Governo macunaímico
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21:54
Por Ricardo Antunes*
Nossos governos têm traços muito
singulares, e o atual é emblemático. Foi eleito dizendo que recusava cortes nos
direitos do trabalho, que não se subordinaria aos imperativos do mundo
financeiro e que seria "desenvolvimentista" e antineoliberal. Ganhou
no tranco, com o voto decisivo e desconfiado dos críticos que temiam algo ainda
pior.
Teve uma oposição conservadora
que quase lhe levou o butim e que agora busca os caminhos para o impeachment;
outra à esquerda, com mais de um milhão e meio de votos no primeiro turno e,
apesar do acirramento eleitoral, ainda com um expressivo índice de abstenções,
votos brancos e nulos.
Levou no segundo turno, mas logo
começou o terceiro. Para a economia, pensou na variante Luiz Carlos Trabuco,
presidente do Bradesco. Como não deu certo, ficou, então, com Joaquim Levy, que
desenha a "engenharia lucrativa" em bancos e diz que o
seguro-desemprego é "completamente ultrapassado".
Em plena campanha, Dilma Rousseff
disse que não cortaria direitos do trabalho "nem que a vaca tussa". A
vaca nem espirrou e começou a devastação. Pergunta simples e direta: por que
cortar conquistas contempladas pelo seguro-desemprego e pelo abono salarial, e
não aumentar a taxação dos bancos e das grandes fortunas?
Ao contrário, o governo aumentou
ainda mais os juros e nomeou uma ministra da Agricultura escolhida a dedo no
paiol do agronegócio. Entre o macunaímico e o pícaro, mas sem os atributos de
seu criador, o governo Dilma simplesmente diz o que não faz e faz o que não
fala. Assim, desmorona a cada dia.
Tornou-se, então, ainda mais
extemporâneo o debate entre "neodesenvolvimentismo" e neoliberalismo.
O que o governo chama de "neodesenvolvimentismo" estampa uma política
econômica que mantém juros altíssimos e reduz impostos, como o do setor automobilístico.
Preservou e ampliou as
privatizações, incentivou o agronegócio e, na outra ponta, ampliou o consumo
dos assalariados enquanto o cenário foi favorável, mas o mito desmoronou e o
projeto entrou em colapso.
O exemplo é cabal: os cortes de
Dilma e Levy afetam mais pesadamente os assalariados e, ironia da história, a
educação pública, em um governo cujo slogan natimorto é "Brasil, Pátria
Educadora"! O descontentamento, então, ampliou-se, atingindo diferenciados
e opostos grupamentos e classes sociais.
A rebelião dos professores contra
múltiplos governos e seus "ajustes fiscais", as greves na metalurgia
e em outros setores, as demissões e revoltas dos petroleiros terceirizados
–penalizados por uma corrupção da qual não são responsáveis– e, ainda, a ação
de caminhoneiros (apesar de heterogêneos) demonstram que a paciência também
está se exaurindo nos setores populares.
Se já havia uma irritação das
camadas médias e várias frações dominantes que votaram em Aécio Neves e que não
se conformaram com a derrota, esse cenário vem se ampliando exponencialmente.
É dentro deste quadro turbulento
que setores conservadores procuram politizar as rebeliões iniciadas em junho de
2013, canalizando em direção ao pedido de impeachment de Dilma. E como vão
atuar as periferias, as classes trabalhadoras, neste atoleiro em que se
embrenhou o nosso governo macunaímico?
*RICARDO ANTUNES, 62, é professor
titular de sociologia da Unicamp. É autor de "Riqueza e Miséria do
Trabalho no Brasil III" (Boitempo) e de "The Meanings of Work"
(os sentidos do trabalho), publicado na Índia pela editora Aakar Books.
