“O marxismo brasileiro precisa se renovar”: entrevista com Alvaro Bianchi e Marcelo Badaró
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12:51
Em 1998, ano em que o Manifesto
Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels completou seu 150o aniversário,
surgiu no Brasil a Revista Outubro. Seu manifesto de lançamento editorial
apresentava uma revista marxista independente, cuja vocação estava na
publicação de artigos e resenhas dedicados à atualização da pesquisa teórica e
empírica crítica do mundo capitalista. Seu corpo de colaboradores era formado
por pesquisadores e professores experientes e jovens acadêmicos e era
principalmente do trabalho dedicado destes últimos que a revista retirava sua
vitalidade e dinâmica.
A Revista Outubro nasceu com a
meta de agregar e divulgar o pensamento de intelectuais marxistas em um
contexto cujo ambiente acadêmico e a opinião pública brasileira se mostravam
fortemente refratários à contribuição teórica e analítica destes. Seu desafio
era o de enfrentar, por um lado, o agressivo avanço das ideologias do “fim da
história” e da morte do ideário socialista e revolucionário, sob as quais se
erguiam e sustentavam governos neoliberais ao redor do mundo. Por outro, o de
compreender e enfrentar as forças centrípetas e centrífugas que desagregavam e
desorganizavam o que restara da cultura marxista e criavam polos efêmeros de
atração intelectual, cujo alcance se esgotava na estação seguinte.
Hoje, passados pouco mais de 15
anos, a Revista Outubro decidiu disponibilizar todo o material produzido na
Internet e passará a publicar suas próximas edições exclusivamente online. São
dezenas de artigos e resenhas acessíveis gratuitamente, com pesquisas e
comentários bibliográficos a respeito de diversas tradições marxistas
brasileiras e internacionais. O objetivo é dinamizar a produção e divulgação de
seu material, bem como democratizar o acesso de antigos e novos leitores e
leitoras ao conteúdo da revista.
Leia a seguir a entrevista com
dois fundadores da Outubro, os professores Alvaro Bianchi (Unicamp) e Marcelo
Badaró (UFF), sobre a trajetória desta revista, a atualidade do marxismo e os
desafios para o futuro.
Como surgiu a Revista Outubro? Quem fazia parte dela? O que motivou seu
lançamento?
Alvaro Bianchi – A revista
Outubro surgiu da percepção de que no final dos anos 1990 existia uma renovação
do pensamento socialista e uma reativação dos movimentos sociais. O sinal havia
sido dado pela greve geral na França, em 1996, e pela revolta em Chiapas, no
México, em 1994. A revista foi lançada em outubro de 1998 e em novembro de 1999 ocorreu a grande manifestação
contra a Organização Mundial do Comércio, em Seattle. Acho que nossa
caracterização estava certa.
No início reuníamos quatro grupos
diferentes. O primeiro era formado por professores da Universidade Estadual de
Campinas, como Edmundo Fernandes Dias, Márcio Bilharinho Naves e Ângela Tude, que
haviam se afastado da revista Crítica Marxista, depois que Edmundo foi excluído
de seu comitê editorial. O segundo era de professores e ativistas do Rio de
Janeiro, como Marcelo Badaró Mattos, Juarez Duayer, Marina Barbosa e Elisa
Guimarães, os quais estavam envolvidos na criação de um centro de formação
política e sindical chamado Instituto de Estudos Socialistas (IES). O terceiro
era organizado por Robério Paulino e reunia ativistas do IES de são Paulo. O
último desses grupos era de jovens pós-graduandos da Universidade Estadual de
Campinas, dentre os quais estávamos Ruy Braga e eu.
Marcelo Badaró – A revista surgiu
em 1998, a partir da iniciativa de um grupo de professores (universitários e do
ensino básico), estudantes e militantes políticos associados ao Instituto de
Estudos Socialistas, fundado com o objetivo de promover cursos de formação
política e difundir o debate teórico marxista. A nossa principal motivação era
ocupar o que diagnosticávamos como uma lacuna entre os periódicos marxistas
disponíveis.
Pretendíamos construir uma
revista capaz de aprofundar o debate sobre a teoria marxista e as grandes
questões da luta de classes hoje, que fosse ao mesmo tempo consistente do ponto
de vista das contribuições ao debate e interessante para um público leitor
militante que iria além dos espaços acadêmicos.
É muito comum encontrar no ambiente acadêmico e na opinião pública
brasileira a ideia de que o “marxismo morreu”, que as ideias de Karl Marx e
Friedrich Engels não possuem atualidade alguma. Como você localiza o pensamento
marxista nos debates teóricos e políticos atuais?
Alvaro Bianchi – É um processo
que tem um desenvolvimento desigual e combinado. Houve nos últimos anos uma
importante expansão das universidades públicas brasileiras e isso permitiu o
ingresso no sistema de ensino superior de novos professores e pesquisadores. Se
nossa caracterização estivesse errada o pensamento marxista não teria sido
beneficiado por essa expansão, mas o que ocorreu é que um número considerável
dos jovens professores, principalmente na área de humanas, tinham passado pelo
movimento estudantil ou sindical e eram influenciados de alguma forma pelo
pensamento marxista. Nos anos 2000 cresceu muito o número de revistas, de
centros de pesquisa e de encontros acadêmicos marxistas.
Mas como disse esse é também um
processo desigual. Houve de alguma maneira uma ruptura nos anos 1990 que
separou as gerações atuais das gerações precedentes. As razões são várias e eu
destacaria duas: o avanço da ideologia neoliberal e o processo de absorção de
muitos intelectuais promissores pela máquina de administração estatal petista.
Dessa maneira as novas gerações de intelectuais marxistas tiveram que recomeçar
seu trabalho praticamente do zero. Isso teve um preço bastante elevado. Em
minha opinião teoria marxista produzida hoje
no Brasil está aquém daquela dos anos 1960 e 1970. O marxismo brasileiro é
muito influente, mas precisa renovar-se e estar mais atento ao debate
internacional, particularmente àquele que tem lugar na Inglaterra e nos Estados
Unidos, que são hoje os centros dinâmicos de desenvolvimento da teoria
marxista.
Marcelo Badaró – Acredito que a
fase mais dura do antimarxismo nos debates públicos foi vivida nos anos 1990.
Desde 2008, com a nova etapa de manifestação mais aguda da crise capitalista,
os nomes de Marx e Engels voltaram a ser reconhecidos, ao menos como analistas
relevantes da economia capitalista, muitas vezes até por porta vozes de um
pensamento econômico liberal.
No entanto, o estrago produzido
pelo antimarxismo acadêmico dominante desde anos 1990 foi forte o suficiente
para que as novas gerações de professores e estudantes de pós-graduação tenham
sido formadas, na maior parte das vezes, com uma visão estereotipada e
preconceituosa do marxismo, que se reproduz amplamente nas áreas de Ciências
Humanas e Sociais. Daí a importância dos centros de estudos marxistas e de
revistas como Outubro, que se constituíram em trincheiras de resistência,
aglutinaram marxistas dispersos em vários departamentos e instituições e
ajudaram a formar uma nova geração de intelectuais críticos e militantes que teve
muito pouco contato com o marxismo nas suas salas de aula.
O que é a renovação do marxismo hoje?
Alvaro Bianchi – A renovação do
marxismo significa, a meu ver, enfrentar dois desafios hoje. Primeiro, o de um
novo retorno crítico à obra de Marx e Engels, à luz das descobertas que a nova
edição da Marx-Engels Gesamtausgabe (MEGA) tem permitido. Temos hoje no Brasil novas traduções de
importantes obras, as quais tem permitido estudos mais atentos às sutilezas do
texto marxiano. Os primeiros passos tem sido dados nessa direção. Mas ainda há
dívidas a serem saldadas, por exemplo, com a obra de Engels, frequente e
injustamente desvalorizada, e com os escritos históricos e políticos que Marx
produziu na década de 1860 e 1870.
Significa, em segundo lugar, ir
além dessa obra e enfrentar, com o método de Marx e a partir de suas pistas,
quatro críticas que considero fundamentais: a crítica da economia política
contemporânea, a crítica da política presente, a crítica da atual divisão do
trabalho e a crítica das ideologias pós-modernas. Para renovar-se, ou seja,
para enfrentar esses desafios, o marxismo brasileiro precisa internacionalizar-se e superar seu
apoliticismo.
O marxismo brasileiro é ainda
provinciano. Precisa colocar-se em diálogo com as correntes mais férteis do
marxismo no mundo. E necessita, também, sair das universidades e vincular-se de
maneira mais íntima aos movimentos sociais e aos partidos de esquerda. Sem essa
internacionalização e sem a politização a renovação enfrentará limites intransponíveis.
Nos últimos anos, assistimos a um ciclo de revoltas e revoluções ao
redor do mundo em que a juventude desempenhou um importante papel importante,
bem como a Internet e suas redes sociais. Como pensar esse novo momento de um
ponto de vista marxista?
Marcelo Badaró – Penso que a nós
cabe o desafio de compreender em que medida tal participação da juventude, com
suas potencialidades e limites, se relaciona à dinâmica da luta de classes, ou
seja, de que forma podemos entender como as novas configurações do conflito
entre capital e trabalho potencializa revoltas dessa natureza. Por exemplo,
compreendendo como os protagonistas de muitos desses movimentos foram/são
jovens com formação escolar mais elevada que seus pais trabalhadores, mas que
apesar disso, em quadros sociais de avanço do desemprego e da precarização, já
não possuem sequer a perspectiva do trabalho regular, quanto mais a de ascensão
social. Isso, no entanto, não os faz identificarem-se automaticamente como
parte da classe trabalhadora e, especialmente, os leva muitas vezes a rejeitar
genericamente todas as organizações tradicionais da classe, como os partidos e
os sindicatos. O que, diga-se de passagem, é um sentimento reforçado pelo
percurso errático da maior parte dessas organizações nas últimas décadas.
Alvaro Bianchi – O número 22 da revista Outubro trará um
interessante artigo de Colin Baker que permite pensar esses processos políticos
e sociais. Em vez de falar de “movimento sociais”, como boa parte da literatura
tem feito, enfatizando as particularidades de cada um, ele propõe retornar à
formula marxiana de “o movimento social em geral” para apreender as formas e
manifestações variadas de revolta popular contra o atual desenvolvimento
capitalista. Eu acho essa uma fórmula promissora que pode ajudar a compreender
esse ciclo de revoltas e revoluções de um ponto de vista marxista. O que o
marxismo permite é uma análise desses movimentos do ponto de vista da
totalidade, como diz Lukács, apesar de sua heterogeneidade interna.
Não foram poucos os que tentaram
explicar esses processos políticos e sociais. E nem sempre os marxistas
acertaram. Algumas formulações que tentam atribuir a esses movimentos o caráter
de “movimentos de classe média” são, a meu ver, claramente deficitárias teórica
e empiricamente. Mas as melhores respostas foram dadas pelos marxistas e eu
fico muito feliz em perceber que alguns deles são colaboradores da revista
Outubro.
No caso brasileiro eu estou
convencido de que foi um membro do Conselho Editorial da revista Outubro, Ruy
Braga, quem matou a charada das revoltas de junho de 2013. O conceito de
precariado que ele desenvolveu para explicar traços importantes das classes trabalhadoras
brasileiras, permitiu compreender as principais características dessas
revoltas: a juventude de seus integrantes, o fato da maioria deles trabalhar, a
espontaneidade do movimento, sua radicalidade e, também, seu caráter
ideologicamente confuso.
O nome da revista, Outubro, faz
uma referencia ao processo revolucionário de 1917, na Rússia, quando os
trabalhadores tomaram o poder do Estado, dirigidos por figuras como Lenin e
Trotsky. Quase cem anos depois, é possível dizer que aquele “outubro” se mantém
como referencia? Em que sentido?
Alvaro Bianchi – Nós estávamos em
uma daquelas discussões intermináveis sobre o nome da revista, quando Márcio
Bilharinho Naves sugeriu Outubro. Foi um consenso instantâneo. Porque, de certa
maneira, Outubro sintetiza nosso programa. A revista tem um perfil
anticapitalista, antirreformista e antiburocrático. Seu programa é, também, o
programa da revolução Russa de 1917. Acho importante destacar que em outubro de
1917 teve início um período riquíssimo de desenvolvimento da teoria marxista.
Algumas correntes dogmáticas tentaram reduzir esse desenvolvimento a este ou
aquele líder soviético. Mas o que a revolução permitiu foi um impressionante
movimento de ideias e o surgimento de correntes intelectuais inovadoras: o pensamento
jurídico de Stuchka e Pashukanis; a linguística de Bakhtin e Volossinov; a
teoria econômica de Rubin e Preobrazhenski; a historiografia da escola de
Pokrovski; além é claro, do desenvolvimento do pensamento político de Lenin e
Trotsky.
Isso sem falar das vanguardas
estéticas na poesia, na literatura, na música e nas artes plásticas, das quais
gosto muito. Descobri há pouco algo que deveria ter conhecido há muito, a opera
de Shostakovich, Lady Macbeth do Distrito
de Mtsensk, inspirada na obra de um narrador russo que Walter Bejnamin
apreciava muito, Nicolai Leskov. A obra de Shostakovich é impressionante, de
uma complexidade notável. Como muitos, esse compositor foi perseguido pelo
stalinismo, que não lhe perdoou o fato de ter começado sua carreira com o apoio
do comandante do Exército Vermelho, o grande estrategista Mikhail Tukhachevsky,
executado em 1937 por ordem de Stalin.
Essa tradição teórica e cultural
está longe de ter esgotado todo seu potencial e pode continuar a estimular um
marxismo laico, livre de todo culto à personalidade. Por isso a revolução de
outubro é não apenas uma referencia política, é, também, uma referencia
intelectual.
Marcelo Badaró – Para nós, no
momento de fundação da revista, o nome Outubro indicou um horizonte político
claro: o de um marxismo comprometido com a transformação socialista, que só
pode ser alcançada pela via da ruptura revolucionária. É nesse sentido que a
revolução de 1917 continua a nos inspirar.
A orientação marxista
revolucionária da revista nunca foi construída de forma dogmática ou sectária.
Pelo contrário, nossa intenção sempre foi tomar a experiência soviética como
objeto de reflexão. Temos como ponto unificador do coletivo a perspectiva
crítica ao estalinismo, mas procuramos não receitar fórmulas revolucionárias
definitivas. Por isso mesmo, o debate sobre as estratégias revolucionárias é
outro ponto aberto nas discussões da revista.
(Entrevista publicada
originalmente no blog do PSTU-Curitiba. Disponível em: http://bit.ly/1n18F1a).
Categorias:
Ciências Sociais
