A violência natural contra as mulheres e a administração da ignorância
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02:07
Marcia Tiburi
Revista Cult
Dias atrás, jovens brasileiros
escreveram sobre “A persistência da violência contra a mulher na sociedade
brasileira”, tema da redação do ENEM/2015. O assunto é dos mais importantes no
contexto da naturalização da violência contra as mulheres. Essa violência que
se tornou uma constante cultural e que é assunto de todos. Não há no Brasil
mulher que não tenha sofrido violência, que não tenha alguma mulher na família
ou não conheça quem tenha sofrido violência. Não há quem não seja ou não
conheça um sujeito ativo da violência contra as mulheres.
Na mesma prova, jovens do Brasil
todo responderam questões de filosofia envolvendo filósofos como Hobbes e
Nietzsche.
Entre esses nomes, Simone de
Beauvoir causou espanto a alguns. Políticos fascistas e oportunistas (os mesmos
de sempre e alguns novos que se reúnem ao coro que cospe no rosto infantil da
democracia brasileira) aproveitaram o momento para destilar seu veneno
ideológico fazendo moções contra Beauvoir (como os vereadores de Campinas!) ou
falando asneiras vergonhosas na imprensa em geral – imprensa, aliás, que lhes
dá todo apoio, da qual são, em muitos sentidos, os donos. Aqui não vou citar
nomes, porque, evidentemente, tudo o que querem é também ocupar os nossos
espaços. Esses políticos oportunistas sabem que é preciso administrar a
ignorância do povo, com a qual lucram. Sabem que é preciso aparecer o tempo
todo. O povo que concorda com eles, ou está com o pescoço preso às patas da
ignorância administrada, ou, tendo luzes para ver mais longe, opta pela má fé
mesmo. (Lembro de uma pessoa que era muito próxima a mim, uma pessoa muito bem
formada academicamente, dizendo sobre um dos personagens mais fascistóides da
política espetacularizada de nossa época: “X um cara legal”.)
O machismo estrutural é análogo
ao fascismo, ambos fundados na ode à ignorância. O machismo exacerbado e
espetacularizado (esse que grita contra as mulheres como gritam os fascistas
contra quem eles odeiam) é a continuação do machismo estrutural. A violência
simbólica e física contra as mulheres tem tudo a ver com isso. Ela está
autorizada na cultura da desfaçatez machista cujos sacerdotes atuais são os
administradores da ignorância, que espargem em sua cusparada ideológica a
naturalização da violência.
Um político carioca que bateu em
sua mulher há alguns anos, tornando-se mais um caso de polícia “esquecido” nos
armários do Estado, veio a público nesses dias com um discurso curioso a compor
o grande coro da naturalização:
“Eu cometi um erro. Eu traí minha
mulher. Você imagina a dificuldade e o calor dessa discussão. Associar isso a
um ato de violência doméstica, de um comportamento violento, isso em hipótese
alguma eu posso admitir. Porque isso não é minha atitude, eu não tenho qualquer
comportamento parecido com o que prevê a lei Maria da Penha”.
O discurso da naturalização no
texto acima citado separa estrategicamente o “erro” (que qualquer bom menino ou
aspirante a cargo público pode cometer) da “violência doméstica”, do
“comportamento violento”. Reduzir seu ato, confessado, de evidente violência, a
um mero erro, é uma bela estratégia discursiva quando se trata de convencer a
opinião pública de que, na verdade, não se fez um grande mal. Grande parte da
opinião pública provavelmente vai concordar porque a violência contra as
mulheres foi naturalizada a tal ponto que muitas das próprias mulheres
violentadas reduzem a violência sofrida à vergonha de terem sido espancadas e
retiram sua reclamação e sua voz da cena.
A naturalização é o texto.
Desfaçatez, o subtexto. Questionar isso tudo, não se deixar levar por
naturalizações, eis o desafio do momento.
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