O Legislativo de Angicos e sua educação racista e homofobica
Postado por
Unknown
às
17:35
Por Modesto Neto*
“Ninguém liberta
ninguém, as pessoas se libertam em comunhão” - Paulo Freire
A Câmara Municipal de Angicos, no
interior do RN, aprovou com modificações o Plano Municipal de Educação (PME) na
sexta (23), em sessão dirigida pela presidenta Nataly Felipe que compartilhou a
mesa diretora dos trabalhos com representantes da Igreja Católica e pastores
evangélicos. Na mesa unilateral não coube nenhum ativista dos direitos humanos,
nenhum militante da comunidade LGBT, nenhum representante religioso das
religiões não hegemônicas (espiritismo, umbanda, candomblé) e sequer um professor
que tenha participado do comitê de construção do PME teve direito a voz.
A condução arbitrária da
Presidência da Casa não promoveu o debate democrático em torno das modificações
que foram propostas ao PME, audiência pública não foi convocada para tratar o
tema, e, a presença na mesa foi facultada apenas ao setor religioso que
reivindicava mudanças no plano. A cantilena promovida contra a presença do
termo “gênero” foi o tom uníssono daqueles que deblateraram em defesa da
“família tradicional”. O Legislativo vestiu a indumentária do conservadorismo e
não facultou a palavra aos que construíram coletivamente o projeto que foi
modificado sem um debate qualificado. O trabalho anterior de construção do
projeto feito pela comunidade escolar em parceria com docentes da UFERSA foi desconhecido
de forma vexatória.
A bizarra modificação que foi
promovida pelo Legislativo, pode ser vista e comparada abaixo:
Texto original: Meta 3 –
Estratégia 3.5
Implementar políticas de prevenção ao abandono motivada por
preconceito ou quaisquer forma de discriminação, tais como; (de gênero,
situação financeira, etnias, opção sexual, etc.) criando rede de proteção
contra formas associadas de exclusão.
Texto modificado: Meta 3 –
Estratégia 3.5
implementar políticas de
prevenção a evasão escolar, buscando minorar o abandono por parte dos alunos,
garantindo aos mesmos a permanência na escola e consequentemente aproveitamento
do aprendizado.
O PME é o plano que define as
metas, objetivos e as estratégias que a educação local deve adotar para acabar
com o analfabetismo e formar cidadãos conscientes, críticos e preparados para o
exercício da cidadania ativa e o ingresso no mundo do trabalho. Sob essa
orientação o plano previa a implementação de políticas de enfrentamento a
preconceitos, constituindo uma rede de proteção que evitasse que crianças
negras e pobres ou jovens LGBT’s, abandonassem as escolas pela coerção da
discriminação. Os valores da cultura de tolerância e da diversidade foram
sabotadas por um Legislativo estulto que ergueu acima da promoção da cidadania
o diapasão do conservadorismo religioso.
O Legislativo que aprovou por 8 a
1 uma modificação da meta 3 da Estratégia 3.5 do PME, nega a triste realidade
de crianças e jovens que abandonam a escola por serem vítimas de opressões como
o racismo, a discriminação social e de gênero. A cultura da violência que está
impregnada no interior das escolas só resulta em fatídicos acontecimentos que
marcam o cotidiano escolar e alavanca os índices de evasão. Neste sentido, a
educação pública, gratuita, democrática e popular jamais será uma prática real enquanto
expressões como o racismo e a homofobia não forem sistematicamente combatidas
na escola e na sociedade. O Legislativo ao negar essa realidade vai à contramão
da promoção da cidadania e advoga a legitimação de uma lógica perversa que
naturaliza o racismo, a homofobia e o preconceito contra a pobreza.
O Legislativo angicano age de
forma anacrônica e medieval ao atentar contra os valores basilares de uma
educação inclusiva e por isso deve ter sua decisão questionada. As organizações sociais como a OAB e as
entidades de Direitos Humanos devém interpelar política e judicialmente a
modificação proposta pela Câmara Municipal. A luta por uma educação inclusiva continua
na contestação e no debate que, vise com clareza, devolver o viés inclusivo e
emancipador ao Plano Municipal de Educação. Uma Câmara acéfala não suprimirá o
combate que a educação dará a todos os tipos de discriminações e preconceitos
que operam no seio da sociedade. Na cidade onde Paulo Freire plantou a semente de
uma pedagogia revolucionária não permitiremos que calem a voz dos oprimidos.
*Professor de História, cientista social, militante dos Direitos
Humanos e dirigente do PSOL.
