Reatamento abre porta para 'turismo médico' de americanos em Cuba
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23:46
Anuja Agrawal correu para o telefone. O presidente Barack
Obama havia acabado de anunciar que restauraria as relações diplomáticas com
Cuba – e Agrawal, que administra uma empresa de turismo médico em Orlando,
Flórida, não queria perder a oportunidade.
Ela ligou para um administrador de serviços médicos em Cuba
e concordou em ir adiante com um acordo que eles vinham discutindo havia meses
na esperança de que pacientes norte-americanos pudessem logo começar a viajar
para a ilha para fazer tratamento médico.
"Havia muito entusiasmo em relação a isso", disse
Agrawal, diretora-executivo da Health Flights Solutions, acrescentando que se
os norte-americanos começarem a viajar para Cuba em busca de tratamentos
médicos a preços acessíveis, isso pode significar um grande impulso econômico
para o sistema de saúde do país. "Para eles, estão vendo isso literalmente
como ganhar na loteria."
À medida que o governo Obama reduz o isolamento econômico de
Cuba, setores de vários tipos estão tentando descobrir o que o relaxamento das
tensões significará para eles e exatamente quanta liberdade haverá.
Milhares de pessoas de outros países vão para Cuba a cada
ano para o que é conhecido como turismo médico: viagens ao exterior para fazer
cirurgias ou outros cuidados médicos, normalmente porque o tratamento lá é mais
barato ou não está disponível onde os pacientes moram.
Agora, o governo Obama afrouxou as restrições de viagem para
Cuba. Os norte-americanos podem viajar para o país por uma série de motivos,
entre eles visitas familiares, conferências acadêmicas, apresentações públicas
e atividades religiosas e educativas.
Embora o turismo ou as viagens para tratar da saúde ainda
não sejam permitidos, o governo suspendeu uma restrição que exigia que muitos
norte-americanos viajassem com grupos autorizados ou conseguissem uma licença
prévia para visitar a ilha.
"É um relaxamento, um afrouxamento das
restrições", disse Agrawal, acrescentando: "acho que ficará cada vez
mais livre", uma vez que a porta estiver aberta.
Na prática, as mudanças podem significar que muito mais
pessoas se sentirão livres para viajar para Cuba, mesmo para propósitos que
estejam fora das categorias permitidas. Milhares de norte-americanos já viajam
para Cuba para fazer turismo ou por outros motivos que estão fora das normas, e
mesmo antes das mudanças, muitos cubano-americanos que visitavam a família
aproveitavam a oportunidade para marcar tratamentos médicos, dizem muitas
pessoas aqui.
Uma porta-voz do Departamento do Tesouro disse que os norte-americanos
que desejam viajar para Cuba por motivos que estejam fora das atividades
autorizadas podem pedir permissão, conhecida como licença especial, e que esses
pedidos serão avaliados caso a caso.
Mas a porta-voz, que disse não ter autorização para falar
oficialmente, disse que os norte-americanos que viajam para Cuba são obrigados
a manter registros de sua viagem por cinco anos e podem estar sujeitos a
auditorias para mostrar que a viagem ficou dentro das normas.
Jonathan Edelheit, diretor executivo da Associação Médica de
Turismo, com sede na Flórida, disse que alguns hospitais nos Estados Unidos
tinham expressado interesse em formar parcerias com instituições médicas
cubanas, que poderiam incluir o treinamento de médicos cubanos.
Essas parcerias em outros países costumam andar de mãos
dadas com o turismo médico, e este poderia eventualmente ser o caso em Cuba,
disse ele.
"Teremos uma quantidade tremenda de movimento, quer
seja de agentes de viagem ou de facilitadores de turismo médico, então quando
isso se normalizar eles podem começar a enviar pacientes para cá", disse
Edelheit.
Cuba tornou o cuidado com a saúde uma prioridade depois da
revolução de 1959, e conquistou a reputação de fornecer cuidados médicos
gratuitos e de boa qualidade para seu povo. Milhares de médicos cubanos também
trabalham no exterior, na Venezuela, no Brasil e em outros países em
desenvolvimento, em uma troca que fornece ao governo do presidente Raúl Castro
moeda ou bens, como petróleo, em contrapartida.
Edelheit disse que o sistema de saúde cubano provavelmente
terá apelo para alguns norte-americanos porque a ilha é muito próxima, cerca de
uma hora de avião de Miami até Havana.
Mas por enquanto, os destinos mais populares para os
norte-americanos viajarem para o exterior para cuidar da saúde são o Canadá, a
Inglaterra, Israel, Cingapura e Costa Rica, de acordo com um estudo pela
Associação de Turismo Médico. Ela descobriu que alguns dos procedimentos mais
comuns incluem cirurgia plástica, de coluna e para perda de peso e tratamento
para o câncer.
Diferentemente dos norte-americanos, os canadenses não têm
restrições de viagem, e Cuba é um destino popular de viagem; muitos canadenses
também viajam para lá para tratar da saúde.
David McBain, 47, um paisagista de Toronto que fraturou a
coluna em um acidente de carro, foi para Cuba três vezes no ano passado para
uma terapia física extensiva.
"Os fisioterapeutas e os médicos têm muito conhecimento
e são bem treinados em Cuba, e você simplesmente não pode competir com o preço
deles", disse McBain. "O preço é uma fração do que seria no Canadá ou
nos EUA para um terapeuta."
McBain, que está parcialmente paralisado e usa uma cadeira
de rodas, disse que foi tratado por várias semanas durante cada visita a uma
instituição de saúde de Havana. Ele disse que o tratamento em Cuba custa cerca
de US$ 200 (R$ 572) por dia, o que inclui cerca de seis horas de fisioterapia
diariamente, um quarto confortável e alimentação.
O sistema nacional do Canadá não fornece o tipo de terapia
de que ele precisa, disse ele, e um fisioterapeuta neurológico particular teria
cobrado cerca de US$ 93 (R$ 266) por hora.
McBain acertou seu tratamento em Cuba através de uma empresa
em Toronto chamada Global HealthQuest. Ben Soave e Rosemary Toscani, que
administram a empresa, disseeram que ela regularmente envia pacientes para Cuba
para fisioterapia, reabilitação de uso de drogas e álcool, e para tratamento de
uma doença ocular chamada retinite pigmentosa.
A cirurgia de olhos e tratamentos relacionados, pioneiras na
clínica cubana, não estão disponíveis no Canadá ou nos Estados Unidos, e já
causaram controvérsias. Estudos independentes levantaram questões sobre a
eficácia dos tratamentos, e os médicos da clínica foram criticados por não
publicar os resultados de estudos em revistas médicas revisadas por pares.
"Se você não apresenta os seus resultados e
publicações, então algo está errado", diz o médico Byron L. Lam,
especialista na doença no Bascom Palmer Eye Institute em Miami.
Soave disse que os pacientes fizeram boas avaliações dos
cuidados que receberam em Cuba, embora às vezes reclamem de outros aspectos.
"Há outras coisas que não são tão boas, como a comida,
as acomodações, a falta de algumas das coisas que nós consideramos serviços
básicos, como internet, telefones, esse tipo de coisa", disse ele.
"Em termos de tratamento médico, foi excelente."
Ele também disse que os pacientes com os quais ele trabalhou
não tinham buscado tratamento em Cuba por ter alguma simpatia política com o
governo socialista da ilha.
"As pessoas perguntam: 'para onde podemos ir para
conseguir o melhor tratamento?'", disse Soave. "Elas estão pensando
em saúde, não em política."
FONTE: Portal UOL
Categorias:
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