É possível reconstruir uma esquerda revolucionária depois da ruína do PT ou esta soterrará toda a esquerda?
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23:52
Por Valério Arcary
As virtudes dos homens são semelhantes ao voo dos pássaros.
A ave que se habitua com a paisagem rasteira, perde o gosto pela
altura.
Sabedoria popular indiana
A pergunta veio de um jovem
militante da Feira de Santana que assistiu a um debate na Universidade Estadual
no primeiro semestre. É ou não possível reconstruir a esquerda depois da ruína
do PT? Ou a ruína do PT significará uma avalanche que irá soterrar toda a
esquerda, incluindo aquela que é oposição ao governo?
Em outros termos: merece ainda
ser seriamente considerada a "maldição" lançada por Zé Dirceu em
1992, quando a Convergência Socialista foi expulsa do PT: "fora do PT
estarão condenados ao gueto da marginalidade".
Esse é o argumento mais repetido
contra a esquerda revolucionária. Resume-se a uma lamentação: não adianta ter
razão nas críticas aos governos do PT, mas não conseguir sair da condição de
minoria. Eis a grande dúvida: é possível ou não ir além da condição de minoria
e, ao mesmo tempo, ser oposição ao governo Dilma?
Já existe ruptura com o lulismo
A resposta a ela não é difícil:
sim, é possível, mas há uma pré-condição. Só poderá acontecer quando se
levantar uma grande onda de luta no movimento dos trabalhadores e da juventude.
Propostas revolucionárias não ganham influência de massas a não ser em uma
situação revolucionária, ou pelo menos transitória.
Por outro lado, uma avalanche já
começou. A ruptura com o petismo não é algo para um futuro incerto. São muitos
milhões que já romperam. É toda uma enorme parcela da geração mais jovem da
classe trabalhadora que já perdeu esperança no lulismo. O que há de velho, de
apodrecido, de corrompido no movimento dos trabalhadores e da juventude precisa
ser deslocado, para abrir o caminho. Acontece que o ritmo dos dois processos
não é o mesmo.
A questão é saber se aqueles que
rompem com o lulismo encontrarão ou não, exterior ao PT e em oposição ao
governo, um polo de esquerda suficientemente forte que possa ser um ponto de
apoio para a defesa dos seus interesses. Todos aqueles que hesitam em romper
com o governo atrasam esta dinâmica. Aqueles que se posicionam no meio do
caminho não são menos responsáveis, podem ser até mais perigosos.
Preparar-se para esta disputa
exige lutar para ocupar posições estratégicas nas organizações dos
trabalhadores contra os governistas. Ajudar a vanguarda a educar-se no
marxismo.
Defender a democracia no
movimento. Construir a frente única para lutar e impulsionar a unidade de ação.
Fortalecer o trabalho de organização de base nas empresas, desenvolver
campanhas internacionalistas, deslocar as burocracias aonde for possível, e
construir novos instrumentos de luta como a CSP/Conlutas, ou a Anel e outras.
Tudo isso e muito mais são as tarefas que estão ao nosso alcance.
Compreender que os ritmos da
história podem ser cruéis, porque estes treze anos não foram fáceis, sem
desmoralizar, sem desesperar. Saber esperar e ter confiança de que o
proletariado irá se levantar, novamente, com disposição revolucionária, como já
o fez no passado, ou seja, valorizar a firmeza ideológica.
O que coloca uma segunda pergunta
(e esta não é fácil responder): quando virá essa grande onda? Ninguém pode
responder por antecipação. Não há sismógrafos infalíveis de situações
revolucionárias. Mas as condições objetivas amadurecem. Sempre amadurecem mais
rapidamente que as subjetivas.
A hora da decisão chegará
A questão, portanto, é ajudarmos
a experiência dos setores mais lúcidos, ou mais decididos, de tal maneira que a
relação de forças se altere de maneira favorável o mais rapidamente possível. O
que, sim, podemos dizer é que o ajuste do governo coloca a exigência de uma
mobilização proletária e popular para derrotá-lo. Isso passa nesta semana pela
greve bancária, pela greve dos petroleiros. Como passou pela greve dos
Correios. E teve um grande momento na manifestação da Paulista em 18 de
setembro. Na melhor perspectiva, pode evoluir, na medida em que o impacto do
ajuste econômico venha a ficar mais claro, na direção da greve geral.
Nesse processo a luta política no
interior da esquerda ficará, provavelmente, mais áspera, mais ríspida, mais
intensa do que antes. As relações entre organizações políticas rivais não podem
ser harmoniosas, fraternas, amenas já que todas as classes são socialmente heterogêneas,
incluindo o proletariado, e a disputa pela direção é um processo exasperado.
Podem, contudo, ser respeitosas. O respeito se define pela disputa em torno das
ideias. Desrespeitosas são quando se afastam da crítica dos argumentos e
degeneram em insultos que ofendem as pessoas.
O movimento dos trabalhadores nos
últimos cento e cinquenta anos à escala internacional, embora menos heterogêneo
que outros movimentos sociais, esteve dividido, grosso modo, em três grandes
correntes históricas: a reformista, a centrista e a revolucionária. É
inevitável que haja uma luta dura entre estes três campos políticos. Hoje estes
três campos estão bem delimitados. Os reformistas estão com o governo e os
revolucionários estão contra o governo. Entre estes dois campos se posiciona o
centrismo, que não pode apoiar o governo, mas não quer romper com o governo.
Se existe um padrão regular e
recorrente na história da esquerda mundial é o que nos ensina que, em situações
defensivas, a tendência moderada, portanto, programaticamente reformista, foi
sempre esmagadora maioria. Nessas circunstâncias, o centrismo, que oscila no
terreno da tática, erraticamente, porque não tem âncora estratégica de
programa, nem raízes sociais de classe, permanece em sua órbita de atração,
enquanto as posições revolucionárias estão condenadas a ser uma minoria. Só em
situações revolucionárias as ideias anticapitalistas podem conquistar maioria,
porque somente diante de uma profunda desmoralização burguesa, de divisão da
classe média e de disposição revolucionária de luta dos trabalhadores a
perspectiva do poder é, politicamente, visível por milhões.
A experiência histórica sugere,
também, que acontece uma inversão no descompasso relativo das relações
políticas das massas trabalhadoras e suas organizações, quando se abre uma
situação revolucionária. Expliquemo-nos: em situações reacionárias, em que as pressões
sociais hostis são imensas, as direções dos partidos marxistas-revolucionários
estão à "esquerda" das suas bases, estes militantes estão à
"esquerda" da vanguarda e a vanguarda está, por sua vez, à
"esquerda" das massas. Quando reina o ceticismo, e o senso comum é de
não ser possível mudar a sociedade, é preciso ousadia para marchar contra a
corrente.
Sabemos como este processo de
isolamento pode conduzir involuntária ou até imperceptivelmente a um
"exílio social" dos revolucionários. Quando a massa dos trabalhadores
perde a confiança em suas próprias forças, resistir às pressões de adaptação
política não é fácil, e as aventuras arrivistas de integração são generosamente
recompensadas. O afastamento dos grandes fluxos de opinião majoritários entre
os trabalhadores favorece pressões doutrinárias e, marginalmente, até
"patologias" sectárias. Os "nomadismos" intelectuais e as
"diásporas" políticas são uma das consequências das inevitáveis
rupturas que se precipitam em série, cisão após cisão.
Estas relações políticas entre
representantes e representados se invertem, porém, quando as relações de força
começam a mudar a favor dos trabalhadores e do povo. As massas giram abruta e
velozmente à "esquerda" e ultrapassam a sua vanguarda, e superam até
mesmo as organizações revolucionárias que, pela pressão das forças de inércia
política, reagem sempre, tendencialmente, atrasadas à evolução acelerada das
relações de força. Se este processo se confirmou como uma recorrência em todas
as revoluções urbanas, e atingiu seriamente até o bolchevismo, seria ingênuo ou
ligeiro imaginar que não voltaria a se repetir no futuro.
O destino da esquerda petista, da
Consulta Popular ou do PCdoB parece, portanto, mais perturbador que o da
esquerda revolucionária. É sobre eles que a avalanche da ruína do petismo
poderá desabar, porque não estão de acordo com o governo, mas se recusam a
romper com o governo. Não estão de acordo com a política econômica do governo
Dilma, opõem-se às metas do superávit primário de Levy, à elevação dos juros,
aos cortes no orçamento para a educação e saúde, à liberação do fluxo de
dólares que desvalorizam o real, que são, como é óbvio, a principal orientação
do Planalto para confortar os "investidores", o novo eufemismo para
burguesia.
Mas, atenção, não estão
satisfeitos, também, com a reforma ministerial que fortaleceu o PMDB, nem com o
retorno da CPMF. Nunca foram entusiastas do Bolsa Família ou das outras
políticas compensatórias. Já perderam as ilusões na política do Itamaraty,
depois da presença das tropas no Haiti, da recusa de oferecer asilo para
Snowden, da impotência diante da crise dos refugiados no Mediterrâneo.
Em resumo, é preciso procurar com
muito boa vontade, minuciosamente, para encontrar alguma política do governo
Lula que estas organizações apoiem. Estas posições são fáceis de entender. No
entanto, insistem em permanecer no governo, o que, admitamos, é mais do que
estranho. Depois de treze anos, é bizarro.
História ensina
Alguns explicariam esta
insistência tática com um argumento politicista, portanto, estritamente
eleitoral: a maioria dos dirigentes da esquerda petista e do PCdoB teria que se
resignar a um cálculo ‘realista’ de possibilidades de renovação de mandatos,
considerando que a sobrevivência eleitoral exterior ao PT seria muito difícil
nas condições impostas pelo coeficiente eleitoral.
É um argumento muito simples, mas
poderoso. Organizações políticas desenvolvem aparatos, e aparatos criam
interesses próprios. Esta teimosia estratégica que desafia o bom senso exige,
todavia, uma explicação marxista mais complexa, portanto, uma explicação que
deve condicionar os enfoques da análise política às pressões de classe.
As pressões que despedaçam a
esquerda brasileira, treze anos depois da posse do governo de coalizão liderado
pelo PT de Lula e Dilma, antecipam questões estratégicas que se colocarão à
escala internacional para todas as forças que se reivindicam anticapitalistas.
Nessa dimensão, embora resguardadas as inúmeras desproporções, vale a pena
tentar aprender com a história.
Um desafio semelhante esteve
colocada, há cem anos atrás, em 1915, tanto na Alemanha - para Rosa Luxemburgo
e a esquerda do SPD - quanto na Rússia - para Lênin e os bolcheviques - quando
o desafio a ser resolvido pela corrente internacionalista, dentro da Segunda
Internacional foi, primeiro, a separação e disputa de influência com o
reformismo e, depois, a atitude face aos governos Kerensky em Petrogrado em
1917 e Ebert/Scheidemann em Berlim, em 1918.
Ainda quando mantiveram
diferenças sobre o momento da ruptura não hesitaram em escolher o campo de uma
irreconciliável oposição de esquerda. Mas, tanto na esquerda alemã quanto no
bolchevismo, a relocalização não foi indolor. Exigiu uma intensa luta política
interna. As questões colocadas pelas rupturas não foram nem simples nem
ligeiras. Rosa Luxemburgo não só foi pioneira na polêmica com Bernstein, mas
chegou antes, também, à conclusão do caráter irreversível da adaptação da
corrente de Kautsky e Bebel no SPD alemão. Foi Lênin, no entanto, quem se
convenceu primeiro de que a divisão, pelo menos na Rússia, era incontornável.
Somente depois de 1912, contudo, conseguiu uma maioria entre os bolcheviques
para uma construção delimitada, portanto, independente.
Em ambos os países, as
circunstâncias da luta contra a esquerda reformista quase aniquilaram as alas
revolucionárias. Nem lembrar que, na maioria dos outros países, uma ínfima
minoria de marxistas permaneceu internacionalista. Parece sugestiva, portanto,
uma comparação histórica que remete ao terremoto que destruiu a esquerda alemã
quando da I Grande Guerra Mundial porque, em ambas as circunstâncias, as
hesitações determinaram os atrasos na reorganização da esquerda revolucionária.
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