Atolada em dívidas, UFRJ precisa de R$ 120 milhões para não fechar as portas
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16:57
Agência O Dia
A melhor universidade federal do
país ainda não se recuperou da sua pior greve e agora se vê às voltas com os
cofres vazios. Depois de mais de 100 dias parada, a UFRJ precisa de R$ 120
milhões para garantir o fim do semestre que será estendido até março.
Longe de superar graves problemas
de infraestrutura e falta de pessoal, essa ‘senhora’, que já formou alunos
ilustres como o médico Carlos Chagas, o arquiteto Oscar Niemeyer e o escritor
Jorge Amado, chega aos 95 anos em pleno vigor. Por trás de muros pichados e
construções deterioradas pela falta de investimentos, há uma ilha de
excelência, responsável por uma das mais prestigiadas produções acadêmicas do
mundo.
No ranking divulgado este ano
pela Quacquarelli Symonds (QS), a UFRJ foi avaliada como a quinta melhor
universidade da América Latina, atrás da USP, Unicamp, PUC do Chile e
Universidade do Chile. Para conquistar uma vaga na elite do ensino
internacional, a federal do Rio dá lições diárias de sobrevivência. A começar
pelo investimento por aluno. Na UFRJ, a primeira instituição oficial de ensino
superior do Brasil, o gasto por estudante é de R$ 23 mil por ano (R$ 1.916 ao
mês).
Do orçamento de R$ 2,7 bilhões_ a
maior parte comprometida com pagamento de funcionários e aposentados_ restam R$
438 milhões para manter uma população de 80 mil pessoas, entre alunos,
professores e funcionários, espalhados nos 5,2 milhões de metros quadrados da
Cidade Universitária, na Ilha do Fundão, e em unidades instaladas em mais 10
municípios fluminenses.
O orçamento da instituição ganha
uma ajuda extra, no valor de R$ 58 milhões, com aluguéis de seus espaços, entre
eles: o edifício Ventura Tower, no Centro do Rio, o Parque Tecnológico e o
Centro de Pesquisas (Cenpes) da Petrobras, este último considerado a ‘Nasa do
Petróleo’, pela descoberta estratégica para o país do recurso na camada
pré-sal.
A redução de 50% nas verbas para
investimento impactou os programas de pesquisas. Na pós-graduação de
Antropologia Social, do Museu Nacional, referência mundial na questão indígena,
o trabalho dos cientistas em aldeias na Amazônia está ameaçado. “O pesquisador
não tem como custear do próprio bolso. Só de passagens são em torno de R$ 10
mil”, diz a professora Adriana Facina. O programa recebeu R$ 130 mil para o ano
_só 25% do previsto.
Na graduação, a falta de verba
prejudica a formação. Por falta de estrutura, o estudante de Ciências da
Computação, Frederico Souza, de 24 anos, não conseguiu testar na prática o que
aprende. “Os computadores não têm uma placa de vídeo necessária para a aula.
Então a professora não tem como mostrar funcionando. Fica só na teoria”,
lamenta.
Alunas do curso de Letras, Márcia
Matos, 25 anos, Larissa Sousa Costa, 20, e Ana Beatriz Castro, de 21 anos, se
queixam da falta de livros e ar condicionado na biblioteca. “Os professores são
muito bons. Mas me decepcionei com a infraestrutura. Falta tudo”, diz Larissa.
Para Márcia, que também estuda à noite, a violência no campus preocupa. Na
segunda-feira, um estudante foi assaltado e baleado no pé. “Não têm vigilância
e o campus é mal iluminado. Andamos em grupo e saímos mais cedo para não perder
o último ônibus, às 22h”, diz.
No QS World University Ranking,
publicação inglesa que avalia todos os anos as melhores universidades do mundo,
a UFRJ ficou este ano em 323º lugar, atrás da USP. Em relação a 2014, a federal
perdeu 52 posições, após corte de R$ 70 milhões no orçamento — quase uma
posição para cada um milhão de reais.
Mesmo com menos recursos, a UFRJ
está à frente de instituições bem mais ricas. A Universidade do Kansas, nos
Estados Unidos, por exemplo, possui metade dos alunos e quase o dobro de
investimentos da federal carioca. Mas ficou na 393ª posição, 70 abaixo da
federal do Rio.
No primeiro lugar está o
Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT na sigla em inglês). Entretanto,
a realidade financeira desta universidade é um sonho distante para as
instituições brasileiras, mesmo as de ponta como a UFRJ. Ela tem US$ 13,5
bilhões (R$54 bilhões) para 11 mil estudantes. O MIT é reconhecido pela
excelência na pesquisa e em tecnologia.
ENTREVISTA COM O REITOR ROBERTO LEHER
Estefan Radovicz/Agência O Dia
Mais próxima do Brasil, a
Universidade do Chile ficou em 206º lugar. Com R$ 2,1 bilhão, mantém 39 mil
universitários. Além de dois prêmios Nobel, a universidade formou 20 dos 32
presidentes, inclusive a atual Michelle Bachelet.
Sem dinheiro para fechar o ano
letivo, retomado após mais de 100 dias de greve, o novo reitor da UFRJ diz que
a situação está insustentável.
1. Diante dos cortes no orçamento, o que será priorizado?
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— Tivemos um corte de R$ 70
milhões em 2014. Nós não vamos cortar bolsa de estudante e interromper a
alimentação, que custa mais de R$ 13 milhões. Não podemos tirar a segurança da
UFRJ. Temos um patrimônio de R$ 1 bilhão em equipamentos. Nem reduzir gastos no
hospital universitário.
2. Como estão as contas da UFRJ?
— Temos dívidas no valor de R$
200 milhões. Desse total, R$ 120 milhões são despesas que não são postergadas
de serviços essenciais, como energia, água, esgoto, limpeza e segurança.
Algumas são de 2014. Algumas empresas têm capacidade de esperar por pagamento.
Não dá para rolar as dívidas indefinadamente. Tem um limite. O fato é que não
recebemos nenhuma posição do MEC .
3. Há muita obra parada.
— Nós tivemos corte de 50% em
investimentos. Temos equipamentos sofisticados adquiridos por pesquisadors que
precisam de energia, só que os prédios foram construídos há 50 anos. É preciso
fazer reformas que não sejam puxadinhos.
4. Quais as fontes de renda própria?
—Nossas principais fontes de
renda são os aluguéis do edifício Ventura Tower, no Centro do Rio, do Cenpes e
do Parque Tecnológico, no campus do Fundão, que rendem R$ 58 milhões. Esse
dinheiro vai para reformas emergenciais e assistência estudantil.
5. E o Canecão, quando será reaberto?
— Hoje é inviável reabrir o
espaço. O local precisa de reforma na parte elétrica. É um constrangimento para
a UFRJ não ter resolvido o uso do espaço que é crucial para os alunos dos
cursos de artes.
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