O que os imóveis do filho de sete anos de Temer dizem sobre a desigualdade?
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às
18:47
Leonardo Sakamoto
O ultrajante não é alguém morar
em um apartamento de 400 metros quadrados enquanto outro vive em um de 40.
O que desconcerta é uma sociedade
que acha normal um ter condições para desfrutar de um apê de 4 mil metros
quadrados enquanto o outro apanha da polícia para manter seu barraco em uma
ocupação de terreno, seja em Itaquera, Grajaú, Osasco, Pinheirinho, Eldorados
dos Carajás, onde for.
O presidente interino pode,
legalmente, antecipar a herança ao seu filho de sete anos de idade, como alega
ter feito, transferindo para seu nome dois imóveis que valem mais de R$ 2
milhões. Imóveis que, aliás, eram usados por Michel Temer. É um direito dele.
E ele também pode, alegando
restrições orçamentárias, decidir acabar com os subsídios a pessoas de baixa
renda dentro do Minha Casa, Minha Dívida – como teria decidido fazer, segundo o
jornal O Globo. Assim, o programa deixará de receber recursos do Tesouro
Nacional, a fundo perdido, para ajudar famílias que ganham até R$ 1800,00,
entre outras mudanças. É um direito dele.
Mas em um país em que a
desigualdade estrutural é mantida sob a justificativa de “a lei nos permite'',
esquecendo que a lei foi escrita, em muitas ocasiões, com a caneta dos mais
ricos ou em nome deles, a alegação desses “direitos'' soa como um tapa na cara.
É justo que todos que suaram a
camisa e conseguiram guardar algum queiram deixar uma vida mais confortável
para seus filhos. Mas, a partir de uma determinada quantidade de riqueza
(muita, muita riqueza), o que seria apenas garantir conforto transforma-se em
transmissão hereditária da desigualdade social e de suas consequências. Europa,
Estados Unidos, entre outros países, tentam resolver isso através de um imposto
grande sobre herança que irriga os cofres públicos ou força a doação via
fundações privadas.
Por aqui, a gente não precisa de
impostos sobre grandes heranças e grandes fortunas ou alíquotas maiores do
imposto de renda para quem ganha muito. Pois, quando a situação aperta, a
exemplo desta crise, é só cortar o investimento em educação e saúde públicos,
proposta que já havia sido anunciada pelo governo Temer. E, agora, também em
habitação.
Se o imposto sobre doações, como
a feita pelo presidente interino a seu filho, fosse maior, haveria mais
recursos para construir casas aos que nunca poderão pagar por elas.
Falta de empatia, de capacidade
de deixar o próprio conforto por um momento e se colocar no lugar do seu
semelhante? Não, sociedade de castas mesmo. E hereditária.
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