Carta aberta a Reitoria da UFRN: contra a criminalização das lutas
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21:51
Por João Vitor Curió e Modesto
Neto*
“Quem nega a agitação,
nega as leis da natureza, a dialética, a ciência, a justiça, a verdade, a si
próprio. O crime não está em agitar, mas em permanecer imóvel” – [Francisco
Julião].
Toda comunidade acadêmica que faz
a UFRN no seu cotidiano precisa saber que através da Portaria nº 496/15-R, de
19 de março de 2015, do Gabinete da Reitoria da UFRN, instituiu-se uma Comissão
de Processo Administrativo Disciplinar com o intuito claro de intimar e
intimidar estudantes, julgar atos políticos e condenar a liberdade de
contestação que se faz aos aspectos excludentes do projeto de universidade que
vivemos. Neste final do semestre as
oitivas da comissão continuam sendo realizadas, embora a ausência de agitação e
o silêncio do DCE não coloquem a questão em evidência.
Os estudantes que estão sendo
ouvidos pela Comissão de Inquisição da Reitoria estão respondendo pela invasão
e breve ocupação do Restaurante Universitário (RU). Nestes termos é importante
pontilhar que além das grandes filas, do tempo gasto e da duvidosa qualidade da
comida, temos um RU que é um dos mais caros do Brasil. Assim, indagamos: como
não contestar as catracas prisionais que separam o estudante pobre de sua
refeição?
O número de estudantes que
necessitam permanecer durante dois turnos na universidade e não podem pagar R$3
por um almoço é altíssimo, mas a política de Assistência Estudantil, além de
insuficiente, fracassa em absoluto por não assegurar a permanência dos
estudantes de camadas populares na universidade, que ao todo soma um contingente
de mais de 37 mil estudantes. Quantos desses podem pagar suas refeições?
Acreditamos que em uma sociedade profundamente desigual, não tantos. Contestar
essa dinâmica excludente é antes de tuto uma obrigação para aqueles que
defendem uma universidade pública, gratuita, aberta, popular e emancipadora.
A história da universidade é
também a história do movimento estudantil e suas ocupações, que não são uma
novidade. Na Universidade Nacional de Córdoba na Argentina, houve a primeira
ocupação da América Latina em 1918, abrindo um paradigma da universidade
pública, laica e democrática, co-gerida por estudantes e professores. Neste
período de crise do capitalismo e cortes do Governo, as ocupações se repetirão
junto com as greves que já foram deflagradas e florescerão.
A ocupação é um meio político
autêntico, legal e audaz, que interpela as autoridades universitárias e
governamentais, evidenciando uma pauta que de outro modo permaneceria na
penumbra. Neste sentido, defendemos as ocupações como instrumentos legais e
acertados, ainda mais quando as lutas empreendidas são justas. A marcha
histórica de lutas e contestações às injustiças não se dobrarão frente governos
e instituições.
A politica policialesca da
Reitoria criminaliza o movimento estudantil e poda a liberdade de contestação
no interior da universidade que deveria ser, a rigor, o lugar do livre pensar.
A Comissão de Inquisição formada por três professores não tem sequer um
estudante ou técnico-administrativo e desconhece completamente a realidade do
estudante que vivência a UFRN, com todos seus problemas, em seu cotidiano. Nos solidarizamos com todos os estudantes que
estão respondendo processo disciplinar ao tempo que repudiamos essa política de
inquisição da Reitoria, solicitando a extinção da Comissão com a revogação da
Portaria nº 496/15-R. Nas trincheiras desse embate esperamos que o DCE se
posicione com clareza e independência em defesa daqueles que diz representar.
Por fim não podemos perder de
vista que a crise econômica e o atual momento político nos tomaram R$16 bilhões
da educação. Apenas através de ampla mobilização popular iremos coletivamente
reverter os retrocessos que acenam no horizonte. Hoje e amanhã lutaremos por um
RU gratuito porque sabemos que é possível alcançar essa vitória tendo em vistas
que em algumas universidades, como na UFCG, isso já é uma realidade. Enfim,
frente a tantos ataques aos trabalhadores e a juventude temos a convicção
inabalável que permanecer imóvel é um crime que a juventude não pode cometer.
*João Vitor Cúrio e Modesto Neto
são estudantes da Ciências Sociais na UFRN, militantes da Nova Práxis e da
Assembleia Nacional dos Estudantes Livres (ANEL).
