Vamos tirar uma selfie!
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Unknown
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00:58
Por Leonardo Bezerra*
Certa vez, ao abrir meu
Facebook, me deparei com a informação que: meu perfil estava incompleto,
faltando informação. Então, num lapso de preocupação, fui verificar quais
informações estavam faltando, afinal pensei que talvez me cobrassem algo como
profissão; cinema; músicas, algumas coisas que considero fundamentais e/ou
significativos para entender uma pessoa, refleti sobre esses fatos porque meu
perfil carece de informações como cidades onde morei, relacionamentos, citações
favoritas, entre outros pontos. Mas não, estes não eram os dados solicitados
para atualização de perfil, o que foi pedido, já de primeiro momento, era a
atualização de minha foto de capa, pois a minha foto atual estava
desatualizada, não compreendia a função de capa da rede social, no caso o Facebook.
Considero que a foto é
um instrumento importante para o conhecimento de outros sobre você, é fato,
porém no meu perfil havia uma foto, mais ainda, sempre posto fotos na minha
linha do tempo, claro, com devida regularidade (não por obrigação, mas pelo meu
ritmo e nível de exposição na rede). Enfim, não me interessa fazer crítica à
rede, ou ao uso da foto, mas sim ao fato de que existia uma carência de
informações pertinente (como já disse anteriormente), mas mesmo assim, a
mensagem-sugestão era que eu atualizasse a capa, pois ela diz muito sobre mim.
Minha questão é: à que
ponto chegamos ou chegaremos numa sociedade em que a atualização de uma foto de
capa (que a meu ver diz muito da identidade das pessoas neste período entre
redes, além de ser facilmente mutável, como por exemplo, um clique em menos de
1 ano de exposição da imagem-desatualizada) pode definir seu perfil, ou
contribuir mais significativamente no entendimento sobre você, claro, feito por
outros?
Considerando esse nível
de exposição, podemos dizer que ele é um absurdo! Priorizar a dinâmica de fotos
na rede, invés de priorizar uma melhor exposição dos perfis (fotos e dados) na
rede social, é no mínimo construir uma nova forma de relação humana, mais
desumana, isto é, uma sociedade superficial e cheia de artifícios para
transformar ideologias e reformular valores. Estas palavras não são uma
manifestação contra a mudança de valores, mas sim, uma reflexão sobre: para
onde nos levam esses novos valores: como amizade, amor, relacionamento?
Cada vez mais entramos
em uma dinâmica consumista e individual. Não se conhece alguém pelo que esse
alguém diz sobre si ou o que você percebe sobre outro. Sabe-se quem é o outro
através do que ele/ela veste, do que ele/ela bebe, onde ele/ela está. Descartaram-se,
nesta sociedade do Facebook, noções de cordialidade e reflexão sobre o além-eu,
agora é o que o outro representa ser é ou será. E como o critério de redes é
coletivo, no mesmo instante em que é individual, ora! O coletivo social dispõe
de sua foto, mas o comentário é livre na foto ou fora da foto (na linha do
tempo do analista e do analisado), o coletivo tem dimensão de exposição, mas
não de analise de significado, desta forma, expor uma foto, é abrir precedente
para alguém ver, e comentar em outro perfil, pois existe esta opção. Eis a
brecha deixada pela era digital, esse individualismo bárbaro, o de condicionar ‘minha’
imagem para outro criticá-la onde achar conveniente.
Outro ponto, não menos
importante, é do consumismo, pois, numa sociedade onde ler não é habito comum,
de fato, não será conveniente leituras sobre algo, é preferível à rede social
(num sentido mercadológico) se envolver com o fator lucrativo do que buscar
desenvolver uma construção social diferenciada. Outro fator do consumismo é:
pouca leitura de textos (escritos), rápida leitura de fotografias. Para
entender um texto se faz necessário uma leitura mais demorada (no caso de uma
leitura crítico-reflexiva), e, muitas vezes, alguns detalhes importantes ao
mercado ficam de fora, não é a cor do céu que preocupa o mercado, mas a marca
da roupa, ou do carro, ou mesmo a entrada do aeroporto. Essas informações
contam muito ao mercado, um emblema que seja, conta em bastante na propaganda,
que a rede virtual consegue realizar com brilhantismo, mas num texto escrito,
isso nem sempre aparece, a imagem possibilita através dessa constante
alteração, no caso do Facebook, que não sobre tempo para uma analise semiótica,
mesmo aquela superficial.
Ainda sobre essas
situações, é muito melhor para o mercado e seu marketing o uso prioritário da
imagem, pois nela aparecem todos os detalhes até os indesejados, desde a marca
da roupa até uma careta ou um alguém figurante, estes detalhes indesejados caem
outra vez no individualismo e consumismo: a marca da roupa sugere ao consumo da
roupa; a careta ou um figurante, constituem o elemento de humor, pois os
indivíduos humoristas das redes (sem menor respeito ao outro) se imaginam no
direito de chacotear o momento ou a pessoa. No primeiro caso, o caminho da loja
fornecesse a saída, o mapa de “como chegar” está indicado no canto da página ou
na janela ao lado, no segundo caso, o número de curtidas eleva a autoestima de
um criminoso.
Aonde chegaremos?
Enfim, esta pergunta não tem resposta. Onde estamos? Esta pergunta tem respostas
mil, uma delas: chegamos ao século XXI, um tempo e espaço onde se bate uma foto
invés de criar um poema ou dizer: eu estou aqui.
*LEONARDO BEZERRA DE SOUZA, 25, é jornalista, poeta e militante político.
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