Autoridades precisam entender o papel do Whatsapp na violência policial
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11:48
Por Bruno Paes Manso
Chacinas em grande escala estão
se reproduzindo em diferentes estados do Brasil, em boa parte dos casos sendo
precedidas por trocas de mensagens nas redes sociais. O caso mais recente havia
ocorrido em Manaus, quando 34 pessoas morreram entre os dias 17 e 20 de julho,
sendo 23 delas na madrugada de sábado. A ação ocorreu depois da morte de um
sargento durante um assalto. Na sexta-feira, depois do crime, mensagens de
pessoas que se identificavam como policiais passaram a anunciar a vingança,
pregando “caça à vagabundagem” e afirmando que “os caveiras vão trazer a
senhora morte”.
Em novembro do ano passado, em
Belém do Pará, nove pessoas foram assassinadas depois de uma intensa troca de
mensagens em redes sociais em que policiais diziam se articular para se vingar
de um colega morto. Os nomes dos bairros onde os homicídios seriam praticados foram
citados nas redes. Na madrugada, nove pessoas morreram e as fotos dos corpos
passaram a ser compartilhadas das redes sociais.
Em São Paulo, o ataque que deixou
19 mortos e sete feridos em Osasco, Barueri e Itapevi, chamou a atenção
principalmente pela capacidade de articulação dos envolvidos. Aparentemente,
eles agiram rapidamente, matando a todos ao longo de um par de horas. A autoria
do crimes ainda está sendo investigada pelas autoridades.
Casos suspeitos de vinganças
ocorridas depois de mortes de policiais vem assombrando os moradores dos
bairros mais pobres da cidade, onde se concentram estes crimes. Nas redes e
canais de internet, alguns policiais defendem abertamente a truculência. Blogs
com fotos de cadáveres que celebram a morte de suspeitos se mantêm faz anos no
ar, sem que ninguém seja responsabilizado. Nas redes de whatsapp de policiais,
endereços de suspeitos e fotografias são compartilhados. Quando há mortes, há comemoração e divulgação
das fotos do corpo.
Em um dos casos, publicados na
Ponte, ocorrida ano passado no Rio Pequeno, na cidade de São Paulo, quatro
jovens foram mortos durante uma perseguição policial. Fotos foram tiradas na
cena do crime, para depois serem repassadas pelo whatsapp aos parentes e amigos
das vítimas. A defensoria pública apontou os policiais como principais
suspeitos da ação.
A capacidade de articulação
proporcionada pela tecnologia, ao mesmo tempo em que estimula a celebração de
um narcisismo macabro entre policiais, é uma das hipóteses para explicar o
recorde de violência neste semestre e no ano passado nos casos de homicídios
decorrentes de intervenção policial. Em 214, foram 806 casos, mais do que em
2006 (608) e 2012 (715), anos de intensos conflitos entre policiais e
integrantes do PCC. O primeiro semestre deste ano, policiais mataram 413
pessoas, 74 a mais do que no mesmo período do ano passado.
Este semestre houve queda de
roubos. E os homicídios no Estado caem há 14 anos. Por que a violência policial
continuou a crescer? A celebração e o incentivo das mortes nas redes da polícia
é uma hipótese nada desprezível.
O padrão de vinganças como
respostas a ataques policiais não chega a ser novidade. Foi uma vingança que
marcou o começo do Esquadrão da Morte, em 1968,
quando o investigador Davi Parré foi assassinado. Policiais liderados
pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury prometeram no enterro do investigador
matar “dez bandidos” para cada autoridade morta.
Casos isolados vieram se
repetindo desde então, em quase cinco décadas de violência policial. Em 2006,
contudo, mais do que nunca, a vingança parece ter se tornado um padrão entre
integrantes da corporação. Depois dos atentados praticados pelo PCC, em maio de
2006, quando 59 agentes do estado foram mortos, uma intensa quantidade de
homicídios passou a ocorrer no estado ao longo de 7 dias, quando morreram 505
civis. O extermínio passou a resposta para casos de violência contra policiais.
Chacinas voltaram a ocorrer em
2012 e em 2014, aparentemente em respostas a homicídios de policiais ordenados
pelo PCC ou ocorridos em crimes comuns. Nos dias seguinte a casos com vítimas
policiais, carros e motos assombravam os arredores com assassinatos de
moradores locais. O whatsapp veio colocar combustível nessa engrenagem de
vinganças. A tecnologia, ironicamente, passou assim a acelerar o retrocesso de
uma civilização que as instituições democráticas, como Polícia e Justiça, deveriam proteger.
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