PSOL pode e deve ir muito além do PT
Postado por
Unknown
às
23:38
Por Enio Bucchioni – Esquerda Online
Para efeito de uma primeira
análise parcial acerca das recentes eleições municipais, tomei os dados
estatísticos das primeiras dez cidades mais populosas do país, em ordem decrescente,
todas elas capitais. A saber: São Paulo, Rio de janeiro, Salvador, Fortaleza,
Belo Horizonte, Manaus, Curitiba, Recife, Porto Alegre e Belém.
Os dados tornados públicos nas eleições
para prefeitos fornecem números importantes para uma primeira avaliação,
números que arredondei o mais próximo da realidade para facilitar a compreensão
política.
PSDB: cerca de 5,71 milhões
PMDB: 1,7 milhões
PT: 2,02 milhões
PSOL: 1,16 milhões
PSTU: 25 mil
É indubitável que o PSDB sai como
a primeira força das classes dominantes, com quase três vezes mais votos que o
reformismo representado pelo PT. Do ponto de vista burguês, foi o PSDB o
partido mais lúcido e determinado em toda a campanha pelo ‘golpe democrático’
contra o governo de colaboração de classes de Dilma e do PT.
É interessante observarmos que o
PMDB de Michel Temer obteve nestas 10 capitais menos votos até mesmo que o PT,
mas menos do que um terço do total do PSDB.
No entanto, juntos eles somam perto de 7,4 milhões de votos, o que dá ao
governo Temer uma consolidação do golpe nas urnas. Assim, as portas estão
abertas para esse governo burguês puro-sangue desatar toda a sorte de
‘reformas’ , ajustes e austeridade contra a classe trabalhadora, a juventude e
todos os demais setores explorados e oprimidos. Veja, caro leitor, que não
coloquei nesse texto os votos do DEM e do Centrão, também bases do governo
Temer e, em geral, mesmo com fricções e contradições, acabam por seguir as
diretrizes dadas pelos quadros do PSDB.
É de se ressaltar, no entanto,
que, em dinâmica, isso não significa que esse
governo espúrio possa sair da instabilidade política. As contra-reformas
mais drásticas ainda não foram formalizadas na prática, veremos como se dará a
luta de classes e a reação indignada dos trabalhadores contra elas. Também não
está definida na conjuntura o tamanho do descalabro da economia capitalista em
nosso país e a possibilidade de se sair da crise do ponto de vista capitalista.
Os dados eleitorais do PT e do PSOL
É interessante observarmos que do
ponto de vista quantitativo eleitoral o PSOL conseguiu um pouco mais da metade
dos votos do PT nas dez capitais mais populosas do país, o que é uma grande
novidade e dá uma ideia da derrota política do reformismo petista bem como do avanço significativo da legenda do PSOL.
Aliás, dos 53 vereadores eleitos
pelo PSOL no país inteiro – antes eram 49 – 18 foram eleitos nestas dez
capitais. Nestas cidades, a relação ficou assim entre os vereadores eleitos:
São Paulo : PT 9 x 2 PSOL
Rio de Janeiro: PT 2 x 6 PSOL
Salvador: PT 3 x 1 PSOL
Fortaleza : PT 2 X 0 PSOL
Belo Horizonte: PT 2 X 2 PSOL
Manaus : PT 1 X 0 PSOL
Curitiba : PT 1 x 0 PSOL
Recife: PT 2 x 1 PSOL
Porto Alegre: PT 4 x 3 PSOL
Belém: PT 1 x 3 PSOL
Resumo das 10 maiores capitais do
país e vereadores eleitos: PT 27 x 18 PSOL.
Uma pequeníssima diferença.
Assim, do ponto de vista de projeção eleitoral seja em número de votos obtidos,
seja no total de vereadores eleitos, a conclusão óbvia é que há um crescimento
muito grande e importante do PSOL e um decréscimo imenso do PT. Ou seja, o PT
já não mais tem a hegemonia indiscutível em relação àquilo que existe de
esquerda no Brasil. Devemos relembrar
que o PSOL praticamente não participou dos debates televisivos, bem como tinha
apenas 11 segundos de tempo nos programas políticos diários. Certamente seria
bem maior o resultado eleitoral do PSOL sem essas barreiras anti-democráticas
do regime democrático-burguês em nosso país.
Cabe ressaltar que o PSTU não
elegeu nenhum vereador em todo o país. Aliás, se compararmos a expressão
eleitoral dos votos do PSOl com os do PSTU
chega-se à conclusão simples de que o total do PSOl é um pouco mais de
46 vezes superior ao do PSTU nas eleições para prefeitos nestas 10 capitais.
Alguém poderá afirmar que, no
total geral do país, o PSOl retrocedeu um pouco pois em 2012 havia tido cerca
de 2,3 milhões de votos para vereador e agora, em 2016, apenas 2,09. Convém registrar que, diferentemente de
outras ocasiões, por motivo da contra-reforma na Câmara, outrora presidida pelo larápio Eduardo Cunha, o PSOl
e o PSTU ficaram de fora dos debates das TVs e com escassos segundos na
propaganda eleitoral pelo horário eleitoral das rádios e TVs.
Ampliando as estatísticas para
todo o país
Se ampliarmos os dados para o
total de votos para vereadores em todo o país, teremos o seguinte quadro:
PSDB: 17,6 milhões de votos, sua
maior votação desde sempre Em 2012 obteve 13,8. Foi o mais votado em 2016. Com
a grande votação do Doria em SP no primeiro turno, o PSDB é o partido das
classes dominantes vencedor destas eleições.
PMDB: 14,8 milhões. Apesar de
perder 2 milhões desde 2012 , tem ainda capital político para influir nas
eleições de 2018 junto aos outros partidos burgueses. No entanto, Temer e Serra
tiveram uma grande derrota política em São
Paulo ao apoiarem Marta Suplicy contra o PSDB de Alckmin e Doria. Maior ainda é a derrota
arrasadora do PMDB no Rio.
PT: 6,8 milhões. Em 2012 obteve
17,2 milhões de votos. Perda de mais de 10 milhões de votos. O PT reformista e
a sua colaboração de classes após 13 anos no comando do governo federal com
Lula e Dilma foi o maior derrotado nestas eleições. Tudo leva a crer que a grande maioria, quase
totalidade destes votos perdidos foi transferido para os partidos de direita,
contrariando em absoluto quem afirmava que a classe trabalhadora havia rompido
com o PT pela esquerda. Assim não foi. O rompimento dos eleitores assalariados
do PT foi para a direita.
PSOL: 2,09 milhões. Perdeu 300 mil em relação a 2012. No entanto, elegeu
mais vereadores nessa ocasião e foi para o 2º turno em duas capitais
importantes, Rio e Belém, bem como em Sorocaba, importante cidade do
interior paulista. Além disso, é
importante realçar que o PSOL teve os vereadores mais votados de Belo
Horizonte, Belém e Porto Alegre.
PSTU: cerca de 77, 9 mil votos em seus candidatos à vereador, sendo que o
MAIS, que concorreu pela legenda do PSTU, teve cerca de 12 mil votos.
Para que não fique dúvida sobre a
correlação de forças pendendo à direita e refletida nestas eleições, o número
total de vereadores eleitos pelo PMDB (7.551), PSDB (5.355), DEM (2.855) e
Centrão ultrapassa a casa dos 27 mil. O reformismo petista conseguiu diminuir
de 5.067 para 2.795 eleitos. A esse número do reformismo petista teríamos de
agregar os 998 eleitos do PC do B. Já a antiga esquerda socialista não
governista representada pelo PSOL tem apenas 53.
As estatísticas eleitorais servem para alguma coisa?
“O Partido Comunista alemão
recebeu três milhões e duzentos mil votos nas eleições do ano passado (1928).
Esse resultado, posterior à derrota de 1923 foi sumamente significativo e
prometedor. Porém, de nenhuma maneira é um sintoma de uma situação
revolucionária. Sobre esses três milhões e duzentos mil pesam os nove milhões
(obtidos pela social-democracia) que refutam totalmente a conversa fiada de
Thaelman (máximo dirigente do PC alemão) acerca de que a situação se torna “mais revolucionária a cada dia”. Essa
citação está nas páginas 230 e 231 dos Escritos de Trotsky. Tomo I, volume I,
1929-1930, Editorial Pluma ,1977, do texto de 26 de junho de 1929 cujo título é
‘ Que nos depara el 1º de agosto?’.
Como Trotsky interpretava esses dados eleitorais?
Depois da experiência da guerra e
da derrota do militarismo alemão, da insurreição revolucionária e das amargas
derrotas do proletariado, amplas massas operárias , que incluem uma nova
geração, sentem a necessidade de passar novamente pela escola do reformismo (da
social-democracia). Página 229 do livro citado.
Várias outras vezes Trotsky
utilizou as estatísticas eleitorais para obter caracterizações políticas, como
essa charlatanice do PC stalinista alemão sobre a situação cada vez mais
revolucionária sendo que o reformismo da social-democracia obteve o triplo de votos
do PC.
O que ele diria do Brasil de
2015/2016 com os poucos milhões de votos
do reformismo PT/PC do B , os muitíssimos milhões de votos a mais da direita
tradicional encarnada pelo PSDB,PMDB,DEM, Centrão e ainda os poucos votos da
antiga esquerda não-governista?
O leitor poderá ver outras
aplicações das estatísticas eleitorais usadas por Trotsky no livro “Revolução e
Contra-Revolução na Alemanha” ou no “Aonde vai a França?”, só para dar mais alguns exemplos.
A afirmação de que os resultados
eleitorais são deformados em relação à realidade é verdadeira, mas isso não
deve significar ignorar os resultados. Afinal, são uma expressão distorcida da
luta de classes. Dizer, entretanto que não serve para nada é ocultar a
realidade e enganar não somente a nós mesmos, aos nossos militantes bem como a classe trabalhadora que pretendemos
representar.
Desafio do PSOL: á reboque da colaboração de classes ou para muito além
do PT?
Todos os números acima indicam
que houve um avanço importante do PSOL.
Politicamente o mais importante e qualitativo é a sua passagem para o 2º turno
em duas capitais, principalmente no Rio de Janeiro. Aí o PSOL fez desmoronar os
caciques do PMDB que comandavam a prefeitura e o Estado faz já muitos anos, bem
como as candidaturas do PSDB e PC do B .Esta última apoiada pelo PT, por Lula e
Dilma.
Seu adversário, o senador
Crivella foi ministro do governo Dilma. Crivella é ligado à Igreja Universal do
Reino de Deus e hoje acabou de obter o apoio da extrema direita dos Bolsonaros.
A chegada de Freixo no segundo
turno deve ser aproveitada para potencializar ainda mais a construção de uma
alternativa política que supere o PT. Neste sentido é muito importante
nacionalizar a campanha, denunciar publicamente
o ‘golpe democrático’, agitar e propagandear diretamente o Fora Temer! junto ao
movimento de massas e à vanguarda dos ativistas. As alianças do PT e PC do B
com os burgueses Cabral e Pezão do PMDB nunca mais devem se repetir. É a chance
de ganhar milhões para a ideia de que as privatizações não resolvem nada, de
que é possível ganhar e governar ao lado dos trabalhadores e do povo.
Precisamos tirar as lições do PT.
É impossível governar ‘para todos’ e defender a saúde, transporte e educação
públicas. Foi muito importante ter levado a público a denúncia da violência
praticada diariamente pela PM e pelas milícias.
Vale a pena também destacar que a Frente de Esquerda que se alinhou com
Freixo participou dos espetaculares comícios de rua em pleno centro do Rio de
Janeiro, levando dezenas de milhares de pessoas a participarem ativamente de
sua campanha, de forma que cada um desses ativistas se transformasse em um
militante a mais dessa campanha e não um
mero espectador passivo da TV.
Até o momento Freixo e o PSOl do
Rio de Janeiro estão fazendo exatamente o inverso do que o Clécio Luis
executou em Macapá. Eleito em 2012 pelo PSOL numa coligação espúria com
partidos burgueses – PV, PPS, PMN, PTC e
PRTB – e apoiado por Lula e Marina no segundo turno, Clécio acabou governando
contra os trabalhadores e saiu do PSOl, indo para a REDE de Marina. Ou seja,
acabou por tomar o mesmo rumo do reformismo petista.
Em síntese, as eleições do Rio de
Janeiro demonstram que a esquerda socialista pode e deve ir muito mais além do
que foram o PT, Lula e Dilma. Esse é a expressão política da campanha de Freixo
no primeiro turno.
Ainda que seja muito difícil a
sua eleição, pois os votos dados ao conjunto dos partidos burgueses é muito
maior do que os obtidos pelo PSOL, há um imenso significado político para todos
os que militam em prol do socialismo. Opõe um senador candidato da base do
governo Temer contra um que reflete as classes exploradas.
Nesse momento a candidatura
Freixo representa o Fora Temer! e suas medidas anti-trabalhadores em todo o
país e abre todo um espaço para a reorganização da esquerda não –reformista no
Brasil.
Categorias:
Política
