Política & Literatura: entrevista com Modesto Neto
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Unknown
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12:47
O jovem estudante da Escola
Educandário Padre Félix, Pedro Henrique Braga, me entrevistou na semana passada
para um trabalho de sua escola. As nove perguntas feitas por Pedro, que tem
somente 13 anos, mostra o seu interesse por assuntos considerados de “gente
grande” e levanta questões fundamentais da política. Segue abaixo.
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Pedro Henrique Braga entrevistou
na manhã desta quinta (26) o historiador, cientista social, escritor e
militante político, Modesto Neto. As nove perguntas formuladas por Pedro
Henrique trataram sobre a vivência do entrevistado no mundo da literatura, suas
primeiras leituras, suas publicações e seus autores favoritos. O entrevistador
também falou de política, ideologia e expressou suas impressões do atual
cenário político nacional.
Modesto Cornélio Batista Neto, 26
anos, é historiador formado pela UERN onde foi membro do Conselho Superior
Universitário (o CONSUNI), então presidido pelo Reitor Milton Marques de
Medeiros, durante dois mandatos: 2011 e 2012. Modesto Neto também é cientista
social e mestrando em Ciências Sociais (com ênfase em Ciência Política) pela
UFRN. Em 2007 publicou uma coletânea de
poesias intitulada “Faces de um mesmo ser”, em 2009 uma nova coletânea foi
publicada com o título “Escritos do Silêncio”. No ano de 2012 publicou pelo
Clube de Escritores sua coletânea de crônicas: “Libertário”, com textos
inéditos e outros que já haviam sido públicos em jornais. Sua pesquisa
monográfica “O submundo da prostituição potiguar entre 1960 e 1970: relações de
poder e histórias de vida” que tratava da história de vida de prostitutas entre
as décadas de 1060-1970 foi publicada em 2016 pela editora paulista Barata
Cichetto.
Em 2013 Modesto Neto e um grupo
de militantes de esquerda oriundos do brizolismo se filiaram ao Partido
Socialismo e Liberdade (o PSOL) a convite do professor da UFRN, Robério
Paulino, que foi o candidato do partido ao Governo do Estado do Rio Grande do
Norte na eleição de 2014. Hoje Modesto
Neto é membro do Diretório Estadual do PSOL no RN e dirigente da organização
socialista Nova Práxis. Neste pleito de 2016, Modesto Neto é pré-candidato a
prefeito de Angicos pelo PSOL.
Pedro Henrique: Como foi seu começo na literatura?
Modesto Neto: Eu comecei
escrevendo poesia muito cedo. A professora Fatuca da Escola Estadual Joana
Honório foi uma grande incentivadora e em 2007, há quase 10 anos, saiu meu
primeiro livro que era de poesias. Em 2009 saiu o segundo, depois publiquei
crônicas e minha monografia já por uma editora, foi por ai. Agora tô esperando
sair um artigo meu que será publicado num livro de uma turma da universidade
federal de Pernambuco, esse meu texto que vai ser publicado fala das
manifestações de junho de 2013 quando houve muita mobilização e milhões tomaram
as ruas contra o aumento das passagens de ônibus, eu participei desse processo
e agora, alguns anos depois, vou publicar um longo artigo sobre esse recente
episódio da história brasileira.
Pedro Henrique: Quais suas principais inspirações no mundo da
literatura?
Modesto Neto: Minha mãe é professora
aposentada de português e é especialista em literatura, então eu comecei a ter
contato com o mundo da leitura muito cedo e no começo lia de tudo, gibi da
turma da Mônica, sítio do Pica-Pau Amarelo de Lobato até as aventuras de
Ivanhoé de Walter Scott que é um importante escritor escocês que inaugurou o
estilo do romance histórico no século 19, mas na época, com 13 ou 14 anos, eu
não sabia nem que existia a Escócia, eu só lia e gostava. Eu acho que essa
coisa da inspiração é muito complicado porque eu sou um leitor eclético, mas
digo com clareza que meus poetas favoritos são Fernando Pessoa, Camões,
Shakespeare e Castro Alves.
Pedro Henrique: E sobre política. O que te motivou a entrar na
política?
Modesto Neto: Na verdade todo
mundo já nasce dentro da política, as condições para que uma criança possa vir
ao mundo também são políticas porque precisa existir uma política de saúde, uma
ética da saúde, um corpo técnico de profissionais que seguem regras e normas
sanitárias que garantem que a criança venha com segurança a esse mundo. Então,
a política está em toda parte: na escola, na universidade, nos hospitais, nas
ruas. Mas, eu decidi militar politicamente porque a nossa cidade e o nosso
país, do jeito que estão, não nos satisfaz, não nos representa e não nos serve,
então a gente tem que mudar tudo isso e fazer uma coisa nova. Exemplo, a
maioria do povo do Brasil gravita entre a pobreza e essa baixa classe média que
é composta de trabalhadores que só tem carro e apartamento porque financiou
pelo banco pra pagar em prestações a perder de vista, ai a gente olha o
congresso e vê um monte de velhos ricos, corruptos e mentirosos, e, como esses
ricos e poderosos vão representar os interesses do povo pobre e dos
trabalhadores? Não vão. Não vão de jeito nenhum. Então, essa nossa democracia é
uma porqueira, precisa de uma reforma profunda que coloque o povo de verdade
dirigindo e liderando as coisas. Por isso que eu decidi entrar na política,
para dizer diretamente pro povo que a gente precisa tomar as rédeas do nosso
destino como povo e nação.
Pedro Henrique: Quais suas ideológicas políticas e suas principais
opiniões?
Modesto Neto: Eu procuro ser um
marxista, um socialista. O marxismo e o socialismo não é uma coisa que você
simplesmente é, é uma prática que você precisa ter. Se um homem bate em sua
esposa, discrimina homossexuais, é racista, pensa que as mulheres foram feitas
para servi-lo, se ele se sente confortável e feliz enquanto come filé e o seu
vizinho não tem o que comer, então ele não é um socialista, por mais que diga
que é. Eu tenho algumas opiniões sobre algumas coisas. Exemplo: porque existe
fome no mundo? O planeta terra produz alimento suficiente para alimentar duas
vezes a população mundial que é mais ou menos 7 bilhões de pessoas. Mas, o alimento
não é alimento, ele é mercadoria e se você não tem grana para comprar não
precisa sequer entrar no supermercado.
Então, existe fome no mundo porque o alimento é transformado em
mercadoria e eu acho que isso está errado porque no momento que o alimento é
somente uma mercadoria o próprio direito a vida tá cerceado, as pessoas não
sobrevivem sem alimentos. É por isso que eu defendo a reforma agrária e a
democratização das terras.
Pedro Henrique: Quais as suas inspirações na política? Cite algumas
pessoas que você admira.
Modesto Neto: São muitas. Leon
Trotsky, Karl Marx, Walter Benjamin, Ernesto Guevara, Nelson Mandela, Leonel
Brizola, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Plinio de Arruda Sampaio, Robério
Paulino.
Pedro Henrique: Como você vê o atual momento político do Brasil?
Modesto Neto: O momento é de uma
gravíssima crise que aponta um horizonte de retrocessos enormes e talvez
incalculáveis. A presidente Dilma já fazia uma gestão muito ruim e distante dos
reais interesses do povo, mas o afastamento dela colocou a frente do país o
Michel Temer que é muito pior, é horrível, é péssimo, é um monstro contra o
povo e seus direitos. A gente tem lutado por novas eleições porque o Temer não
nos representa. A operação Lava Jato tem suas limitações que são muitas, mas
nós estamos assistindo os principais quadros da república metidos até o pescoço
com corrupção, muita corrupção. É preciso varrer esses caras da política, esse
congresso e esse governo que são um lixo. Infelizmente os retrocessos com Temer
são grandes e parece estão avançando: a reforma trabalhista só acaba com o
direito dos trabalhadores, reduz o horário do almoço e salários para aumentar o
lucro dos empresários. Será preciso uma grande mobilização que barre esses
ataques porque só na rua vai ser possível, no parlamento o povo não tem nenhuma
confiança.
Pedro Henrique: Quando adolescente você já pensava em seguir essa
carreira de militante?
Modesto Neto: Em 2007 eu comecei
a militar ainda no ensino médio, eu era redator de um jornalzinho do grêmio
estudantil da Escola Estadual Desembargador Florestan Fernandes em Natal. Em
2009 na UERN fui eleito por duas vezes para o DCE como Diretor de Formação
Política. Eu não tinha tanta clareza com 17 anos, mas na universidade as coisas
ficaram claras e já sabia que aquilo era parte da minha vida. O movimento
estudantil foi uma grande escola pra mim.
Pedro Henrique: Como você decidiu entrar no PSOL?
Modesto Neto: O PSOL é o único
partido do Brasil que tem deputados federais e não tem sequer um filiado
envolvido neste escândalo da Lava Jato. É um partido socialista que mostra que
é possível fazer uma nova política sem os velhos métodos da política tradicional.
O PSOL é um partido necessário e isso me fez ingressar nele.
Pedro Henrique: Qual sua maior luta?
Modesto Neto: A minha maior luta
é a emancipação humana. Mas, para isso, a educação é um instrumento necessário
e importantíssimo. Eu diria que a luta por uma educação pública, gratuita e de
qualidade é minha principal bandeira.
Pedro Henrique: Obrigado pela entrevista, Modesto, com certeza deu para
conhecer um pouco da sua história. Pode deixar uma frase ou pensamento, fique à
vontade.
Modesto Neto: Obrigado Pedro!
Espero que tenha atendido as expectativas, Olha, tem uma frase do Victor Hugo
que eu acho muito bonita: Utopia hoje, carne e osso amanhã! Mais uma vez,
obrigado.

