir o tema, tão importante para desenvolvermos uma cultura de respeito
aos direitos das mulheres.
Eles classificam o debate de
gênero como doutrinário. A mesma acusação foi feita ao Ministério da Educação
por ter escolhido a violência contra a mulher como assunto da prova de redação
do Enem em 2015.
Não é à toa que o movimento ESP,
fundado em 2004, só ganhou força nos últimos dois anos. Ela é fruto de uma
intolerância crescente e cada vez mais violenta, um desejo de eliminar a
diferença.
A aprendizagem não pode ser
reduzida a um processo meramente técnico, bancário, de transferência de
conteúdo de professor a aluno. Educação é diálogo, desvendamento, experiência e
respeito à pluralidade. É de mais Paulo Freire que precisamos.
(*) Marcelo Freixo é Deputado
Estadual pelo PSOL no Rio de Janeiro, professor de História e colunista da
Folha S. Paulo.
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