2017 não será fácil para a direita neoliberal
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21:09
O ano de 2016 não foi nada bom
para as esquerdas na América Latina. O golpe jurídico-parlamentar no Brasil e a
subsequente vitória das direitas nas eleições municipais foram os mais severos,
mas também se viu a eleição de um presidente neoliberal e um Congresso
fujimorista no Peru, a derrota em referendo de um muito aguardado plano de paz
para a Colômbia, mais um governo conservador na República Dominicana e a
derrota da Concertación para a direita na maioria das eleições municipais do
Chile, fora reveses menores.
As esquerdas bolivarianas, apesar
de tudo, saíram-se menos mal. A crise econômica e política da Venezuela
agravou-se, mas Nicolás Maduro continua no poder e sua popularidade, apesar de
ter caído para 23%, ainda não é tão ruim quanto a de colegas como o mexicano
Enrique Peña Nieto, a chilena Michelle Bachelet e o brasileiro Michel Temer.
A oposição, vitoriosa nas
eleições legislativas de 2015, tentou primeiro emendar ilegalmente a
Constituição para convocar novas eleições, depois acatá-la e recolher
assinaturas para convocar o plebiscito revocatório nela previsto.
Quando o partido chavista obteve
do Judiciário o adiamento do processo, tentou a insurreição, mas o fracasso da
greve geral marcada para 28 de outubro mostrou à coligação opositora que não
tinha o apoio popular que imaginava e a obrigou a aceitar a proposta da Unasul
e do Vaticano e sentar-se à mesa para negociar.
Na Bolívia, Evo Morales perdeu,
em fevereiro, o referendo com o qual esperava viabilizar mais uma reeleição em
2019. Apesar disso, do escândalo em torno da ex-amante Gabriela Zapata, presa
por tráfico de influência e de protestos violentos que incluíram o linchamento
de um vice-ministro do Interior por uma turba de mineiros cooperativados,
continuou a ser o chefe de Estado mais popular da América Latina.
No fim de 2016, porém, seu
prestígio começou a ser abalado pela falta d’água causada pela combinação da
pior seca dos 25 anos com o desaparecimento de geleiras nas quais existiram as
maiores estações de esqui do mundo e de onde costumava descer água para
abastecer a capital.
As cidades de El Alto e La Paz
foram submetidas a um severo racionamento, após a perda de 90% das reservas
usadas para seu abastecimento. O Lago
Poopó, que foi o segundo maior do país (após o Titicaca), desapareceu
completamente.
Não há como isso não abalar a
popularidade do governo. Neste caso, e em outros, como a crise energética da
Venezuela em 2016, a imprevidência pode ter agravado o problema, mas a questão
de fundo é o aquecimento global, que elevou a temperatura média nos Andes em
0,7 grau desde os anos 1930.
Os bolivianos estão entre os
menos culpados pela emissão de gases de efeito estufa, assim como os camponeses
dos Andes peruanos e os sertanejos do Nordeste brasileiro, também sacrificados
pelo problema, mas a natureza fará os inocentes pagar pelos pecadores, ou ao
menos antes desses.
Rafael Correa, o bolivariano do
Equador, tem menos destaque, mas governa com razoável tranquilidade. O
ex-guerrilheiro sandinista Daniel Ortega, apesar de gestos autoritários, foi
reeleito presidente da Nicarágua com 72% dos votos e folgada maioria no
Congresso.
O projeto chinês de um canal
interoceânico dividiu opiniões e preocupa ecologistas, mas os eleitores parecem
otimistas com as perspectivas desse enorme investimento em tempos de vacas
magras no comércio internacional.
À parte a morte de seu irmão
Fidel, o presidente Raúl Castro teve um ano bem satisfatório. Barack Obama
visitou Havana, as relações diplomáticas com Washington foram restauradas e, o
que é mais importante, o anacrônico embargo imposto por John Kennedy começou a
ser relaxado, de forma a abrir o caminho a algum comércio e investimento e
muito turismo estadunidense em Cuba, o suficiente para trazer perspectivas
melhores para 2017. Se Trump não voltar atrás nesses progressos, como
discutimos adiante.
E, apesar do revés do referendo,
as Farc talvez ainda tenham razões para brindar, cautelosamente, ao ano-novo. A
campanha de Álvaro Uribe, com apoio de latifundiários e paramilitares receosos
de uma investigação séria de crimes contra a humanidade e apropriação de terras
de camponeses, conseguiu persuadir os eleitores colombianos a rejeitar a
primeira redação do acordo de paz com o governo do presidente Juan Manuel
Santos.
Entretanto, foi assinada uma nova
versão, com mais precisão nos detalhes, mas poucas mudanças substanciais além
do esvaziamento parcial da Jurisdição Especial da Paz, os tribunais especiais
de transição pelos quais a ultradireita e os latifundiários se sentiam
ameaçados.
Desta vez, Santos pretende
aprová-la no Congresso, onde tem maioria, em vez de arriscar outro plebiscito.
Se tudo der certo, a guerrilha entregará as armas para entrar na vida política,
com acesso garantido a cadeiras no Parlamento, fundo partidário, estações de
rádio e debate aberto sobre o papel dos militares e da ultradireita em
massacres e assassinatos políticos.
Quanto às direitas neoliberais,
que por vias legítimas ou não chegaram ao poder em 2016 ou 2015, deveriam ser
ainda mais cautelosas. Seu ciclo pode mostrar-se bem mais curto do que foi o
das esquerdas. Mauricio Macri, Michel Temer e suas equipes chegaram ao poder
com a expectativa de reativar os investimentos e a economia com sua mera presença,
mas na vida real as economias de seus países se deterioraram ainda mais com o
início de seus governos.
O caso argentino pode ser
considerado crítico. A inflação acelerou-se com a maxidesvalorização e os
tarifaços aplicados após a posse de Macri. Ao contrário do que esperavam os
otimistas, não foi um efeito temporário.
Segundo o insuspeito índice da
Cidade de Buenos Aires, a inflação nos últimos 12 meses do governo de Cristina
Kirchner (até novembro de 2015) ficou em 24%, mas a inflação nos 11 meses
seguintes foi de 42%. A inflação de outubro foi de 2,9% e o ano provavelmente
fechará em 46%.
As consultorias econômicas
estimam a queda do PIB de 1,8% a 2,4%. Combinada com as demissões em massa de
funcionários, a redução de poder aquisitivo aumentou a população abaixo do
limite de pobreza de algo entre 21% e 23% para mais de 33% até o fim do segundo
semestre.
Sequer se pode dizer que o
sacrifício ao menos serviu para recuperar a competitividade ou ajustar as
contas públicas. Após pagar 9,3 bilhões de dólares aos fundos abutres para
recuperar o acesso ao mercado financeiro, o governo ampliou a dívida externa em
53 bilhões, um aumento de 10% do PIB. Como nas crises de 1979, 1989 e 2001, o
Estado endivida-se para cobrir despesas correntes e só atrai capitais externos
para especulação de curto prazo.
Embora a balança comercial tenha
melhorado um pouco em relação a 2015, isso se deveu à queda drástica do consumo
e, consequentemente, das importações (cerca de 9% a menos), pois as exportações
caíram 2% nos primeiros nove meses. Os sindicatos, novamente unidos na oposição
ao governo, exigem um plano de emergência e o congelamento das demissões.
O presidente já viu serem
derrotadas várias das suas iniciativas, inclusive a reforma eleitoral e a
revogação dos contratos coletivos de trabalho e não pode esperar um Congresso
menos hostil. Dificilmente Macri conseguirá reverter a deterioração da economia
a tempo de influenciar a seu favor a eleição legislativa de outubro de 2017, ou
mesmo depois.
Sua aposta parece ser
desmoralizar a oposição com processos contra kirchneristas por corrupção, mas
essa é uma faca de dois gumes. Um dos processos, por exemplo, responsabiliza
Cristina Kirchner e sua equipe econômica por oferecer garantias contra a
desvalorização do peso que fizeram o Estado sofrer perdas.
Entretanto, a causa direta das
perdas foi a maxidesvalorização do início do governo Macri e foram seus
partidários que fizeram fortunas ao apostar no dólar.
E o quadro argentino, assim como
o de outros governos latino-americanos a colocar todas as suas fichas no
retorno a um mundo que não mais existe, o do neoliberalismo dos anos 1990,
tornou-se especialmente nebuloso com a vitória de Donald Trump em Washington.
A nação mais pesadamente afetada
será, obviamente, aquela que há mais tempo e de maneira mais continuada
investiu na parceria com o vizinho do Norte: o México.
Desde 1991, a economia mexicana
foi reestruturada para atender ao Tratado de Livre Comércio da América do Norte
(Nafta, pela sigla em inglês) e à demanda do vizinho do Norte. Vários setores,
inclusive grande parte de sua agricultura tradicional, foram varridos pela
concorrência dos produtos estadunidenses, o que foi um dos motivos da
deflagração da guerrilha zapatista em Chiapas.
Um vasto setor industrial de
“maquiladoras” foi criado na fronteira para aproveitar sua mão de obra barata
na montagem de automóveis e outros bens duráveis e no empacotamento de produtos
diversos destinados aos mercados estadunidense e canadense, à custa do
desmantelamento da legislação trabalhista e do movimento sindical.
As maquiladoras somam hoje 2,65
milhões de empregos, ou 5% da população economicamente ativa. Exportam 235
bilhões anuais, 59% do total nacional. As exportações respondem, por sua vez,
por 25% do PIB. Em 2015, o México exportou 309 bilhões aos EUA (75% de todas as
suas vendas externas) e importou 187 bilhões.
O que acontece se o Nafta for por
água abaixo? Em princípio, Trump pode dar aviso prévio de seis meses para se
retirar do tratado no primeiro dia de governo. Não parece provável uma medida
tão extrema e brusca, mas é certo que o acordo sofrerá, no mínimo, sérias
restrições e uma forte erosão.
Também correm o risco de se verem
pendurados na brocha outros que esperavam atrair capitais dos EUA e incrementar
exportações para esse país, a começar pelos parceiros de Barack Obama na
proposta do Tratado Transpacífico, que incluem Peru e Chile.
O quadro peruano não é comparável
com o argentino, mas não é tão brilhante quanto o esperado crescimento de 4,2%
no PIB de 2016 pode sugerir. O presidente Pedro Pablo Kuczynski enfrentou um
escândalo de corrupção nos primeiros cem dias de governo.
Seu médico pessoal, nomeado
assessor de saúde, foi gravado dizendo a um amigo que “você não faz ideia da
quantidade de grana que vamos ganhar”. Foi rápido em demiti-lo, mas enfrenta
uma maioria parlamentar fujimorista, sem nenhum escrúpulo em chantagear o governo
e se aproveitar do primeiro passo em falso para derrubá-lo.
Nada mais tolo do que dizer, como
Michel Temer, que a ruptura com o México e o Nafta pode abrir oportunidades
para o Brasil, ou para qualquer outro país latino-americano. A razão de ser da
promessa de campanha de Trump é criar empregos para estadunidenses, não para
brasileiros.
Além de cancelar a participação
nos EUA no Tratado Transpacífico, Trump fala de dissolver o Nafta e taxar
produtos de filiais de transnacionais de seu país no exterior. Quer forçá-las
tanto quanto possível a trazer fábricas e empregos de volta ao território
nacional.
Se depender de seu governo, os
EUA não só deixarão de importar produtos industriais da América Latina como
reduzirão seus investimentos, mesmo se isso abrir oportunidades para a China.
Os exportadores de commodities
com os quais os EUA não têm interesse em competir, como café ou cobre, são os
únicos a não precisar recear barreiras comerciais diretas, mas nem por isso
devem sair ganhando.
Ainda que alguns setores da
economia estadunidense possam ser beneficiados pelo protecionismo, a
expectativa de praticamente todos os economistas é de que a reviravolta
nacionalista reduza o comércio internacional e freie o crescimento econômico na
média mundial, o que é ruim também para os produtos primários.
O programa de Trump inclui
políticas semikeynesianas de reativação da economia baseadas em redução de
impostos para os privilegiados, gastos militares e investimentos em
infraestrutura. É possível que as medidas acelerem o crescimento do PIB dos EUA
a médio prazo e alimentem uma bolha especulativa, e é certo que o Fed reagirá
elevando o juro básico, ou de imediato ou assim que a inflação der sinal de
aceleração.
Isso reduzirá a disponibilidade
de dólares no mercado financeiro, deixará em dificuldades governos e empresas
que se endividaram durante o período de juro praticamente nulo e provavelmente
valorizará o dólar em relação às outras principais moedas, criando problemas de
competitividade para as nações latino-americanas cujas economias foram
dolarizadas.
Isso inclui não só aqueles mais
associados ao capitalismo estadunidense como também o bolivariano Equador.
O México é o maior, mas não o
único ameaçado pela promessa de Trump de expulsar imigrantes em situação
irregular. A metade do número estimado de 11 milhões provavelmente veio do
México, mas ao menos um quarto deles é de outros países latino-americanos.
Proporcionalmente à população, El
Salvador, Guatemala e Honduras têm mais cidadãos nos EUA do que o México, e os
números absolutos de Colômbia, Peru, Equador e Brasil também são consideráveis.
Além dos problemas sociais de
receber de volta milhares de imigrantes em um ano de crise, desemprego e
possível colapso das exportações para os EUA, pode pesar para esses países,
principalmente os menores, a perda das remessas enviadas pelos emigrantes para
suas famílias.
A Venezuela pode ter certeza da
má vontade de Trump. Em uma de suas raras referências à América Latina ao sul
do México, prometeu “estar com os oprimidos da Venezuela que quer ser livre e
pede ajuda”.
Entretanto, Maduro não esperava
melhor tratamento por parte de Hillary Clinton, responsável pelo golpe em
Honduras e talvez também no Paraguai. Do ponto de vista de Caracas, a vitória
republicana não chega a piorar suas perspectivas.
Em relação a Cuba, a posição de
Trump é menos extrema que a de muitos republicanos e não muito distante da
corrente principal do partido.
Não se disse contrário, em
princípio, ao diálogo, mas para ele Obama fez um “acordo ruim” e promete impor
mais condições para manter a abertura iniciada ao turismo e a alguns
investimentos.Pode não ser nada demais, mas, por via das dúvidas, Havana
organizou uma série de exercícios militares assim que se definiu o resultado da
eleição em Washington.
Tampouco se pode contar com
acordos comerciais com Bruxelas para amortecer as incertezas criadas por
Washington. Pelo contrário, pode-se recear do Velho Mundo novos sustos. Mesmo
que as eleições da França, da Alemanha e talvez também da Itália em 2017 não
tragam mais governos de direita populista, a desintegração da União Europeia e
a perspectiva de um colapso do comércio e das finanças internacionais pior que
o de 2008, a ascensão do nacionalismo conservador significa menos disposição
para aberturas a produtos do resto do mundo, inclusive importações agrícolas da
América Latina.
Mesmo em vias de desaceleração, a
economia chinesa é a última palha à qual as economias mais voltadas para o
mercado externo poderão se agarrar, principalmente aquelas que contavam com o
Tratado Transpacífico, concebido por Obama para tentar isolar a influência de
Pequim.
O efeito mais duradouro de um
governo Trump talvez venha a ser o fortalecimento da presença do dragão nessa
região que há três anos John Kerry, o vice de Obama, insistia em chamar
explicitamente de seu quintal ao falar ao Congresso.
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