Do ponto onde estamos: uma leitura sobre o momento atual da luta de classes no Brasil
Postado por
Unknown
às
10:51
Marcelo Badaró Mattos
A situação atual confirma as
muitas avaliações de que junho de 2013 abriu um novo momento na luta de classes
no Brasil.[1] As mobilizações multitudinárias, àquela altura, colocaram em
cheque o “sucesso” do modo lulopetista de governar. Se a polarização eleitoral
de 2014 rendeu ao governo capitaneado pelo PT a possibilidade de recompor bases
sociais de apoio, tendo por mote o voto no “menos pior” (face ao medo do
retorno do tucanato) e uma certa radicalização discursiva da candidatura de
Dilma, o acirramento da crise capitalista, ao obrigar o governo a uma
reorientação da política econômica, desvelou as máscaras: às favas com as
fachadas neodesenvolvimentistas e volta à carga pesada do arsenal neoliberal
clássico – juros elevados, mais retirada de direitos, cortes orçamentários nas
áreas sociais e privatizações em cascata.
Aproveitando o clima da ressaca
pós-eleitoral com o governo petista, a direita política mais radical lançou-se
às ruas, no primeiro semestre deste ano, buscando capitalizar os descontentamentos,
especialmente dos setores médios, com as políticas anti-populares do início do
segundo mandato de Dilma.[2] Um descontentamento, diga-se de passagem, já
manifesto em São Paulo (que se tornaria o epicentro da efervescência
reacionária) desde as eleições, conforme indicou a queda da votação petista
mesmo nos seus “bastiões” tradicionais.
A onda coxinha tinha respaldo
parlamentar. De aliança em aliança para ampliar a “base de apoio” no Congresso,
o governo petista conseguiu a proeza de se eleger com o Congresso de perfil
mais retrógrado da história recente do país, elevando o status de figuras
nefastas como Eduardo Cunha, que assumiu a presidência da Câmara e de fascistas
assumidos como Jair Bolsonaro que capitalizou a situação como figura pública da
reação (ou “mito” da coxinhada). Ambos eleitos por partidos da “base aliada”
diga-se de passagem. Na combinação das mobilizações reacionárias com as
articulações da bancada BBB (bala, boi e bíblia) criou-se o espaço para o
avanço da “pauta conservadora” no Congresso – redução da maioridade penal,
limitações ainda maiores ao aborto, estatuto da família, etc. – que despertou e
tem despertado resistências importantes. Sintomaticamente, porém, percebe-se
que se a “pauta conservadora” avança, mas encontra resistências internas no
congresso – permanece congelada no Senado -, as medidas de austeridade do
“ajuste fiscal”, com toda a transferência da carga da crise para o ombro da
classe trabalhadora, são aprovadas com agilidade impressionante.
De qualquer forma, as mobilizações
coxo-reacionárias do primeiro semestre refluíram, na medida mesmo que os
porta-vozes das organizações de classe dos dominantes negaram publicamente o
apoio ao “Fora Dilma!”. No entanto, um elevado grau de imponderabilidade no
jogo das manobras políticas entre o governo e seus opositores/aliados (oposição
política, mas apoio de classe à principal política do governo – o “ajuste
fiscal”) se manteve, em decorrência da dinâmica jurídico criminal da “operação
lava a jato”, na qual, em troca de algum tempo a menos na cadeia, próceres da
burguesia e da gestão do aparelho de Estado acabam por entregar cada vez mais
envolvidos em tenebrosas transações com dinheiro público.
Do lado de lá
O consenso até aqui evidente da
classe dominante em torno das medidas de austeridade como caminho para o
enfrentamento da crise é o elemento fundamental para a avaliação da
sustentabilidade ou não do governo Dilma. Tal consenso, porém, não é absoluto
ou imutável. As torneiras da combinação dívida pública/juros altos continuam a
irrigar os lucros dos bancos e as frações do capital aglutinadas nos fundos de
investimento (e todo o capital se garante por essa via, independentemente de
sua origem na produção do valor ou na intermediação comercial, de serviços e
bancária) continuam a saquear o fundo público à vontade – vide o aumento dos
recursos para o FIES (alimentando as grandes corporações finaceirizadas do
ensino superior privado) em meio aos cortes no orçamento da educação e a
ofensiva para capitalizar o Funpresp (fundo previdenciário complementar para o
funcionalismo público). Entretanto, as pressões para uma “flexibilização” do
ajuste, para o capital, se ampliam. Com a União e os demais entes federativos
sem recursos para continuar sobre-remunerando as empreiteiras (e seus gestores
hoje em grande parte encarcerados) nas obras do PAC e mega-eventos; com a
desaceleração da economia chinesa abalando as previsões de expansão do
agronegócio (que tem se apoiado na desvalorização do real para manter
“competitividade”); ou com a brutal queda do consumo de bens de consumo
duráveis (20% de retração na produção automobilística) há descontentamentos. É
essa pressão que explica os discursos de maior contemporização e ênfase na
retomada do crescimento feitos por Joaquim Levy, não a marola dos
“neodesenvolvimentistas” do PT. E o previsível agravamento da crise tende a
acirrar essas contradições.
Nada indica, entretanto, que a
classe dominante ou alguma de suas frações aposte na saída da derrubada de
Dilma para substituí-la por um vice peemedebista ou para buscar novas eleições
antecipadas em que a imprevisibilidade será a marca. As oscilações recentes no
jogo político, portanto, tem origem em outra dimensão de conflitos. É nesse
marco que talvez possamos compreender melhor o efeito que poderá ter a
admissibilidade do processo de impeachment por Eduardo Cunha, em ato de
retaliação explícita pela mudança de posição dos deputados petistas que
anunciaram voto pela admissibilidade de processo contra ele na Comissão de
Ética (sic.) da Câmara.
Oposição e situação se sentiram
realmente ameaçadas foi com as prisões de Delcídio Amaral – líder do governo no
Senado atualmente, mas diretor da Petrobrás no segundo mandato de FHC, vale
lembrar – e do banqueiro André Esteves – que financiou as campanhas de Dilma,
Aécio, Cunha e meio Planalto Central, além de presentear de Lula a Aécio com
viagens de luxo e ouros mimos. Diante da disjuntiva entre as grades da cela e a
tornozeleira eletrônica nos palácios urbanos em que residem, a opção por
delatar alguns comparsas de todas as cores partidárias e devolver uma parcela
pequena do botim aos cofres públicos não é assim tão difícil.
Como a reação imediata da volta
dos avatares dilmistas nas redes sociais e as comemorações de alguns petistas
(que antes diziam que “qualquer impeachment é golpe”[3]) deixaram evidente, o
gesto de Cunha tende a ser positivo para o governo, por propiciar uma
possibilidade à desgastada Dilma de ampliar sua base de apoio, polarizando
contra a figura do presidente da Câmara, cuja reputação é a pior possível. De
quebra, ao retirar as prisões da semana passada do centro do noticiário,
aliviam-se todos, de Lula a Aécio.
Do lado de cá
O avanço da direita reacionária,
inclusive para as ruas, decorre das “jornadas de junho”, mas essencialmente como
reação ao caráter de classe – da classe trabalhadora – daquelas manifestações.
E o “espírito de junho” não se dissipou completamente, nem pela reação de
direita, nem pelos esforços petistas – nas eleições e depois – de reaglutinar
as bases de apoio do lulismo. A onda de greves do segundo semestre de 2013 e
primeiro de 2014, embalada por mobilizações dos trabalhadores da área de
educação e pelas paralisações à revelia, ou contra, das direções sindicais
burocratizadas (garis, rodoviários, operários da construção civil, entre
outras) foi impulsionada por junho. Como o foram as ocupações urbanas na luta
por moradia, muitas delas dirigidas pelo MTST.
Greves na contracorrente das
direções sindicais e ocupações urbanas continuaram a acontecer. A elas se somam
agora dois movimentos em que o “espírito de junho” parece reviver, com o adendo
de que neles não há espaço para a disputa da direção pela direita, visto que
sua pauta e perfil são essencialmente de enfrentamento contra a mesma direita:
a “primavera das mulheres” e as ocupações de escolas em São Paulo.
O sucesso das campanhas
feministas nas redes sociais e as expressivas mobilizações de rua do movimento
de mulheres pelo “Fora Cunha!” desnudam o verdadeiro sentido da “pauta
conservadora”: preservar a lógica do patriarcado que reveste a dominação social
no Brasil face a verdadeira elevação da consciência feminina e social na luta
contra o machismo cotidiano em sua brutalidade, hoje cada vez mais difícil de
invisibilizar. Por outro lado, dão o sinal para toda a esquerda socialista:
unidade de ação em uma pauta progressiva – “Fora Cunha!” e “Pela vida das
mulheres” – sem maiores espaços para as pautas governistas mal-disfarçadas em
“Defesa da Democracia”.[4]
Já as ocupações de escolas
revelam o melhor legado das jornadas de 2013. Jovens, de origem trabalhadora,
estudantes da escola pública, que se levantam contra o governo tucano e sua
política de desmanche da educação, em uma experiência de ocupação e auto-gestão
de escolas que representa objetivamente a possibilidade de formação de uma nova
geração de ativistas político-sociais comprometidos com as bandeiras
socialistas e experimentados desde cedo na luta. Luta que nos últimos dias vem
se acirrando, com os enfrentamentos entre a PM assassina – com seu arsenal “não
letal” tão popularizado em junho: spray de pimenta, cacetete, bombas de gás e
balas de borracha – e a estudantada armada da mais letal das ferramentas de
luta de que dispõe: as carteiras escolares, hoje usadas para simbolizar o que a
escola não é, mas poderia ser.[5]
Aos militantes da esquerda
socialista não há alternativa a não ser apostar na multiplicação dessas lutas.
Mas, com que perspectivas e programa de intervenção?
Nosso lugar
Estar inseridos nas lutas em
curso, nesta conjuntura, é a obrigação. Essa predisposição, por certo, nem de
longe resolve nossos problemas. Como atuar e com que propostas?
De uma lado, reatualiza-se a
necessidade da construção de uma frente da esquerda socialista, reunindo suas
organizações políticas e os movimentos sociais mais combativos e de perspectiva
classista, para intervir de forma articulada nos movimentos (e não apenas nos
cenários e momentos eleitorais, embora nem isso tenha sido possível nos últimos
tempos). A elevação do patamar de lutas, com a unificação dos movimentos
regionalizados e fragmentados em pautas setoriais, exige a formação de um polo
combativo mais amplo.
Além disso, para levar adiante
bandeiras essenciais nessa conjuntura – como a greve geral contra o ajuste
fiscal e a retirada de direitos dos trabalhadores – precisaremos construir
unidade na luta até mesmo com os setores da burocracia governista nos
movimentos sindical e “popular”, o que dependerá mais que tudo da pressão de “suas”
bases. No entanto, só teremos força de pressão e capacidade convocatória sobre
essas bases para levar adiante tais bandeiras, com autonomia e
representatividade, se construirmos uma atuação conjunta da esquerda
socialista, costurada por um acordo em torno de um programa comum de
intervenção.
Essa perspectiva não pode ser
confundida com a proposta de uma frente de movimentos e forças políticas que
inclua as organizações que dão sustentação ao governo que executa as medidas do
ajuste fiscal. Esse parece ser o caso da “Frente Povo sem Medo” que, embora
respaldada na respeitabilidade adquirida na luta pelo MTST, possui o efeito de
sustentar a ilusão de que é possível combater o ajuste em uma aliança estável
com a burocracia dirigente, que no dia a dia representa um dique de contenção
da classe trabalhadora. Se do ponto de vista tático-imediato, a participação
nas atividades convocadas por tal “Frente” pode representar um instrumento de
resistência em situações regionais como a do “Tucanistão” paulista, no plano da
conjuntura de média duração e em outras realidades regionais em que a
capacidade de vertebração do MTST inexiste (sendo a “Frente” é um mero slogan
do aparato governista), o apoio a esse instrumento cumpre o papel objetivo de
confundir as lutas da classe trabalhadora.
Por outro lado, será necessário
construir um programa de intervenção imediata que se ancore da luta realmente
existente – como o movimento de mulheres e as ocupações de escolas, aos quais
certamente se somarão movimentos de servidores estaduais em situação de
parcelamento salarial e atraso do 13o. em diversas unidades da federação, entre
outros – para propor alternativas dos trabalhadores para a crise. Não nos cabe
receitar o programa completo, substituindo o papel dos protagonistas reais das
lutas, nem tampouco lançar do alto palavras de ordem – como o “Fora todos!” –
na suposição de que terão aderência automática em lutas que estamos distantes
de dirigir, sob o risco de sermos tomados por oportunistas na esquerda, ou
confundidos com a direita pelo senso comum.
Mas, quem disse que algum dia foi
fácil?
Notas
[1] Ver Marcelo Badró Mattos.
Junho e nós: das jornadas de 2013 ao quadro atual. Blog Junho, 2 jul. 2015.
Disponível em: http://bit.ly/1HKrt21 e Ruy Braga. Os sentidos de Junho, Blog
Junho, 7 jul. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1N7Frb1.
[2] Ver Rejane Carol. Tropa de
elite do neoliberalismo (1): a “nova” direita brasileira e suas conexões
transnacionais. Capitalismo em Desencanto, 1 jun. 2015. Disponível em:
http://bit.ly/1SW3Uoa e artigos subsequentes no mesmo blog.
[3] Breno Altman. Altman: ‘Pedido
de impeachment é boa notícia’. Correio do brasil, 3 dez. 2015. Disponível em:
http://bit.ly/1Q4M2c8.
[4] Ver Rejane Hoeveler; Tatianny
Araújo. PL 5069/2013: um retrocesso
histórico para as mulheres brasileiras. Blog Junho, 28 out. 2015. Disponível
em: http://bit.ly/1NgLHB3.
[5] Rejane Hoeveler. A geração
que educou seus educadores. Blog Junho, 2 dez. 2015. Disponível em:
http://bit.ly/21BkDSR.
Categorias:
Artigos
