Frente de Izquierda na Argentina prova que é possível uma esquerda socialista que conquiste peso eleitoral
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11:18
André Augusto - Esquerda Diário
Trata-se de um exemplo que é de
interesse de toda a esquerda e de todos que andam desiludidos com a
possibilidade de uma política que não seja para enriquecer e para interesses
individuais, sentimento que no Brasil é massivo devido à traição do PT.
O Partido dos Trabalhadores
Socialistas, desde sua fundação no início da década de 1990 e com mais força
depois das jornadas de 2001 na Argentina, escolheu construir-se nas principais
concentrações operárias. Esta estratégia levou o partido a participar das
principais experiências da luta de classes na década kirchnerista, ser
protagonista do fenômeno do “sindicalismo de base” antiburocrático, e tirar as
lições de grandes conflitos como a luta dos trabalhadores de Kraft em 2009 contra
a patronal norteamericana, fortalecendo uma tradição da luta independente dos
trabalhadores junto à esquerda.
Ligada a este desenvolvimento, a
FIT, surgida em 2011, longe de um “fenômeno eleitoral” é produto de uma década
de luta dos trabalhadores na Argentina, atravessada por experiências de
recuperação de comissões internas fabris e ocupações de fábricas desde 2001,
como Zanon e a gráfica MadyGraf (ex-Donnelley), e grandes batalhas contra a
burocracia sindical para recuperar os sindicatos como instrumentos de luta dos
trabalhadores. Representa, em síntese, o “salto” de uma enorme camada de
trabalhadores, mulheres e jovens, das lutas sindicais para a militância
política anticapitalista.
Uma mostra disso são os 1800
candidatos operários, os principais referentes da luta de classes na Argentina,
que acompanham Nicolás Del Cãno, dirigente do PTS e candidato a presidente pela
FIT, na campanha eleitoral, o peso das mulheres em cada chapa e a juventude
trabalhadora e estudantil que se soma à política desde a esquerda contra
Scioli, Macri e Massa, os candidatos do ajuste.
Atualmente, a FIT representada
por Nicolás Del Cãno é a quarta força política nacional na Argentina. Isto
ocorre porque manteve a independência política dos trabalhadores frente aos
partidos patronais. Del Caño denunciou os políticos corruptos da burguesia nas
sessões do Congresso, dando exemplo na defesa do programa, inspirado no
primeiro governo dos trabalhadores da história, a Comuna de Paris de 1871, de
que todo alto funcionário de Estado ganhe o mesmo que uma professora e seja
revogável, doando o restante às lutas dos trabalhadores como dos metalúrgicos
de Lear, junto aos quais foi reprimido com balas de borracha nos piquetes da
Rodovia Panamericana pela Polícia Federal.
Esta prática política,
desconhecida no Brasil, é uma mostra poderosa de como é possível atuar de
maneira revolucionária no parlamento sem separar-se da luta dos trabalhadores.
Na contracorrente disso vemos experiências como a do Podemos no Estado espanhol
que, desde sua fundação, aliou-se a setores do reformismo e da burguesia, e
como o Syriza na Grécia que, com um discurso “antiausteridade” que não tinha
nada de anticapitalista, terminou por aplicar um verdadeiro ajuste neocolonial
contra os trabalhadores.
É de se perguntar a razão do por
quê setores da esquerda, por exemplo o MES/PSOL, deu grande apoio a estes
mesmos reformadores utópicos do capitalismo sem pouca ou nenhuma relação com os
trabalhadores, como o Syriza (e depois ao igualmente reformista Unidade
Popular, ex-Plataforma de Esquerda, que sequer conseguiu 3% dos votos para
alcançar uma bancada parlamentar) e chega ao ponto de defender os atributos
"socialistas" de um apoiador das guerras do Iraque e do Afeganistão
como Bernie Sanders do Partido Democrata dos EUA, mas é incapaz de olhar ao
lado para enxergar o grande exemplo de independência de classes que é a FIT.
O êxito eleitoral da FIT mostra o acerto em ligar a intervenção
parlamentar à luta de classes
Ao observar a forma como a
esquerda se habituou durante décadas a atuar nas instituições parlamentares da
democracia burguesa, é inevitável lembrar da estratégia com que o
revolucionário russo, Lênin, defendia esta intervenção tática. Exatamente
porque a esquerda se habituou a fazer o contrário. Para Lênin, a atuação dos
revolucionários no parlamento deveria servir para demonstrar com maior
facilidade o por quê semelhantes instituições devem ser dissolvidas pela luta
dos trabalhadores.
A maioria das organizações da
esquerda separa a atuação nos parlamentos da intervenção na luta de classes e
acabam sendo corrompidos ou se afastam da vida e luta dos trabalhadores. Dessa
forma, ao invés de demonstrar a necessidade de “suprimir” a democracia dos
ricos, e substituí-la pela democracia dos trabalhadores a caminho do fim da
sociedade de classes, rapidamente se incorporaram ao Estado burguês ou
fracassaram como alternativas.
A experiência da FIT em geral, e
do PTS em particular, contradiz a hipótese deste amplo arco de organizações,
inclusive que se reivindicam trotskistas, que no passado degradaram o programa
revolucionário para “chegar às massas”, entusiasmando-se com projetos de
partidos sem uma estratégia anticapitalista de independência de classe. Mostra
que é possível conquistar peso em setores de massas sem abandonar a luta para
que o movimento operário se transforme em sujeito político, avance das lutas
sindicais à militância política e construa um partido com independência de
classe que lhe seja próprio.
Trata-se de uma conquista para a
esquerda internacional na medida em que expressa, ainda em pequena, mas
significativa escala, a correção de uma estratégia para construir partidos
revolucionários a nível internacional, ligados à classe operária e com
capacidade para influenciar setores cada vez mais amplos do movimento de
massas.
Nos espelhamos neste exemplo do
PTS para construir uma esquerda dos trabalhadores para fazer diferença na luta
de classes no Brasil e debater em nosso país a conformação de uma Frente de
Esquerda e dos Trabalhadores desta natureza, por isso convidamos Nicolás del
Caño para vir ao Brasil em novembro.
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