Indústria da Seca: o semiárido em colapso
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12:12
Por Aretha Melo e Thiago
Laurentino
A crise hídrica no sudeste,
especialmente em São Paulo, tem colocado sob holofotes o necessário debate
sobre a privatização da água. No semiárido brasileiro, que recobre quase todo o
nordeste e parte das Minas Gerais, esse processo de mercantilização se dá por
uma fisiologia distinta, que chamamos a “indústria da seca”.
A Caatinga, vegetação que se
estende por 895 mil quilômetros de semiárido, é hoje um dos ecossistemas mais
ameaçados do planeta. O desmatamento para o estabelecimento de latifúndios para
o agronegócio e áreas de mineração, as práticas extremamente nocivas e
hidrointensivas associadas a essas atividades, além da própria produção de
carvão e lenha, que compõem cerca de 30% da matriz energética das indústrias da
região, configura um cenário de devastação ambiental imenso para o semiárido,
que agrava em muito a restrição do acesso à água, pois afeta diretamente o
ciclo das chuvas e o prolongamento das estiagens na região.
Quatro anos de seca
O Nordeste como um todo entra em
seu quarto ano seguido de seca. Mesmo assim, os investimentos necessários para
lidar com a situação não foram feitos e o problema segue secundarizado. Apesar
de termos o semiárido mais chuvoso do mundo, é interesse do grande capital
demonizar um fenômeno natural que não pode ser derrotado nunca, e apresentar
políticas de mediação que permitem morrer de sede o gado e o povo do sertão.
É em grande medida por isso que o
cenário político é dominado por oligarquias herdeiras dos coronéis, que jogam
com o emocional das populações e, a título de propaganda, distribuem migalhas
de água para os sertanejos. Dentre elas está a família de Henrique Eduardo
Alves – deputado pelo Rio Grande do Norte por 44 anos! – acusado de manter
ilegalmente milhões de dólares fora do país e indiciado pelo Ministério Público
Federal por enriquecimento ilícito.
Em sua candidatura ao governo do
estado em 2014 – derrotada diretamente pela candidatura do PSOL, que levou o
pleito ao segundo turno – Henrique Alves colocou-se como paladino do combate à
seca, invocando a construção das grandes adutoras. Em outros tempos, figuras
públicas da direita reivindicavam a construção dos açudes, o estabelecimento
dos trens de água, a disponibilização de carros-pipas. Em realidade, todos os
esforços políticos vão para garantir a demanda de água do agronegócio e de
atividades extrativistas minerais, em detrimento de pequenos agricultores e
comunidades tradicionais que convivem há gerações com o semiárido.
96% dos municípios em situação de emergência
No Ceará, 176 dos 184 municípios
– ou 96% – decretaram, no ano passado, situação de emergência por falta de
água; ainda assim, a capacidade de armazenamento de água desse estado é
dezenove vezes maior que do estado da Bahia, detentora do maior semiárido do
país. Em Pernambuco, o nível de água acumulada nos reservatórios está em 13%, o
mais baixo entre os estados nordestinos. No Rio Grande do Norte, parte da
região do Seridó já vem fazendo rodízio de água há algum tempo, e a resposta da
Agência Nacional da Águas (ANA) é direcionar a vazão de açudes da Paraíba para
o estado – o que reduz a capacidade de abastecimento da própria Paraíba, que
vive situação muito crítica.
A própria forma de armazenamento
e distribuição utilizada pelas companhias de água e esgoto no semiárido ajuda a
entender a industrialização da estiagem natural. São utilizados
majoritariamente açudes, grandes reservatórios abertos e ineficientes, com
altos níveis de evaporação e contaminação, situados em sua maioria em terrenos privados,
cujos donos recebem subsídios do estado e indiretamente cobram da população que
recebe sua água em favores políticos.
Hoje, a Paraíba tem 17 açudes
completamente secos e 42 com menos de 10% do volume de abastecimento (de 124
totais); o Rio Grande do Norte tem dois açudes completamente secos e quatro
abaixo do limite de 10% (de onze totais), e o Ceará nove secos, e 82 com volume
a menos de 10% (de 139 totais). Isso significa que milhares de pessoas estão,
efetivamente, bebendo lama. O pouco de abastecimento que ainda persiste é
distribuído pelo sertão através de grandes adutoras, executadas da forma mais
cara e menos eficiente possível, e que privilegiam o abastecimento do
agronegócio, da mineração e da carcinicultura (criação de camarão).
Governo federal alimenta a indústria da seca
As políticas do governo federal,
por sua vez, alimentam a manutenção dessa indústria. Sem o desmantelamento das
oligarquias políticas que sustentam a privatização da água localmente, não há
como recuperar o semiárido; mas sem políticas sérias de proteção ambiental, de
reforma agrária, de aproveitamento das águas da chuva, a tendência é que o
semiárido brasileiro desertifique e perca a qualidade de mais chuvoso do mundo.
Os propagandeados programas de construção de cisternas são tão parcos que
aproveitam somente 4% do potencial de chuvas da região. Democratizar o acesso à
agua não é prioridade em nenhuma das esferas.
Um exemplo alarmante é o da
cidade de Santa Cruz/RN, fortemente afetada pela crise de abastecimento no
Seridó, em que estão sendo alocados cerca de 12 milhões de reais (previstos) de
recursos federais para a implementação de um teleférico num complexo de turismo
em torno de uma estátua da figura de Santa Rita de Cássia. Numa cidade com
porte de 40 mil habitantes e sem água mesmo em suas regiões mais nobres, o
turismo religioso recebe gordos subsídios federais.
Além disso, a região nordeste
mantem-se como uma das que tem menor acesso a serviços de saneamento básico e
água encanada, mesmo em centros urbanos importantes. Segundo levantamento feito
em 2014, em Salvador, 20% da população não tem acesso a esses serviços; já em
João Pessoa há saneamento básico para apenas 49% da população, em Fortaleza,
para 47%, em Maceió, para 39%, e em Natal, para somente 37% da população. Essas
populações não estão isentas dos aumentos abusivos nas taxas de água e esgoto,
mesmo que até as capitais dos estados dependam em grande medida de fossas
sépticas construídas independentemente nos seus quintais.
Um real investido na água poupa quatro na saúde
A cada um real gasto em
saneamento básico são economizados cinco reais nos gastos em saúde pública;
isso pode ser extrapolado para construção de cisternas, descontaminação de rios
e açudes, ou reflorestamento da caatinga.
O colapso hídrico no nordeste não
é iminente: é fato dado, e seu impacto reverbera até a costa, com maior
concentração urbana. A seca esvazia as áreas rurais – onde o agronegócio mantém
complexos sistemas de irrigação; os grandes centros urbanos tampouco podem
fornecer água limpa ou tratada para sua população – e, como é o caso de
Fortaleza e da termelétrica do Pecem, às vezes tem também seu abastecimento
desviado para alimentar a indústria e o agronegócio que já secaram os açudes do
interior.
Falar na população do nordeste é
falar de 55 milhões de pessoas, 22 milhões situadas na região de semiárido. É
falar de uma região que abriga 11% da população, mas 58% da população mais
pobre do país. É pensar nas vidas de milhões de trabalhadores rurais, na
garantia da sobrevivência de diversos povos, povoados, e comunidades
tradicionais da região.
Outro projeto de mundo
Com suas características
particulares, a transformação do ciclo diferenciado de chuvas de uma região
numa indústria da seca, que lucra com a sede de muitos, é também produto de um
sistema que explora, monetariza e transforma vida em mercadoria. Discutir a
privatização da água, no sudeste ou no nordeste, no Brasil, na Califórnia ou na
Irlanda, é discutir o rompimento com o capitalismo, a construção de um novo
projeto de mundo.
A estiagem é natural, a indústria
da seca não! Pela descontaminação imediata e substituição gradual dos açudes!
Pela garantia de aproveitamento do volume de chuvas do semiárido! Pela
ampliação e correção dos projetos das grandes adutoras! Pela garantia de
saneamento básico para toda a população! Por um plano sério de reflorestamento
e uso de energias limpas na caatinga!
