Os cinco clássicos esquecidos do Pink Floyd
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Unknown
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17:46
Pink Floyd é sinônimo de sucesso.
Parte integral do panteão dos grandes do tal “classic rock” (denominação
horrível, por sinal), a banda inglesa transitou pela psicodelia até amadurecer
e lançar discos multiplatinados durante a década de 70. De um grupo revolucionário
até o posto de trademark comercial, o Pink Floyd sofreu diversas metamorfoses
na música que produzia, em sua formação e nos conceitos que abordava.
Porém, nesta longa estrada, que
levou a banda até uma gigantesca turnê mundial de encerramento, em 1994,
diversos momentos acabaram sendo ofuscados, a ponto de o Pink Floyd hoje ser
reduzido à três discos, mesmo por fãs. É por ouvir falar tanto em Wish You Were
Here, The Dark Side of The Moon e The Wall que decidi revisitar a discografia
da banda como um todo. Nesta jornada, redescobri o prazer de ouvir discos como
Atom Heart Mother e A Saucerful Of Secrets, nomes que podem soar estranhos a
quem só conhece a música do helicóptero mas não deveriam, de jeito nenhum,
faltar ao fã dedicado do grupo.
5 – The Division Bell
É difícil considerar um disco
como Division Bell, multiplatinado e primeiro lugar da Billboard 200, como
injustiçado. Porém, passados 20 anos, o primeiro álbum do Pink Floyd sem Roger
Waters (não, eu me recuso a considerar Momentary Lapse of Reason como um álbum
d’O Pink Floyd!), acabou por ser deixado de lado nas eternas discussões dos
fanboys sobre quais são os discos mais importantes da banda. É muito claro que
este é um trabalho com a liderança de Dave Gilmour; suas guitarras guiam o
time, formado ainda por Richard Wright, de volta como membro, e Nick Mason,
único à época que esteve em todos os registros da banda.
High Hopes é o grande destaque
mas, diversas outras músicas demonstram um momento bastante criativo para o
guitarrista e seus comparsas, agora livres da influência (ou seria ditadura?)
de Roger Waters. Um dos problemas centrais do disquinho anterior era a falta de
talento dos três membros remanescentes para escrever letras. Wright era um bom
letrista, vide a belíssima e frugal letra da maravilhosa “Summer ‘68”. Porém,
sem colaborar com um único êxito na área desde Atom Heart Mother (apesar de
seguir um importante compositor na banda), seu dom para elucubrar lamentos
versando sobre a finitude das boas coisas da vida e a melancolia da nostalgia,
acabou por enferrujar. Gilmour, por sua vez, pouco colaborou com a banda em
termos de letras mas, em sua economia, forjou inesquecíveis momentos com Fat
Old Sun e Childhood’s End, a última baseada na literatura de Arthur C. Clarke.
Durante a gravação de Momentary –
e sabendo da importância dos conceitos para a sua banda, obra de Roger Waters
-, Gilmour chamou membros da banda britânica 10CC (aquela da música “I’m Not In
Love”, que ganhou cover aqui no Brasil pelas mãos da estonteante two hit wonder
Débora Blando) para escrever as letras do disco. Mas isto não evitou vexames do
tamanho de “Dogs of War”, em uma tentativa asquerosa de emular os sarcásticos
comentários políticos de Waters. Desta maneira, em The Division Bell, sua
mulher, Polly Samson, foi a salvação da lavoura; boa parte das letras são dela,
em parceria com o marido. Sobretudo, Poles Apart, um amargo comentário
endereçado à Waters, foi obra da dupla.
Musicalmente, os pontos altos de
TDB estão, também, nos instrumentais. O disco abre com uma atmosférica
introdução, “Cluster One”, com sons das crosta terrestre em movimento, fazendo
fundo ao piano de Rick Wright e a guitarra de Gilmour. A canção talvez seja um
pouco longa de mais mas, é um começo marcante. Marooned, por sua vez, é
perfeita. As letras de TDB são bem melhores do que as de AMLOR mas é dito muito
mais neste instrumental do que em qualquer outro momento do disco. A guitarra
de Gilmour nos transporta para uma ilha deserta, nos deixa com a sensação de
estarmos à deriva, perdidos, sem ninguém mas, ainda assim, inebriados. “What Do
You Want For Me?” é o momento onde o Pink Floyd 1987 ltd (a “razão social” da
banda à época) mais se aproxima dos trabalhos dos anos 70. A parte musical tem
algo de “Raise My Rent”, do primeiro disco solo de Gilmour, o que passa longe
de ser ruim já que é uma das melhores músicas daquele disco.
“Wearing The Inside Out” marca o
retorno de Rick aos vocais. Mais uma letra de “canalha” à vista, Wright dá o
tom, inclusive trazendo seu moog de volta para um breve solo, com aquele timbre
típico de “Shine On You Crazy Diamond”. Dick Parry ressurge, com seu saxofone
dando pinceladas ao longo da música, ao passo de “Us And Them”. A simpática
“Take It Back” é, dizem, uma tentativa de emular o U2. Porém , é bom lembrar
que aquela rythm guitar com delay, muito utilizada pela banda irlandesa, é
influência direta de Gilmour em sua fase The Wall.
Enfim, TDB é um bom álbum,
certamente muito superior ao seu predecessor imediato. Entende-se que não seja
posto ao lado dos grandes discos dos anos 70 mas, sem dúvidas, é uma prova de
que o Pink Floyd 1987 ltd poderia fazer muito melhor. E fez.
4 – A Saucerful Of Secrets
O Pink Floyd perdeu seu fundador
e mentor, Syd Barret, para as drogas e para sua provável esquizofrenia. Com um
gênio errático, impossível de ser previsto e pouco interessado em seguir
fazendo música mainstream, Barret deixava de ir aos shows e, quando ia, passava
longos minutos segurando uma única nota, sem balbuciar uma única palavra. Mesmo
para a banda que, com facilidade, avançava os 30 minutos em seus instrumentais
psicodélicos, era demais. Eles ainda tentaram manter “the piper” na banda,
chamando um companheiro das noites em Londres, Dave Gilmour, para tocar
guitarra, deixando Barret livre para fazer o que quisesse em cima do palco.
Porém, o líder do grupo não fazia
nada e cada vez mais se tornava impossível sua permanência. Ainda fazendo parte
do line-up, Barret teve seu segundo disco com o Pink Floyd, em 1968,
nominalmente, afinal só aparece em “Jugband Blues”, uma música gravada antes
das sessões do novo trabalho. A banda acabou descobrindo que Gilmour era,
também, um bom cantor. Por este motivo, ele aparece com sua voz em três das
sete canções do disco. “Let There Be More Light”, que abre o albúm, deixa claro
que a banda mudou com a entrada do novo membro. Ao invés dos riffs
idiossincráticos e semitonais, Gilmour deixa sua stratocaster brilhar, com
acordes abertos e criando uma massa sonora, diferente de qualquer uma das
músicas de “Piper” ou dos singles com Barret.
A linda “Remember a Day”, munida
da típica psicodelia melancólica que diferenciava a banda das demais crias da
West Coast americana , dá lugar à “Set The Controls of The Heart of The Sun”, a
egípcia extravagancia de Roger Waters. Ao vivo, a canção tomava nova dimensão,
com um final que explodia , em crescendo, em uma dissonância a lá “Interstellar
Overdrive”, que pode ser vista em “Live At Pompeii”. Outra pérola psicodélica é
See Saw. Novamente, a canção marca o estilo de Richard Wright compondo. Ela me
lembra um tanto de “Julia Dream”, um b-side do próprio “ASOS”; onírica,
melancólica e bela.
Em “A Saucerful of Secrets”, a
banda brinca, pela primeira vez, com o conceito de uma longa canção, com
movimentos e partes diferentes, representando um conceito. Apesar de primitiva,
é, de fato, um marco do período pré-rock progressivo, junto de outras poucas
bandas, que se moviam da psicodelia para o prog rock. Esquisita, noisy e com
uma apoteose melódica ao fim, a música é uma protótipo para o que banda faria,
com muito mais êxito, em “Echoes”.
“ASOS” , o álbum, é injustiçado
pois é visto apenas como um disco de uma banda em transição, assim como seu
sucessor, “Ummagumma”. Porém, tudo o que falta no álbum de 1969, está presente
aqui: canções com belas melodias e bem estruturadas; um experimentalismo
song-oriented; a presença de letras evocativas e, de forma geral, uma banda em
muito melhor fase. É verdade que “ASOS” é um disco transitório. Porém, é
verdade também que é uma progressão natural de “The Piper At The Gates of
Dawn”. Enquanto deu para seguir no mundo psicodélico de Syd Barret, a banda
amadureceu e criou um disco memorável, longe de ser apenas um trabalho lançado
para fazer número.
3 – Atom Heart Mother
Todo o fã “die-hard” de Floyd
adora o disco “Animals”, de 1977. É meio que um código; se você é fã “de
verdade” da banda, você considera a obra inspirada na literatura de George
Orwell como a sua predileta – mesmo que não seja. Creio eu que “Atom Heart Mother”,
de 1970, deveria gozar do mesmo status. Este é um disco bem mais difícil de
ouvir do que “Animals”; o experimentalismo agressivo e barulhento que nascia
com a música “ASOS”, acabou por maturar e se transformar em uma enorme peça que
reúne música concreta, elementos de trilhas sonoras, avant-garde, blues-rock e
corais no estilo ”micro-polifônico” de Geörgy Ligeti.
Para ajudar na empreitada, a
banda trouxe Ron Geesin, músico avant-garde inglês, dono de uma obra
esquisitíssima. Suas músicas consistiam em peças com sons de vidro quebrando,
risadas, órgãos dissonantes e textos falados. Foi este o mentor da banda em seu
disco, popularmente chamado de “disco da vaca”, por sua epónima vaquinha, Mimi,
na capa. Porém, prepondera o elemento melódico na peça homônima que toma todo o
lado A do vinil original; as esquisitices e colagens de Geesin funcionam com o
trabalho de guitarra de Gilmour, mais acentuado do que nunca até aquele
momento. Wright brilha também com seu Rhodes e o órgão Hammond. Segundo Roger
Waters, a ideia era criar uma “trilha sonora para um filme que não existe”.
Porém, diferente de outros discos
do período, onde uma peça longa era a principal atração e as demais músicas
eram “fillers” para preencher o lado B, “Atom” segue, diminuindo a experimentação
da primeira faixa mas, mantendo o altíssimo nível. “If” é um número delicado de
Roger Waters, evocando o folk-rock, muito presente neste lado B. O próprio
considera que o “nascimento” do Waters letrista aconteceria em “Echoes”,
presente no disco seguinte, “Meddle”. Porém, “If” carrega elementos que se
tornariam clássicos, se distanciando das evocações psicodélicas dos discos
anteriores e partindo para uma abordagem mais naturalista.
“Summer ‘68” traz Richard Wright
em rara inspiração. A música é um hino não oficial da nostalgia, uma ode de
Rick aos bons momentos e à amizade, que via sua vida mudando à medida que o
Pink Floyd se tornava uma banda maior. Nela, ressurge a orquestra que acompanha
a banda na faixa título, em contraste com o naipe de metais, que tocam o tema
da canção. Segue o estilo melancólico de Rick, já explorado em canções
anteriores como “See Saw” e “Remember A Day”, ainda que onírico e minimalista,
com o contraste direto da grandiloquência das cordas e metais. Um clássico
absoluto.
“Fat Old Sun” é a contribuição de
Gilmour ao “disco da vaca”. Folk, simples, bela e seguindo a linha nostálgica
de “Summer ‘68”, esta canção é toda do guitarrista, marcando a segunda vez que
escrevia uma letra sozinho, após a terceira parte de “The Narrow Way”, em
“Ummagumma”. O guitarrista reviveu sua obra durante a tour do seu último disco
solo, “On An Island”, para deleite dos fiéis fãs de “Atom Heart Mother”. Por
fim, o disco retorna ao tom psicodélico com “Alan’s Psychdelic Breakfast”.
Talvez este seja o único “filler” em “Atom”, uma longa canção, com elementos
típicos do infame humor britânico. O trabalho musical é interessante e se notam
lampejos do estilo que seria adotado em “Meddle,” nas inserções instrumentais
durante a saga de Alan, um roadie da banda, tomando café pela manhã. Apesar de
muito longa, é um final adequado para um disco que se gaba de ter uma trilha
sonora para um filme que não existe.
“Atom” divide os homens dos
meninos; é o Pink Floyd em sua quintessência, no limite máximo entre o saldo da
era Barret e a fase “lendária” que daria em “The Dark Side of The Moon”. Sua
longa faixa de abertura é uma mostra completa do que a banda podia fazer.
Porém, a verve experimental ainda era enorme, algo que se perderia nos discos
futuros. O Pink Floyd ainda não havia se decidido se seria uma banda enorme,
para lotar estádios de futebol, ou viveria o momento dos anos 70, que permitia
que “esquisitices” acabassem rondando os charts mas sem conseguir sair do
rótulo de banda avant-garde. Sabemos que o grupo tomou o primeiro caminho e se
tornou tão gigante que acabou virando uma “firma”; um “negócio”
multimilionário.
2 – Obscured By Clouds
O que esperar de um embrião de
“The Dark Side Of The Moon”? Esta é a natureza do sexto disco do grupo, lançado
em 1972. Elementos comuns ao magnum opus que se seguiria surgem na obra. Porém,
“Obscured By Clouds” tem uma identidade tão própria que acabou deixando de ser
um inócuo follow-up ao disco “More”, dada a sua condição de trilha sonora para
o filme de Barbet Schroeder, La Vallée (infinitamente inferior à sua
contraparte musical, diga-se de passagem). A surpresa é enorme; é impossível
que alguém, depois de conhecer o Floyd como “space rock” ou “opera rock”,
escute este disco e não fique coçando a cabeça.
“Obscured” merecia muito mais. E
teria, caso não fosse sucedido pelo disco que o sucedeu. É uma miscelânea de
canções incríveis, sofisticadas, que rejeitam o experimentalismo avant-garde de
“Atom” e, até, o metodismo progressivo de “Meddle”. Aqui surgem referências ao
passado – heavy metal em “When You’re In”, reminiscência de “The Nile Song” ou,
mesmo, psicodelia no estilo “ASOS” em “Absolutely Curtains”. Porém, o Pink
Floyd do guitar hero Gilmour surge com enorme intensidade, em canções como
“Mudmen”. A delicadeza inebriante de “Wot’s Uh The Deal…” só pode ser alcançada
por seu nome esquisito. “Free Four” é o Roger Waters de “The Wall” florescendo,
em uma canção que tem algo de “college rock”, alegre e saltitante, em contraste
com a letra onde vemos o gênio do grupo clamar pela primeira vez “i’m the dead
man’s son”. O que se veria atingir o apogeu em “When The Tiger’s Broke Free” no
futuro, se percebe aqui, ainda que longe do estilo hagiográfico adotado pelo
letrista no disco mais importante do fim do século XX.
“Childhood’s End” é “Time”. Em
uma tradição iniciada em “Echoes”, Gilmour utiliza-se de elementos do funk em
sua levada, penetrando o elemento de blues que é a raíz mais profunda de sua
ambivalência como músico. O Hammond de Wright corta violentamente o outro da
canção, como faria em “Breathe (In the Air)”, com o amplificador Leslie moendo.
“Stay” é Wright em seu apogeu melódico. A música tem as melhores qualidades
daquilo que o tecladista (melhor chamá-lo de pianista) faria em seu estonteante
álbum solo “Wet Dream”. A sofisticação perene do Pink Floyd sempre foi o toque
mágico deste músico, formado com o Cool Jazz de Miles Davis e uma aproximação
totalmente pessoal acerca da psicodelia, evocando uma beleza ora minimalista,
ora furiosa e sempre mística (como o órgão religioso de “Us And Them”). Em
“Stay”, a sensibilidade de Rick com a levada no piano é elevada com a simbiose
de sua persona com a letra. Nela, um “canalha” despeja uma mulher de sua cama,
mulher esta da qual nem lembra o nome. Mas eis que o “canalha”que compõe
melodia tão bela nos faz admitir; é um “misógino” adorável.
Como “Obscured”, bom de cabo a
rabo, pôde acabar desconhecido pela maioria dos fãs de “rock antigo”? Sem
dúvidas, obra de “The Dark Side of The Moon”. São discos gêmeos. Porém, “Obscured”
é muito mais leve e descompromissado, apesar de estar sempre rodeado por uma
densidade taciturna, imperceptível ao ouvinte desatento. Se o seu sucessor é
daqueles discos que demanda fones de ouvido e uma audição do início ao fim,
este aqui pode ser ouvido em retalhos, canções escolhidas para uma playlist.
Mas não se engane; este disco é tão precioso que você o incluirá completo em
sua listinha para ser ouvida antes de dormir.
1 – The Final Cut
“The Final Cut: A Requiem for the
Post-War Dream By Roger Waters and Performed by Pink Floyd” é o nome completo
do disco mais injustiçado do Pink Floyd. Injustiças começam pela forma como o
disco é tratado: consideram-no um disco solo de Roger Waters. Se “The Final
Cut” é um disco solo, “AMLOR” e “TDB” também gozam do mesmo status. Se o
trabalho de guitarra de Dave Gilmour está para ser desconsiderado neste disco,
não posso entender como um sujeito que assim conclui, se diz amante da banda.
“The Final Cut” é a única
sequência possível a “The Wall”. Waters, com seu inevitável niilismo, entendia
que, após a queda do muro, nascia o “post war dream” mas, conclui esta obra
prima com dois sóis no pôr da tarde. O mundo onde Pink e sua megalomania
maníaco-depressiva existia acaba por desaparecer, enquanto o assombro toma
conta do ouvinte quando Waters nos revela o seu mais célebre silogismo: “ashes
and diamonds, foe and friend, we’re all equal in the end”.
Waters comenta sobre Margaret
Thatcher, explicitamente na faixa de abertura, por seu envolvimento aberrativo
em um confronto militar desnecessário com a falida ditadura militar argentina.
Indaga: “what happened to the post war dream?”. Porém, com seu olhar totalmente
polivalente, Waters não poupa, também, os inimigos do capitalismo ocidental,
conclamando Brezhnev para uma “festa”, junto de Thatcher e Reagan, para que a
“solução final” fosse aplicada neles. Neste ponto, Roger difere centralmente de
artistas que, à época, faziam críticas ao capitalismo “selvagem” das forças
ocidentais mas se rasgavam em elogios ou mantinham silêncio sepulcral acerca de
ditaduras genocidas que estavam do outro lado do espectro (alô Chico Buarque,
seu “best friend forever” Fidel Castro matou muito mais “pedros pedreiros” e
“pacotes flácidos” que a ditadura militar no seu país!).
Em suma, todos os lados estão
perdendo. Como o próprio canta em “Too Much Hope”, de seu “Amused To Death”:
“muslim or christian, mullah or pope, preacher or poet who was it wrote, give
any one species too much rope and they’ll fuck it up”. Oh Roger!
Mas e a música? A música é
sublime! Michael Kamen foi chamado para “substituir” Richard Wright – na
verdade, acima de tudo, Kamen é responsável pelos belos arranjos de cordas
presentes no disco. O tecladista do Pink Floyd já havia sido demitido e
contratado como músico de apoio para tour do “The Wall”. Segundo Waters, Wright
estava tão afundado no vício em cocaína que pouco participou das sessões que
deram vida ao disco duplo. Por mais que David Gilmour sempre tenha tentado
fugir de qualquer responsabilidade sobre decisões desta natureza e criado uma
fantasia onde não tinha voz nenhuma dentro da banda (e que todos, seja na
imprensa, seja entre os fãs, compraram), o próprio Rick admitiu que, desde
“Animals”, estava “fora” do Pink Floyd.
Em “The Final Cut”, ninguém tenta
o imitar. Kamen não é um “tecladista” e tem um estilo diferente de tocar piano.
O que temos neste disco é uma música que, ora, beira o marcial, já explorado em
“Bring The Boys Back Home”, lembrando uma fanfarra. Porém, os sublimes e breves
solos de Gilmour trazem o disco de volta aos braços do Pink Floyd. A frase no
título “(written) by Roger Waters and performed by Pink Floyd” poderia,
facilmente, estar presente em “The Wall”. Ambas as obras são produtos única e
exclusivamente de Roger Waters, abrilhantados pela presença de seus
companheiros de banda.
Este disco necessita de outras
sensibilidades se não o gosto por rock’n roll. Muito antes de “Ça Ira”, a ópera
escrita por Waters, “The Wall” e “The Final Cut” foram, como lembra o nome, o
libreto principal e o requiem de uma ópera que descrevia o estado do mundo no
fim do século XX. O último capítulo de “The Final Cut” não foi uma previsão
furada: não erguemos dois sóis no pôr da tarde durante a guerra fria mas, a
eminência de uma aniquilação nuclear segue nos assombrando. Acabou a briga
entre os EUA e a União Soviética mas ainda existe o Irã e a Coréia do Norte
para lembrar ao mundo nossa tendência suicida. Enquanto Kubrick ria da cara da
humanidade com o opúsculo “Dr. Strangelove”, Waters olhava para o para-brisas
de seu carro derretendo, enquanto suas lágrimas evaporavam, deixando apenas
carvão para trás. E finalmente entendeu: “somos todos iguais, no fim”.
Obra prima.
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