Das pedras do paraíso aos anjos caídos: o que mudou?
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23:52
Por Diogenes Fagner*
Hoje Santa Cruz amanheceu
alvoroçada com o helicóptero da PM sobrevoando a cidade. Fora nomeada Anjos
Caídos a operação da Polícia Civil que efetuou as prisões de cerca de 30
pessoas ligadas ao tráfico de drogas em Santa Cruz e Tangará.
Na coletiva de imprensa esta
manhã no Teatro Candinha Bezerra, o delegado da Polícia Civil afirmou que, após
a prisão da quadrilha de traficantes, espera-se uma redução intensa dos crimes
de homicídios e assaltos nos próximos meses. Nas ruas e nas redes não se fala
noutra coisa.
No geral, a opinião comum é a de
que operações dessa natureza são necessárias; os policiais desempenharam um
ótimo trabalho e o envolvimento com o tráfico é um problema da moral individual
daqueles que enveredam por este caminho. A produção, comércio e consumo de
drogas, portanto, devem ser reprimidos agora e sempre, com todo rigor.
Às drogas, conclui a opinião
comum, está estreitamente ligado o aumento do número de homicídios e assaltos
na cidade nos últimos anos. O argumento parece não apresentar brechas e
contrapor-se a verdade tão evidente resulta quase sempre em debates inflamados,
quando não raras vezes em agressões diretas. Todavia, o debate sério e honesto
precisa ser enfrentado. Pra tanto, o contraditório precisa ser levado em conta.
Eu estou do lado de uma minoria
que acredita que operações como a que aconteceu hoje em Santa Cruz não tem o
poder de realizar aquilo que prometem. Não diminuirão o consumo de maconha,
crack e cocaína. Não diminuirão as taxas de homicídios. Não trarão mais segurança,
justiça nem paz para estas terras. Parece loucura? Irresponsabilidade?
Permitam-me o benefício da boa
fé. Não comemoro a morte violenta de ninguém. Mesmo daqueles ditos
“criminosos”. Dos meus tempos de igreja católica, ficou—me esta sensibilidade
da sacralidade da vida humana. Eu quero , como todo mundo, segurança pra poder
tocar a vida e seguir em frente. Mas estou convencido de que a política de
drogas brasileira constitui um erro que produziu e segue produzindo violência e
centenas de milhares de mortes. Sou sim favorável à mudança radical dessa
política. Primeiro a regulamentação da produção, comércio e consumo da maconha
que é de longe a droga mais consumida no mundo. Depois desta experiência,
poderíamos ou não arriscar políticas mais ousadas.
Em Santa Cruz, nos últimos anos,
assistimos a um aumento brutal na taxa de homicídios. Até 2009, o número de
homicídios não passava de sete ao ano. Em 2013, logo após a operação Pedras do
Paraíso, semelhante à acontecida hoje, a cidade santuário bateu a marca de
inéditos 26 homicídios. Meça-se o impacto desta mudança tão gritante no
cotidiano de uma cidade que há pouco tempo gozava da relativa tranquilidade das
pequenas cidades interioranas.
As mortes tem relação com as
drogas? Tem sim, mas não a relação que a opinião comum estabelece. Não se morre
por consumir drogas. Morre-se na guerra do tráfico. E quem morre? São os filhos
da classe média santa-cruzense? Não. Mas não é de conhecimento comum que o
consumo de cocaína pelas camadas médias da cidade é intenso e cada vez maior?
Por que não são eles, os ricos e de classe média, que morrem?
A máxima popular de que a corda
arrebenta sempre do lado mais fraco faz todo sentido aqui. Do lado mais fraco
estão homens jovens, em geral na casa dos 20 anos, sem escolaridade básica,
moradores de bairros periféricos. O que estes dados significam? Significam que
os jovens recrutados para o varejo da droga quase sempre estão em situação de
pobreza e privação de direitos. São estes indivíduos as principais vítimas de
homicídios dos últimos anos. São estes indivíduos também os que em sua maioria
são presos por tráfico, por que a lei de drogas atual deixa a cargo da PM a
decisão de quem é traficante e quem não é. Neste filtro racista, passam os bem
nascidos do centro da cidade que vão tratar-se em caras clínicas de
reabilitação na capital e fora do estado.
Juntemos tudo isso num mesmo
balaio e percebamos que enquanto perdurar a proibição das drogas, o tráfico
seguirá forte, rendendo bilhões, e se reinventando sempre mais inteligente que
as forças de segurança, recrutando homens jovens, pobres, das periferias de
santa-cruz e do mundo.
Das Pedras do Paraíso aos Anjos
Caídos, o que mudou?
*Diogenes Fagner é cientista
social e dirigente do PSOL em Santa Cruz/RN.
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