Assassinatos de indígenas disparam no Brasil, comprova relatório do Cimi
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Agência Senado
O relatório 'Violência contra os
Povos Indígenas do Brasil', referente a 2014, aponta um aumento dos casos de
violência e violações contra integrantes das comunidades indígenas. No período,
138 índios foram assassinados, contra 97 casos no ano anterior. Um dos dados
mais alarmantes é o número de suicídios, que chegou a 135, ante 73 ocorrências
em 2013.
Produzido pelo Conselho
Indigenista Missionário (Cimi), organismo vinculado à Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB), o relatório foi debatido em audiência pública nesta
quarta-feira (5), na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa
(CDH). A antropóloga Lúcia Helena Rangel salientou que o relatório ainda é uma
expressão parcial da realidade, pois o Cimi não consegue captar todas as ocorrências
em todo o País.
"Mesmo assim, os registros
são assustadores", comentou a antropóloga, coordenadora da pesquisa.
O debate foi proposto pelo
senador Telmário Mota (PDT-RR), que se revezou na direção dos trabalhos da
audiência com o presidente da comissão, Paulo Paim (PT-RS). Na avaliação dos
convidados, os fatores de estímulo à violência são antigos e decorrem
fundamentalmente da negação do direito à terra, da disputa em torno de áreas
indígenas e conflitos possessórios.
"O que vemos é o não reconhecimento,
por parte do Estado, às comunidades indígenas, que permanecem tendo seus
direitos negados", observou Lúcia Rangel.
Mesmo no caso dos suicídios, o
entendimento é de que em grande medida as ocorrências estão relacionadas à
falta de perspectivas para indivíduos que precisam da terra para viver e
trabalhar, em harmonia com suas culturas. Os 135 casos de 2014 configuram o
maior número em 29 anos, com predomínio de ocorrências no Mato Grosso do Sul
(48), notadamente entre índios Guarani-kaiowá.
A mortalidade na infância foi
ainda apontada como indicador de situação de violação de direitos: o relatório
registra 785 mortes de crianças indígenas, na faixa de 0 a 5 anos, contra 693
no ano anterior. A situação mais grave se situa entre os índios Xavantes, no
Mato Grosso, com a taxa de mortalidade chegando a impressionantes 141,64 mortes
por mil crianças. Já média nacional registrada pelo IBGE, em 2013, foi de 17
por mil.
Segundo o relatório, em 2014 mais
do que dobraram os registros de invasões possessórias, exploração ilegal de
terras indígenas e outros danos ao patrimônio. Enquanto em 2013 foram 36
ocorrências, em 2014 aconteceram 84 casos.
Funai
O ex-senador João Pedro Gonçalves
da Costa (PT), que assumiu em junho passado o comando da Fundação Nacional do
Índio (Funai), destacou a importância da audiência diante da “dívida histórica”
que o País tem com os povos indígenas. Reconheceu que é essencial avançar na
questão das terras indígenas. "Não pode haver índio sem terra; os povos
indígenas não podem viver sem história do lugar ponde pisaram seus
ancestrais", defendeu.
João Pedro anunciou a intenção de
percorrer de imediato as aldeias de todo o País, começando pelo Mato Grosso,
lugar de conflitos possessórios mais graves. Também salientou o papel do
Congresso e do Judiciário, além de Estados e prefeituras, na solução dos
problemas. Depois, apelou aos senadores por apoio para reforçar o orçamento da
Funai, por meio de emendas parlamentares.
Entre os senadores, as
manifestações foram de solidariedade às demandas dos povos indígenas. Para a
senadora Simone Tebet (PMDB-MT), existe a perspectiva de solução para os
conflitos sobre terras. Mostrou otimismo com a aprovação de proposta de emenda
constitucional (PEC 71/2011) que prevê pagamento de indenizações a produtores
que estejam em posse “mansa e pacífica” das terras, o que agilizará a devolução
das áreas aos índios.
"Estratégia de ataque"
O secretário-executivo do Cimi,
Kleber Cesar Buzato, denunciou o que definiu como a “estratégia anti-indígena”
no País. Um dos objetivos seria impedir o reconhecimento e a demarcação das terras
tradicionais que continuam invadidas, na posse de não-índios. Outro seria
reabrir e rever procedimentos de demarcação já finalizados. Por fim, disse que
há ainda o interesse em invadir, explorar e mercantilizar as terras já
demarcadas e sob a posse de índios.
"Se não tomarmos iniciativas
muito firmes, coordenadas e articuladas, a tendência é de se aprofundar ainda
mais esse quadro de violências contra os povos indígenas", alertou.
Em seguida, Buzato listou
iniciativas e decisões adotadas, em separado, pelo Executivo, Legislativo e o
Judiciário que, a seu ver, traduzem interesses de ruralistas, mineradoras e
empreiteiras, entre outros segmentos do mercado. Uma delas seria o Decreto
7.957/2013), que regulamenta a atuação das Forças Armadas no “combate a povos e
comunidades locais” que resistirem a empreendimentos em seus territórios. Outra
veio por meio da Portaria Interministerial 60/2015, que define procedimentos a
serem seguidos pela Funai para licenciamento ambiental de empreendimentos que
impactam essas terras.
No âmbito do Legislativo, um dos
projetos é o PL 161/1996, da Câmara dos Deputados, que regulamenta a mineração
em terras indígenas, com abertura à exploração pelo setor privado, que hoje é
vedada. Foi citada ainda uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC 215/2000),
que transfere ao Congresso o poder de demarcar e rever a processos de terras
indígenas já demarcadas.
"Na prática, significa
atribuir à bancada ruralista o poder de decidir ou não sobre a demarcação das
terras. Se aprovada, a tendência é não passa mais nada", comentou.
Quanto ao Judiciário, Buzato
mencionou julgamento da 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal que atribuiu
interpretação mais restritiva a dispositivo constitucional que define o
conceito de “terra tradicionalmente ocupada pelos povos”. Com base nessa
decisão, segundo ele, foi possível anular atos administrativos de demarcação de
terras de povos Guarani-Kaiowá e Terena, no Mato Grosso do Sul, e do povo
Canela-Apãniekra, no Maranhão.
Desamparo
Alberto Terena, representante do
Povo Terena e da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), afirmou que
os povos indígenas e seus líderes vivem uma situação de desespero diante do
permanente desrespeito a seus direitos. Segundo ele, a luta não começou com a
atual geração nem as anteriores, mas desde que os colonizadores europeus
ocuparam o País. Lembrou que os Terena, hoje com mais de seis mil indivíduos,
dispõem de reserva com pouco mais de 2 mil hectares e esperam longamente pela
devolução de terras esbulhadas.
"Achavam que éramos poucos e
que seríamos exterminados ou integrados à sociedade. Mas isso não aconteceu, e
a nova geração se multiplica; por isso, precisamos das nossas terras",
comentou.
Outro líder, Kâhu Pataxó, da
Federação Indígena das Nações Pataxó e Tupinambá do Extremo Sul da Bahia,
relatou a ocorrência de regulares conflitos na região e o assassinato de índios
que lutam pela recuperação de suas terras. Também denunciou o uso excessivo de
força, seja por efetivos da Polícia Federal ou da Polícia Militar do estado, na
tentativa de retiradas dos índios das terras. A seu ver, esses conflitos vão de
fato se agravar se vier a ser aprovada a PEC 215.
"O que vamos ver é o
extermínio final dos índios", comentou, antecipando que as comunidades
estão dispostas a dar a vida para garantir suas terras.
Antonio Carlos Moura, que falou
pela Comissão Brasileira de Justiça e Paz, também vinculada à CNBB, também
apontou ações de “conluio” entre o Estado brasileiro e segmento econômicos na
continuidade do esbulho de terras e direitos dos índios. Destacou a recente
encíclica do papa Francisco como fonte de inspiração para luta pelo
reconhecimento desses direitos.
Participou ainda da audiência a
antropóloga Patrícia de Mendonça Rodrigues, que comoveu colegas e plateia com o
relato da história dos Avá-Canoeiro do Araguaia, também mencionada no relatório
da Comissão Nacional da Verdade, de 2014. Caçadores, eles chegaram à região
fugindo das frentes de colonização. Por seguidas gerações, foram atingidos por
incêndios de aldeias, ações de caçadores de índios e ataques de tribos
inimigas, com sucessivos massacres.
Já reduzidos a menos de dez
indivíduos, foram então pegos, com a ajuda de agentes do aparelho de repressão.
Passaram a viver em área de uma fazenda do Bradesco, submetidos a violências e
privações. Só não desapareceram completamente porque se reproduziram, por meio
de uniões com indivíduos de outras etnias (Javaé, Tuxá e Karajá). Hoje somam
pouco mais de 20 pessoas.
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