No Ceará, torcida do Ferroviário rejeita dinheiro do clube e quer o fim do capitalismo
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01:47
O blog trás essa reportagem especial da ESPN sobre a história da torcida organiza Ultras Resistência Coral do time de futebol Ferroviário do Ceará que mostra que futebol e política podem ocupar o mesmo espaço. Veja abaixo:
Existe no Brasil uma torcida
organizada que prega a paz nos estádios. Seus integrantes se recusam a pedir
ingressos para dirigentes e entre eles é proibido ofender o adversário com
termos machistas ou homofóbicos.
Essa é a Ultras Resistência
Coral, torcida organizada do Ferroviário, time que é a terceira força da cidade
de Fortaleza. Além do amor ao ‘Ferrão', os membros da Resistência Coral têm em
comum a afinidade ideológica: todos são críticos ao sistema capitalista.
"Surpreendente, os cartolas
gostam da nossa torcida. Apesar de estarmos contra o capitalismo e de alguns
dos dirigentes serem empresários etc, eles compram nossas camisas pra ajudar,
falam, ‘cara, a torcida de vocês deveria ser maior, é muito massa!", conta
Leonardo Carneiro, sociólogo, professor da rede pública e apaixonado pelo
Ferroviário.
Leonardo e boa parte dos outros
19 sócios da Resistência Coral já eram torcedores do clube antes de se tornarem
militantes de esquerda. Com o passar do tempo, eles descobriram que a paixão
pela equipe de futebol e a crença política tinham a mesma origem.
Diferentemente de Ceará e Fortaleza, clubes de maior expressão do estado, o
Ferroviário tem raízes operárias e foi fundado por funcionários da antiga Rede
de Viação Cearense - RVC.
"Surgimos em 2005. Antes,
estávamos juntos das organizadas, nos dávamos bem com elas, mas aos poucos
fomos vendo cada vez mais cantos machistas, homofóbicos, incitação à violência
gratuita. Queríamos formar uma torcida organizada que tivesse uma ideologia
compatível à história do nosso time. É uma forma, inclusive, de retomar a
tradição, a gente não inventou nada, foi a retomada da tradição da origem de
classe do Ferroviário, que foi sendo esquecida com o fim da parceria com a
RFFSA - Rede Ferroviária Federal", explica o estudante Pedro Mansueto, um
dos fundadores do grupo.
"Do nosso conhecimento, a
primeira torcida com esse viés que surgiu no Brasil foi a nossa. Depois, vieram
outras que temos conhecimentos, existem iniciativas com Atlético-MG, Bahia,
Palmeiras, Flamengo, São Paulo. Na Europa, futebol e política estão juntos há
muito tempo. Se nós que pertencemos a um clube que está mal das pernas e não
tem torcida tão numerosa conseguimos causar certa repercussão, fico pensando
como seria se um Flamengo ou um Corinthians criasse uma torcida como essa e
ganhasse corpo, o efeito que isso causaria", imagina Carneiro.
Terrorismo?
A relação com as velhas
organizadas, como a Falange Coral, é amistosa e todos costumam apoiar o time
juntos na arquibancada. Quando uma música de cunho preconceituoso é cantado,
porém, parte dos torcedores se cala.
Apesar de seguir o caminho oposto
ao da violência entre organizadas, a Resistência Coral ainda assim enfrenta
repressão por parte das forças policiais. Uma faixa com a frase ‘Nem guerra
entre torcidas, nem paz entre classes' está proibida de entrar nos estádios
cearenses.
"Diziam que a gente queria
incitar a violência, não entendiam o conceito de luta de classes. Outras faixas
que continham símbolos anarquistas ou a foice e o martelo eram proibidas, sobre
faixas em apoio à resistência palestina, diziam que era terrorismo", diz
Mansueto.
Eles tampouco estão livres da
hostilidade dos rivais. Leonardo Carneiro se lembra do dia em que torcedores do
Fortaleza tentaram roubar uma faixa. "Não dava pra partir pra cima porque
estávamos em desvantagem numérica, mas salvamos a faixa. É tão difícil fazer um
material desse, nossos fundos são tão escassos..."
Anti-Fifa
Sem auxílio dos cartolas, a
Resistência Coral sobrevive da venda de material próprio e do auxílio dos
sócios. Suas mensagens estão não só nos jogos, mas também em manifestações
populares, inclusive contra a Fifa e a Copa do Mundo atualmente realizada no
Brasil.
"Aqui há anarquistas,
comunistas, cada um tem um pensamento diferente. Mas somos contra a Copa pela
origem do nosso time, pelo que a gente defende, pelo conjunto do que esse
evento trouxe de corrupção, desvio de dinheiro, superfaturamento,
desapropriações", explica o recepcionista Francisco de Oliveira.
Leonardo Carneiro completa.
"Estão querendo impor um padrão Fifa de torcedor. No Castelão, tiraram
qualquer possiblidade de colocar faixa, tiraram as muretas, as grades, por mais
que alguém queira colocar uma pequena bandeira, a policia diz que não. Não tem
espaço para estar de pé, pulando. É a ideia do futebol moderno, higienizado. O
preço dos ingressos e do que tem para ser consumido nos estádios impede o
trabalhador de acompanhar seu time. A Copa do Mundo acentua esse
processo."
"Amamos o futebol, mas
odiamos essa forma como estão querendo impor o futebol a povos do mundo. Agora
é a vez do Brasil. A Fifa pra gente representa um grande mal, é uma organização
que está mais preocupada em obter ganhos financeiros do que permitir que esse
esporte continue sendo acessível à maioria das pessoas."
Renascendo das cinzas
Do lado de uma equipe em momento
tão ruim, a origem política acaba sendo o principal chamariz da Resistência
Coral. Nove vezes campeão cearense, responsável pela revelação de jogadores
como o goleiro Clemer, os volantes Nasa e Lima e os atacantes Mirandinha,
Jardel e Iarley, o Ferroviário foi rebaixado neste ano pela primeira vez em sua
história para a Série B do Estadual.
Sua torcida, que segundo os fãs
do ‘Ferrão' um dia rivalizou com a do Fortaleza pelo posto de segunda maior do
Ceará, hoje, já é bem menor.
"São 15 anos sem ser
campeão, mas apesar disso, o Ferroviário ainda tem muitos torcedores,
fervorosos, ferrenhos", alega Carneiro em entrevista com o ESPN.com.br no
Benfica, bairro estudantil de Fortaleza, durante a qual foi interrompido por Ailton
Lopes, candidato ao governo do estado pelo PSOL e torcedor do Ferroviário e por
João Sávio, engraxate na Praça da Gentilândia e também apaixonado pelo ‘Tubarão
da Barra.'
"A crise começou a se
aprofundar depois da privatização da RFFSA, no governo Itamar Franco, o que
provocou uma crise financeira em vários times ferroviários do Brasil. Parte da
renda dessas equipes vinha dos trabalhadores, descontado em folha. Quando
privatizou, o Ferroviário perdeu esse recurso. É um momento de dificuldade. O
clube está tentando sobreviver de cotas de TV, parceria com o Castelão pra
conseguir renda, patrocínio é cada vez mais difícil, acabamos não sendo uma boa
marca na visão das empresas. Diretorias que passaram acabaram desmanchando as
categorias de base, e infelizmente o pesadelo do rebaixamento aconteceu",
diz Carneiro.
"O viés de esquerda acaba
atraindo muitos torcedores jovens, muito militante que faz parte do movimento
estudantil e não torce pra time nenhum diz, ‘vou torcer pro Ferroviário então,
já que é um time diferente'. Dizem que na torcida do Ferroviário só tem idosos,
mas não é verdade. Vivemos um momento bastante difícil na história do clube,
mas temos confiança de que vamos dar a volta por cima."
